A brisa do ano que (não) foi

Sem nenhuma surpresa vi as festas de fim de ano chegarem ausentes de qualquer empolgação durante os últimos suspiros de 2020. Estou longe de ser a pessoa mais cheia de expectativas com celebrações de Natal e ano novo, mas confesso que me abalou a inexistência de qualquer clima de renovação por essas bandas. E veja bem, questionei algumas tantas vezes, comemorar o que em um ano onde nada aconteceu? Ok, aconteceram coisas, a vida não ficou em suspenso durante os meses de pandemia, mas foi preciso lidar com diversas formas de adaptação e repensar nossa forma de reagir a tudo. Embora tenha parecido lento e desencadeado crises pessoais monstruosas, não vi o tempo passar. Pisquei e estávamos em dezembro, mês mais movimentado do meu humilde vinteevinte. Experimentei a sensação de que absolutamente todas as coisas possíveis acharam por bem dar as caras no mês 12, como se fosse socialmente aceito adiar os planos ao longo de meses e aparecer sem nem marcar horário com antecedência. Fui pega de surpresa e pensei que o surto viria, mas no fim das contas foi excelente ter uma oportunidade de ouro para fechar meus olhos e não precisar balancear as perdas e ganhos de 2020 no momento em que esperam que a gente o faça.

No fim de 2019 uma amiga fez uma sequência de stories falando sobre o YearCompass, uma espécie de guia que te ajuda a envelopar o ano que passou e preparar o que está para começar. Fiz o meu cheio de esperanças e sem ter uma mínima ideia da pandemia que nos observava de espreita perto dali. Foi curioso repassar por ele na hora de fazer a versão deste ano. Como perdi o clima de festividades, tomei igualmente meu tempo para planejar 2021 usando o YearCompass. Não sou tilêlê good vibes only e longe de mim fazer um textão falando sobre o quão enriquecedor foi passar por uma pandemia, mas tampouco sou ingrata. Repassei os últimos meses com um sorriso no canto do rosto ao pensar que, no fim das contas, coisas muito boas aconteceram APESAR da pandemia. As coisas ruins serviram de referência e lição, porém estou feliz em saber que agora elas representam capítulos encerrados e engavetados.

Antes do confinamento até tive a possibilidade de viajar algumas vezes e ver alguns shows! As restrições serviram de deixa para conhecer outras cidades nas imediações, o famoso “turistar sem sair de casa”. Passei mais tempo com meu parceiro, melhoramos nossas habilidades na cozinha, comecei a aprender holandês e perdi meu medo de andar de bicicleta. Os primeiros meses de pandemia esvaziaram as ruas de Haia, ocasião perfeita para as minhas poucas excursões para fora de casa fossem feitas de bike. Perdi o medo a tal ponto que já fui e voltei de outras cidades só de bicicleta. Foi uma significativa conquista pessoal.

Das minhas tradições de outros tempos, mantive apenas o apetite musical. Além de acompanhar meus artistas favoritos gosto de conhecer sons novos – o Descobertas da Semana do Spotify é meu melhor amigo – e se teve algo que fiz ano passado foi ouvir música. Magdalene, de FKA twigs foi meu álbum o ano, mas ouvi Barefoot in the park, parceria de James Blake com Rosalía, mais vezes do que poderia ser considerado saudável. Vi um campo de possibilidades para o cinema e a literatura, mas com o início da pandemia desacelerei o ritmo até parar por completo. Busquei me organizar melhor para mudar este cenário em 2021, pois sinto falta de livros povoando meu cotidiano. O nível de saudade dos filmes é o mesmo, porém já faz uns bons cinco anos que me desorganizado e nunca tiro um tempo para assistir algo em casa com a frequência que gostaria. A verdade é que ando com muita saudade de ir ao cinema. Tenho minha assinatura mensal e poderia ver até um filme por dia se quisesse, mas os cinemas seguem de portas fechadas por aqui. Um dos meus planos envolve, inclusive, aproveitar melhor este espaço para compartilhar o que tenho ouvido, lido e assistido.

Neste momento, quase um mês depois de começar um novo emprego, algumas das dores colocadas em evidência ao longo da pandemia seguem pungentes. É difícil, contudo, admitir. Conquistar confiança em si é algo que toma seu tempo e soa lento demais. É como caminhar com o diabo e o anjo dos grandes clichês, um em cada ombro, com um lado que te lembra do quanto você é batalhadora e forte, e com o outro te dizendo para baixar a bola porque você não é esse cabernet sauvignon todo (sim, eu usei vinho no lugar da coca pois odeio coca-cola). Meus contratempos são um nada perto das dores de quem foi muito impactado pela pandemia. Mas isso não é uma competição e não conseguiria fechar meus olhos para meus incômodos nascidos ou incitados pelo confinamento.

Por outro lado, tenho tentado pegar na minha mão e repetir todas as minhas vitórias – mesmo aquelas de antes da pandemia. Saí do interior e soube achar meu rumo em São Paulo, trabalhei com muita coisa legal, fiz um mestrado em outra língua, mudei de país duas vezes, tudo isso estando cada vez mais longe fisicamente de pessoas que não sei quando poderei ver outra vez. Tenho em mim muita força, embora sempre acabe fechando os olhos para ela nos momentos mais desafiadores. Depois de um período considerável sem traçar metas para o ano seguinte, quero arriscar um salto mais alto. Sei o quanto é característico se encher de esperanças e bolar mil planos a cada janeiro, mas ainda é uma boa deixa para botar a mão na massa e enfim me mover para tirar algumas ideias do papel. Deixo público para voltar aqui quantas vezes por necessário para ter algum alento quando der vontade de desistir.

De pouco em pouco quero me desligar de vez de opiniões alheias, parar de pesar e questionar tanto meu discurso antes de dar corpo ao que está aqui dentro, e dar total liberdade ao meu sentir. Deixar as coisas saírem e saber encontrar o caminho de volta para mim quando for hora para isso.