Corona diaries #5

Ilustração de Kati Kohl

[Você pode ler ao som de Où va le monde, de La Femme]

Você sabe o que é um Roepnaam? Quando cheguei na Holanda fui surpreendida por este campo em alguns formulários. Em tradução livre, é um “nome diário”. A língua holandesa não é das mais fáceis, os locais estão de acordo, e os nomes próprios não fogem desta curva. Muita gente foi batizada com nomes cristãos por essas bandas também. Em alguns casos, esses nomes não são tão fáceis de se pronunciar para quem não fala holandês. Quando uma criança nasce na Holanda, os pais escolhem o nome (na grande maioria dos casos são nomes compostos) e o tal do Roepnaam, pois bem, escolher um nome composto e um sobrenome é pouca coisa. É uma espécie de apelido no fim das contas, com a diferença de que ele vira quase o teu nome oficial porque as pessoas só te reconhecem por ele! Pareceu confuso? Pois bem, vai continuar sendo confuso como quase tudo na cultura local. Posso exemplificar com uma personagem bem conhecida e talvez dê para ter uma noção melhor: Anne Frank. Seu nome era Annelies Marie Frank. Anne não era nome ‘artístico’, mas seu Roepnaam, e todos eles constavam em sua certidão de nascimento.

Se um dia um conhecido holandês vier me relatar uma crise de identidade, terei o dobro de empatia. Coitadinho.

E já que estamos no tema Holanda, sinto que o Buienradar resolveu me pregar uma peça. O aplicativo em questão é um grande aliado da população holandesa, pois este belo radar meteorológico nos dá uma estimativa quase precisa das chuvas no país. Ele costuma ser bem eficaz e me ajudou muito a encontrar janelas sem chuva para fazer mercado ou sair para correr antes do Covid-19. Foi só falar de confinamento que ele deu para me dizer “Geen neerslag verwacht” (em livra tradução: nenhuma precipitação esperada) TO-DOS os dias. Muito sol e céu azul para nós. Porém basta abrir a porta do terraço um pouquinho para acalmar os ânimos: a ventania maluca deste país segue firme e forte e faz um frio de doer. Muitíssimo apropriado para ficarmos quietos de conchinha no sofá.

Nós somos, todavia, um casal muito culto – então vamos aproveitar que Nicolas não precisa trabalhar e passar a tarde lendo. Resolvi pegar um quadrinho para este domingo: S’enfuir – Récit d’un otage, de Guy Delisle. Eu AMO Delisle e recomendo todos os quadrinhos já publicados dele. Mas me faltava este, sua publicação mais recente. Ele conta a história de Christophe André, que foi sequestrado no Cáucaso durante uma missão para uma ONG em 1997. Ele relata sua experiência em cativeiro ao longo de 111 dias. Quer leitura mais adequada para um confinamento?

Mal sabia que ao começar seria acometida pelas ironias de meu intestino, que resolveu elevar o conceito de ficar em casa à máxima potência.

E já que apelei à escatologia (estaria eu deveras afetada pelas declarações do dito presidente do meu país de origem?), decidimos coroar o dia de hoje com Love is blind. A série coloca um pessoal para se conhecer “pelas paredes”, eles conversam e precisam se pedir em casamento sem nunca terem se visto. Um ponto excelente são as marcações: quando vi o “dia 1 do EXPERIMENTO” já estava com lágrimas nos olhos de tanto rir. É maravilhosamente horrível! Vi muitas pessoas recomendando antes do meu período offline do Twitter, alguns amigos indicaram, sabe-se lá como consegui desviar de tanto spoiler mesmo sendo tão previsível.

Mas é fato: conteúdos bobos como este são uma boa distração para quem sofre de ansiedade e não aguenta mais se sentir atingido com esse tanto de notícia ruim. É preciso uma dose de ignorância para não pirar em meio à tanta loucura.

Corona diaries #4

[Você pode ler ao som de wanderlust – Marika Hackman]

O dia amanheceu tão bonito. Com a primavera que se aproxima, o sol começa a despertar mais cedo. Nas minhas primeiras horas despertas de hoje ele chegou a arder os olhos, uma raridade nos Países Baixos. A santa ironia de não chover e termos um céu azul desses justo quando não podemos sair. Tomamos um café da manhã preguiçoso e decidimos fazer um rápido passeio de bicicleta para absorver um pouco do sol e respirar um pouco antes que anunciem um lockdown por aqui. Eu sei, não deveríamos… e eu não deveria ficar me justificando ou fazendo mea culpa, mas precisávamos de um respiro e de uma breve sensação de que tudo está sob controle. Sendo a sensação falsa ou não. Enganar-se com falsas esperanças ainda é uma alternativa, cada um faz o que está ao se alcance e por aí vai.

Somos dois, evitamos aglomerações, retornamos em tempo de preparar algo gostoso para o almoço. Nicolas fez um Poke. Às 16h tinha um encontro marcado com duas amigas no WhatsApp mais próximo. Participei do Podcast Conversa de Adulto, criado pela minha amiga Fernanda Lopes, junto com a Maíra. Nós três nos formamos em Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, em 2012, e seguimos rumos distintos em nossas carreiras. A origem do nome deste blog, por sinal, foi ideia da Fer. Ninguém quer sufocar ninguém com dicas-do-que-se-fazer-durante-a-quarentena, mas caso você queira uma dica de leitura, ela é co-autora de Lute como uma garota: 60 feministas que mudaram o mundo. Enquanto nossa colaboração não vai ao ar, você pode conferir os três primeiros episódios. Para podcasts chamamos de “episódio” também? Fica a questão. Foi uma delícia participar e aproveitar a ocasião para conversar com pessoas que possuem um cantinho reservado no meu coração e que não vejo há tanto tempo.

Em contrapartida à essa troca rica e animadora de experiências, tenho uma amiga francesa com sérias dificuldades para superar o término de seu namoro. Antes de conhecer meu companheiro, fui solteira por dez anos. Isso mesmo, você não leu errado: uma década aprendendo a conviver de forma harmoniosa com a minha própria companhia e sem grandes perspectivas de encontrar alguém para compartilhar minhas loucuras. Gosto de brincar que Nicolas foi meu presente por ter tirado o melhor que pude dessa experiência de tantos anos fazendo tudo sozinha. Tive meus encontrinhos e tentativas de me relacionar com outros caras no meio do caminho, levei tanto pé na bunda… cada término me deixou mais forte. Ser rejeitada não é fácil, a gente sofre mesmo. Porém tenho sérias dificuldades em aconselhar a amiga em questão pois do que acompanhei do relacionamento o cara nunca foi essa coca-cola toda. A moça escreveu uma carta de “despedida oficial” para o ex, e a resposta dele veio nesta linda tarde de sábado – e claro, não foi como ela esperava. Passamos uma hora ao telefone enquanto eu tentava consolá-la. Estou há quase dois meses tentando ajudar, embora tudo que eu diga pareça passar batido. Em certa medida acabo por exercitar um bocado de empatia: como não sofrer com o coração partido em tempos de confinamento, ainda mais quando você não tem um emprego ou um mestrado para ocupar sua cabeça? (Aceito sugestões)

Vi uma notícia sobre um grupo de elefantes que « invadiu » uma província e se empanturrou de milho e vinho (!). Estranhei, dada a descrição dos fatos, e fui atrás de mais informações. As fotos são de fato adoráveis, mas a verdade é que a quarentena alimentou o potencial criativo de muitas pessoas e temos aí grandes ficcionistas em ação.

Vamos fechar nosso sábado com uma versão em Anime de Altered Carbon que acabamos de encontrar na Netflix. Terminamos a segunda temporada há pouco tempo, que por sinal não é tão boa quanto a primeira, mas gosto bastante da série. Não é tão ruim assim ficar confinada quando consigo encontrar escapismos na ficção ❤

Corona diaries #3

[Para ler ao som de Burning, de Maggie Rogers]

Para uma pessoa muito sensitiva, é curioso não ter sido assombrada pelo Corona Vírus em sonhos. Quando estou paranoica com algo eles povoam meu inconsciente com muita facilidade enquanto durmo. Pois de ontem para hoje a angústia e as sensações ruins de uma ameaça invisível apareceram vagamente. Sonhei que perdia uma viagem num cruzeiro (????) porque me enrolava finalizando a mala. Tive tempo para arrumá-la no sonho, mas decidi fazê-lo em cima da hora e perdi várias coisas no meio da arrumação. Senti cada olhada no relógio e cada consulta ao Google Maps para checar a estimativa de tempo do percurso até o ponto de saída do cruzeiro como se estivesse de fato acontecendo. Meu inconsciente é maluco. Vamos ver como ele responde pelos próximos dias.

Me sinto um tanto incomodada com a obrigação de estar informada e ter que participar do movimento da vida mesmo confinada. É preciso ler as notícias e manter-se atualizado, entendo, mas precisa ser o tempo inteiro? É assim tão urgente perguntar às pessoas se elas estão à par do fato x ou y? Precisamos mesmo fazer olhar todos catálogos de cursos online gratuitos que nos são oferecidos no momento? Se a gente não dá conta de todas as séries dos serviços de streaming, imagine o tempo perdido a filtrar todas essas oportunidades. E será que a gente quer mesmo se sufocar de conteúdos diversos no momento que vivemos?

São muitas perguntas, tempo transbordando para buscar respostas, vontade de continuar quieta e tocar a vida como já vinha fazendo antes da pandemia. Com leves adaptações, claro, como se eu saísse até então. Começo a sentir saudades de ir ao cinema às 11 da manhã (estar desempregada tem seus deleites), de ir tomar um café na rua enquanto leio no meio da semana, de se permitir uma cerveja no pub com Nicolas depois da aula de holandês. Nada imprescindível, ainda posso ver filmes, fazer um lanchinho da tarde e dividir um drink com ele em casa, e isso me faz pensar no quão fácil é se fechar em casa quando você PODE fazê-lo e ainda pode assistir ao fim do mundo enchendo alguém de abraços e beijos. Vantagem que pode virar perigo à produtividade de quem trabalha, visto que um carinho inocente pode ser brecha para uma atividade sexual inusitada no meio do expediente.

Leio alguns textos e crio uma pasta com imagens que posso usar para ilustrar os diários enquanto meu companheiro cuida da janta. Não saímos de casa hoje, mas ele vai nos proporcionar uma rápida viagem – gastronômica – à região de Haute-Savoie, onde morávamos quando nos encontramos. Por sinal, temos aqui uma saída deliciosa para quem sente vontade de viajar no momento e não pode: que tal testar uma receita típica de outro país? Cozinhar é um ato de amor, seja para si mesmo ou para outras pessoas, e é preciso dedicar um momento ao preparo, o que faz passar o tempo e ocupar-se.

Ele preparou um Diot, uma salsicha típica de Haute-Savoie. Na receita dele, ela cozinha em um molho maravilhosa que leva manteiga e leite no preparo. Para acompanhar, ele fez um purê de batatas. Ficou delicioso, e é provável que o dia de hoje acabe tranquilo assim – com comida boa, um bom vinho, pois ninguém precisa acordar cedo amanhã, e a serenidade de quem está saudável e (por hora!) protegido.

Corona Diaries #2

A arte é de Rafaela Mascaro

Foi preciso uma crise que esvazia as ruas da cidade para enfim ter coragem de pegar minha bicicleta e sair sem medo. Triste constatar que uma circunstância extrema foi a única capaz de paralisar minha insegurança por algumas horas, mas essas coisas acontecem. Circunstâncias da vida. Como mencionei no último diário, este hábito saudável da população holandesa pode ser um grande aliado desta crise: você passa menos tempo exposto do que se fosse à pé. Mesmo tendo meu objetivo traçado antes de abrir a porta – comprar pão (moro com um francês e digamos que o pão é um item essencial para eles) na padaria e sal no mercado mais próximo – não restringi meu passeio à obrigação. Aproveitei o trajeto do ponto a ao b para observar as ruas e tentar entender esse organismo vivo que é a cidade. Como ela se molda e como continua dando seus passos neste novo contexto.

Fiz um caminho conhecido com a atenção de sempre, embora a movimentação seja mínima. Entre a ida e a volta cruzei pelo menos 6 bicicletas e dois carros. Na rua da padaria duas pessoas fumavam a conversavam na calçada. Não muito longe um homem saía de casa com seu cachorro, despertando minha curiosidade em saber como os donos de bichinhos vão gerenciar os passeios. Mas bom, não era ocasião para papear com desconhecidos nas ruas. Estava frio, ventava pouco para os padrões holandeses, mas os trabalhos continuam. Embora pouco numerosos e sem uma grande concentração de pessoas, há trabalhadores sujando as mãos nos pavimentos de Haia. Passei por três “caminhões” de obra e um pequeno amontoado de gente trabalhando nas imediações destes veículos.

O mercado estava vazio. Passei por duas pessoas que trabalham no local e dois clientes. Na entrada e nos corredores colaram avisos pedindo às pessoas que mantenham 1,5m de distância umas das outras. Não percebi nenhuma limitação nos estoques. Tudo estava bem abastecido. Peguei o sal, um pote de sorvete (quarentena pede milkshake), paguei, peguei minha bicicleta e voltei para casa.

Nosso segundo dia de “confinamento” não teve nada de extraordinário. Minha leitura de Half of a yellow sun, de Chimamanda Ngozi Adichie, enfim deu uma guinada significativa e passei boas horas acompanhando as desventuras dos personagens espalhada no sofá. Fiz pausas para escrever e tomar um café com Nico e, no fim da tarde, deixei tudo no jeito para poder fazer os exercícios propostos pelo aplicativo. Tenho tentado seguir à risca, me exercitar ajuda a manter a mente sã.

Acabei por começar a segunda temporada de Formula 1: Drive to survive com meu companheiro. Ele queria assistir, eu estava curiosa. No fim das contas me peguei envolvida. A série é bem produzida e estruturada, interessante o suficiente para atrair uma pessoa como eu, que não entende nada e nem dá a mínima para carros. Nosso segundo dia de confinamento deve acabar com o penúltimo episódio.

Para quem só possui o trabalho em ambientes externos como opção – sobretudo os autônomos, como fotógrafos, por exemplo, não deve ser fácil. Passei um momento pensando em opções que poderia propor a profissionais da categoria para obter alguma renda neste período. Para quem foi “obrigado” a trabalhar de casa e está surtando, ainda vejo graça. Coisa de quem sempre gostou muito de ficar quietinha em casa. Foi curioso ver a publicação de Fiona Apple’s Art of Radical Sensitivity, um perfil gigante e maravilhoso de uma das minhas cantoras favoritas, escrito por Emily Nussbaum, justo em meio aos anúncios de quarentena. A artista vive isolada em sua casa já há algum tempo, saindo apenas para passear com sua cachorra. A leitura me acompanhou durante minhas horas presa no aeroporto enquanto tentava voltar para casa, recomendo mesmo para quem não acompanha o trabalho dela – Nussbaum nos ambienta com perfeição.

Para criar um relativo dinamismo nos diários, vou compartilhar dicas possíveis de se fazer em casa em tempos de isolamento. É uma forma de ter um registro de atividades que funcionaram para mim e podem ajudar quem por ventura cair nestas páginas.

É provável que eu deixe também dicas de leitura e filmes no fim do diário do dia – claro que elas podem aparecer soltas no meio dos textos, mas deixarei um espaço dedicado no finalzinho também caso sinta vontade.

Até a próxima ❤

Formiguinhas de plantão, deu vontade de doce? Que tal fazer um Smoothie? 🙂 Nos meus tempos de mulher fitness sempre congelava bananas para não perder. Vocês sabem, essa preciosa fruta apodrece com muita facilidade, e bom, ninguém gosta de jogar comida fora. A banana congelada batida com um pouquinho de gelo vira um sorbet fácil e super gostosinho, mas tenho essa receitinha de smoothie prática que sempre foi uma mão na roda, sobretudo quando precisava de um pré ou pós treino mais leve. Dá para adaptar caso você seja vegan. Anote aí!

Ingredientes:

  • 1 banana congelada
  • 1 xícara de leite gelado (normal ou vegetal – recomendo o de amêndoas)
  • 1 colher de sopa de pasta de amendoim (de preferência pura <3)
  • Um pouquinho de mel (ou melado/agave) para adoçar caso sinta necessidade.

Preparo: Bata tudo no liquidificador e seja feliz x)

Corona diaries #1

A arte é de Marianna Tomaselli

O Spotify me indicou You already know mais uma vez. Ele parece adorar a versão com Kathryn Williams. Embora figure em algumas das minhas playlists e já seja uma velha conhecida, vez ou outra ele a joga nas Descobertas da Semana. Deixei para ouvir a seleção da vez na quarta-feira, meu primeiro dia oficial de ‘confinamento’, quando me encontrei enfim dentro de casa após um retorno deveras turbulento aos Países Baixos. Teve Suíça, França, um voo perdido, alguns tantos imprevistos em meio a uma pandemia que se confirmou.

Moro com meu companheiro há alguns meses, ele trabalha, eu não. Ele nunca fez home office, eu fui adepta da modalidade quando era freelancer. Tenho pensado em meios de ajudá-lo a se adaptar, visto que estamos distantes da estrutura que ele possui no escritório. E a logística, é claro, é outra: quando se trabalha fora de casa você acaba por criar uma rotina, organizar teus horários em função da sua produtividade… É mais fácil estabelecer um cotidiano de trabalho quando você possui horários impostos e metas, por exemplo.

Para uma pessoa desempregada pouca coisa vai mudar. Desde a mudança fiquei muito em casa, saindo apenas para fazer mercado ou correr. Vez ou outra rolava um cinema. Essa situação não me causa desconforto e estranhamento. Gosto da sensação de estar no meu lar, de organizar minhas coisas, de ter um tempo tranquila sentada no sofá enquanto leio, respondo uma mensagem ou escrevo textos como este. Ser expatriado pode ser bem solitário. Meus quase três anos morando na Europa foram repletos de isolamento, sobretudo no início, quando não conhecia muita gente e tateava os vazios em tentativas frustradas de construir um pequeno círculo de amizades. Em função do local onde me encontrava, as opções culturais não eram numerosas. Passei dias completos sem sair, sobretudo em períodos de aulas canceladas e quando não estava escalada para trabalhar. Conviver comigo mesma não tardou a ser uma realidade.

Enquanto muitos dos meus colegas do mestrado viajavam aos fins de semana para a casa dos pais, eu ficava em Montbéliard, onde revisava o conteúdo das aulas e/ou ia trabalhar. Enquanto agente do museu só precisava vigiar as salas e me certificar que tudo estava certo com o nosso espaço físico e os meus expedientes variavam de um mês para o outro. Era o que me permitia ter algum contato com pessoas, fossem estes meus colegas ou visitantes. Como todo centro cultural de cidades do nos confins do mundo há dias tumultuados, outros nem tanto. E no período pré e pós expediente eu ficava no meu apartamento, dialogando com os meus pensamentos e eventualmente conversando com família e amigos por chamada de vídeo.

Quando me mudei para realizar um estágio, comecei um novo ciclo de isolamento. Se em Montbéliard tive ocasião de estabelecer alguns laços graças ao meu trabalho, em Annecy me encontrei entre pessoas que não faziam a menor questão de estabelecer o mínimo de interação. Redescobri minha companhia, adotando longas caminhadas às margens do lago, muitas idas ao cinema, um bom conhecimento dos cafés da região e até mesmo uma peculiar habilidade para me exercitar nos 18m² da minha kitnet. Todavia não gerenciei bem minha tentativa de manter uma boa rotina de atividades físicas usando aplicativos, mas isso é assunto para outro texto.

Por sinal resolvi dar uma nova chance a um desses aplicativos, fiz uma série de exercícios hoje cedo sem grandes dificuldades. Ontem saí de bicicleta pela primeira vez desde a mudança e fiquei orgulhosa desta conquista. É um grande passo para quem não é a melhor das ciclistas e que, para piorar, sente muito medo de pedalar na cidade. Confesso que o fato da cidade estar vazia me motivou. Em certa medida não deixa de ser uma boa saída: você passa menos tempo exposto fora de casa e ainda resolve o que precisa resolver mais rápido.

Meu companheiro precisou sair de casa para recuperar seu material de trabalho e poder fazer home-office, então digamos que ele ainda não começou a trabalhar verdadeiramente de casa. Mas tudo está no jeito. Tivemos uma tentativa frustrada de participar da nossa aula de holandês usando Skype. Junte conexão e som ruim e a uma língua complexa e de sons guturais e você terá a receita perfeita para um cenário de caos. Aprender holandês – ou melhor, tentar aprender – tem sido pior do que “ser obrigado” a ficar fechado dentro de casa.

Há pior nessa vida. Fechamos nosso primeiro dia de “quarentena” com Downsizing, um filme horrível de Alexander Payne. Simbólico o suficiente para nos lembrar que há coisas muito piores do que ser obrigado a ficar dentro de casa: a existência deste filme é prova disso.

Uma autoanálise de 2019

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Cape Cod Morning, 1950, de Edward Hopper

[Para ler ao som de Phoebe Bridgers – Smoke Signals]

As primeiras horas de 2019 foram de ressaca. Comi uma fatia de galette des rois com uma xícara transbordando de café, precisava de algo forte e gorduroso para equilibrar a quantidade de álcool que coloquei para dentro do corpo na noite anterior. Pensei que um banho poderia me ajudar a me recuperar, mas só piorou o enjôo. Estava numa cidade do interior da Lorraine, depois de uma boa festa de virada de ano, e precisava pegar meu trem de volta para casa porque trabalharia no dia 2 de janeiro. A gente começa o ano na labuta, afinal. No caminho até a estação pedi pro casal de amigos que havia me convidado à festa para fazer uma parada no McDonalds. Eu, que odeio McDo com todas as minhas forças, precisava também de algo MUITO ruim para recuperar um cadinho da energia que restava para seguir até o fim do dia e chegar na minha casa. Devo ter repetido “nunca mais eu bebo” pelo menos 300 vezes, mandado uns sei lá quantos tweets reclamando deste ato impensado, desejado vomitar em cada hora que passei acordada daquele dia. Excelente ponto de partida para um ano que abusou do seu potencial de insanidade e me pegou por uma das pernas e saiu me chacoalhando como se eu fosse um bonequinho de Lego.

Abri mão de pouco a pouco dos filtros por uma questão de sobrevivência. Para engatar a última etapa do mestrado precisei deixar um trabalho do qual gostava muito; ao mesmo tempo tinha todo o gosto do novo pela frente para aliviar as dores da despedida. Levei tempo a estabelecer laços e me habituar ao cotidiano em um projeto de cidade (brincadeira, Montbéliard. Guardo boas lembranças de ti), e quando peguei o jeito foi preciso juntar meus muitos trapinhos e ir embora. Janeiro se resumiu a colocar a vida em malas mais uma vez, me enfiar toda torta em um trem com o que deu pra levar de bagagem e desembarcar em uma cidade totalmente desconhecida.

Annecy me vendeu um cenário dos sonhos. Era surreal estar cercada de montanhas cobertas de neve, ver a composição com o lago me fez sonhar um punhado de vezes, pois na minha cabeça inocente parecia perfeito para viver experiências tão lindas quanto o ambiente. A realidade, todavia, fez questão de dizer que a beleza pode ser traiçoeira. Derrapei com tudo. Conviver com os savoyards era um martírio, tava pra nascer gente mais chata e difícil de lidar. Dada a missão de fazer um estágio em uma empresa baseada em Annecy, trabalhar naquele lugar foi tão traumático quanto aprender a lidar com essa gente. Ser expatriado é desafiador, de fato, mas quando se é inseguro o contexto piora de forma significativa.

Ao longo dos meses que passei na agência pensei muito sobre meu futuro profissional e procurei motivações para acreditar no meu potencial. Questionei minhas escolhas e o propósito delas. Me preparei para dois anos de estudo, sem nenhuma obrigação com trabalho; e no fim das contas se passei dois meses sem trabalhar foi muito. Meu corpo criou o terrível hábito de ter um emprego, sempre foi uma de minhas melhores desculpas para ocupar a cabeça e não ficar criando abobrinha em templo pleno.

Começar o estágio envolvia muita coisa, e talvez a parte mais dolorosa consistisse no fato de mudar de área. Se carregava comigo sete anos de experiência como Assessora de Imprensa, tinha um total de 0 experiências como Gerente de Projeto Digital. Me sentia vulnerável demais para dar opinião ou mesmo fazer uma pergunta que pudesse demonstrar minha falta de conhecimento, pois apesar de tudo era mestranda e havia estudado o assunto ao longo de um ano e meio. Mesmo tendo a postura de quem conhece o ambiente corporativo, tomei muitas rasteiras. O modo de pensar europeu difere muito do brasileiro e não, eles não descartam uma possibilidade sequer de mostrar sua inferioridade. O pensamento colonizador ainda tem a sua força.

A pior característica do mercado francês (talvez europeu) é a relevância dos atos negativos. Ninguém vai te parabenizar por um trabalho bem feito ou por uma ideia que gerou um bom retorno. Mas se você cometer um erro… será lembrado até o fim do seu contrato. Eles nunca vão te deixar perder o erro de memória. Mesmo depois de tantos anos trabalhando, foi o suficiente para colocar meu profissionalismo em questão. Saí acreditando que eu deveria ser muito ruim mesmo, dada a quantidade de falhas enaltecidas e os elogios inexistentes. No fundo sei que boa parte das pessoas não era lá muito profissional, mas esses acontecimentos acabam mexendo com a gente. E ferindo a minha autoestima que já não era das melhores.

Mesmo com tantos anos de terapia nas costas não soube construir uma barreira contra o jeito de agir do mercado local. A falta de humanidade e do mínimo de relacional que se espera entre funcionários me tirou do eixo e carrego comigo as consequências deste desequilíbrio.

Em 2019 encontrei amor e alento como nunca havia experimentado antes, quiçá um presente da vida para dosar todas as outras coisas que andavam se desalinhando. Foi bom ter esses respiros e encontrar conforto de quem não acompanhou as idas e vindas desses 28 anos de existência, foi essencial ter a visão de quem veio completamente de fora e sem o mesmo referencial cultural que o meu. Mas o peso foi tanto que todo esse amor não foi suficiente: ainda sucumbi nas minhas inseguranças e paranoias e nestes últimos dias de 2018 pretendo preparar o caminho para aprender mais uma vez a lidar com elas e não deixar que me consumam a energia.

No fim de 2018 escrevi um ‘texto-retrospectiva’ no Instagram onde dizia que o ano em questão havia me quebrado em muitos pedacinhos (e sim, isso aqui é uma autoanálise, então estou me quotando):

“I broke myself in so many pieces over the last year. I tore myself open, exposing everything. I’ve felt as if I was walking around naked, feeling weird but not afraid of all the people watching me. I started off 2018 with plenty of scars and trying to mend the pieces. One day I decided to repair everything with some gold powder. I end up this year looking imperfect, but yet so precious (and no, I had no time to take the classic photo with a glass of wine, it’s a shame, we’ll go for a lazy selfie taken before Christmas). I hope you all can feel like this in 2019. Happy new year ✨”

Pois 2019 conseguiu bloquear todo tipo de remendo e me quebrar ainda mais. Pisou sem dó nem piedade e cortou meu acesso ao pó de ouro. Pois temos aquela história de ressurgir feito fênix, e talvez este acabe sendo meu objetivo único para 2020. Mesmo que me custe tempo, que eu tenha força suficiente para fazer mais do que juntar meus cacos com pó de ouro. Urge, mais do que outrora, minha necessidade de ressurgir mais forte em meio a tanta desordem.

Será que volto?

Bateu saudade de mim. Desse compromisso descompromissado de vir aqui e escrever qualquer coisinha. De pensar em pautas, de compartilhar umas reflexões aleatórias vez ou outra. A internet nos engoliu de vez, as pessoas abandonaram os blogs aos poucos e viraram adeptas das newsletters (eu inclusa), depois acharam por bem viver de rede social e isso lhes basta. Ninguém conversa mais, a gente passa seis meses e enventualmente um ano sem trocar uma palavra com alguém. So it goes, como diria Kurt Vonnegut em seu Matadouro 5 (excelente livro inclusive). Longe de mim querer jogar a culpa em outrem, sinto que também sucumbi. Mesmo não me sentindo confortável, como se tivesse sido algo imposto. Bref. Senti falta. Pode ser que volte a escrever para além dos muros, redigir mais textos para ninguém ler. Quem sabe?

Minha experiência com o DIU Mirena

A Nicas é quase uma entidade/santa protetora deste blog, pois é citada em quase todos os posts. Obrigada por existir, Nicas. Visitem o blog dela pois: pessoa maravilhosa e posts incríveis.

Ela fez dois posts falando sobre o Mirena. Um sobre a decisão de colocar, outro sobre sua avaliação pós um ano com ele. Depois deste segundo texto senti vontade de contar a minha experiência pois foi catastrófica. E claro, mais do que sobre métodos contraceptivos, precisamos falar sobre a necessidade deles em nossas vidas. Não é algo exposto com tanta abertura assim, mas sabemos: a maioria quer evitar uma gravidez e só. USEM CAMISINHA, CARAI, mas se você é uma moça sem tretas menstruais, cheia de paranoias e quer uma opção a mais para evitar bebês no seu útero, o DIU de cobre resolve. Ele só inibe gravidez, você menstrua normal. Acontece que muita gente esquece das moças com ovários policísticos e com endometriose.

Caí mais ou menos na segunda categoria. Não tenho um diagnóstico, mas a médica disse que as chances de despontar uma endometriose neste belíssimo útero são altas. Conversamos muito e minha ginecologista de anos indicou parar com a pílula e colocar um DIU de hormônio (o Mirena). Pesquisei com calma para fazer tudo pelo meu convênio, que é de Campo Grande. Infelizmente não sei como funciona pelo SUS ou particular, mas a maioria das ginecologistas fazem a introdução na própria clínica. Em outros casos, só pode ser efetuado em hospitais.

Em tempos de demonizar a pílula sinto ainda mais vontade de escrever sobre o assunto. O objetivo aqui é contar minha experiência com o DIU, porém faço questão de dedicar algumas linhas em defesa da pílula. Gente, eu já tentei de tudo. Tudo mesmo. Remédios de farmácia, remédios naturais, chás, óleo de prímula. Algumas coisas ajudaram por um tempo, até meu corpo criar resistência e não ter mais efeito. Meu ciclo era porreta:

É CLICHÊ DEMAIS usar esse gif como referência, eu sei

Pois juro que era bem assim. Três dias sangrando horrores e me arrastando pelos cantos por motivos de cólicas intensas e muita dor no corpo. Sem contar o inchaço. Me sentia tal qual o boneco da Michelin. Não sou evoluída a ponto de curtir sentir dor e sangrar horrores. Com essa história de endometriose, então, não pensei duas vezes. Só comecei a tomar pílula em 2013, resisti ao longo de 12 anos de muito sofrimento com a menstruação. O fluxo sossegou, as cólicas também (sim, elas continuaram!! as cólicas me amam e são muito resistentes), e então veio aquele papo promissor de FIM das cólicas E do fluxo. Não resisti, precisava tentar.

Como é colocar um DIU?

É horrível. Não vou fazer cerimônia. Tenho tolerância super alta para dor (tatuei a costela, sabe) e pensei que fosse morrer. Pior cólica da minha vida, parecia um alien tentando rasgar as paredes do meu útero. Na hora de introduzi-lo você consegue sentir direitinho, é como se alguém te desse um soco forte no útero e continuasse empurrando. A tendência do teu corpo é tentar expulsá-lo em seguida, pois é um objeto estranho invadindo o espaço – ou seja, a cólica forte pode te incomodar ao longo de vários dias. Diminui, é claro. No dia que coloquei pensei que fosse morrer e cheguei a sentir ânsia de vômito. Nos outros dias incomodava, era chatão, mas nada comparado ao primeiro dia.

Fui 100% Carminha surtando na hora que a gineco enfiou esse negócio em mim

Ouvi dizer que a longo prazo você deixa de menstruar. É verdade?

Tenho amiga que parou mesmo, mas o meu corpo, diferente dos delas, é burro e adora menstruar. Completo um ano com o DIU no fim de março e até agora ‘menstruei’ todos os meses. Coloco entre aspas porque a menstruação tende a reduzir cada vez mais e o fluxo parece de fim de ciclo, aquela borrinha marrom. É normal ter escape no início, é o teu corpo reagindo ao “objeto não reconhecido” dentro de você. Por isso o Ultrassom transvaginal deve ser feito de seis em seis meses, pra checar se o DIU continua onde deveria estar. O deslocamento dele pode ser causar cólicas e sangramentos.

Como foi para você?

Dei muitas chances a ele, juro. Tudo começou com os escapes – foram praticamente três meses convivendo com aquilo que chamava de ‘fim de menstruação eterno’. Não dava para usar coletor, pois o fluxo era muito leve para isso; não dava pra ficar sem protetor de calcinha porque era sangue suficiente pra manchar; se colocava protetor eventualmente ficava assada e a dois passos de ter uma candidíase. Meu ciclo, que antes durava entre 5 e 6 dias, agora dura DEZ – isso depois de uns seis meses de escape infinito, claro. E bem, as cólicas… sempre tive probleminhas com isso, não faço ideia do que é uma vida sem sentir essas dores horríveis. Elas pioraram com o DIU. São mais fortes e duram mais tempo – ao menos em comparação com os tempos de pílula. A indicação visava me afastar de uma possível endometriose, reduzindo fluxo e cólicas. O fluxo melhorou, é verdade, mas o escape me incomoda muito e convenhamos – ninguém gosta de sentir dor.

Quando tenho essas cólicas porreta fico que neeem esse esqueleto

O veredicto

Cada organismo é um organismo, certo? O meu não se adaptou. Conheço outras pessoas que colocaram, amaram e não tiveram problemas. Foi até difícil pedir a opinião de outras moças porque todo mundo dizia “calma, o início é difícil mesmo”, mas os sintomas persistiram mesmo depois do primeiro semestre de adaptação. Então sim, meu plano é tirar. Vou fazer os exames de rotina assim que completar um ano de DIU e checar quais são os procedimentos para retirar.

E você? Já pensou em colocar um DIU? Tem vontade? Conte nos comentários! 😀

Andanças #2 – Intermediário

O último andanças tá quase aniversariando, veja bem. Como é ter disciplina com projetos pessoais (tipo um blog e uma newsletter, por exemplo)? Me contem nos comentários, tudo serve de inspiração nessa vida.  Desta vez só voltei com o blog depois de ter pelo menos 4 posts prontos e pauta para outros 10 (obrigada, Nicas!). Talvez não seja o caso de perder a esperança tão cedo. Vou me basear em janeiro e fevereiro para fazer esta edição 🙂

Tô assistindo: É muito ruim oscilar, não é mesmo? Fiquei no maior fogo no rabo no em janeiro, promissora no papinho de ir ao cinema pelo menos uma vez por semana. Voltei para o ciclo de cansaço pós-firma e aos fins de semana sinto vontade de mofar no sofá. Tão grande a preguiça que a pessoa nem se mobilizar a colocar uma série ou filme no pc, um pequeno detalhe. Comecei Please like me e até agora achei meio…ok. Bom, são poucos episódios por temporada, não custa nada insistir mais um pouco. Em janeiro dei sorte e assisti muita coisa boa: Elle, La la land, Manchester á beira mar e Eu, Daniel Blake. Em fevereiro vi A Chegada e A Criada. Os melhores: Daniel Blake e A Chegada. Daniel é daqueles filmes para te incitar a ficar revoltado com o sistema e refletir um pouco sobre como o governo trata o cidadão. A Chegada fala sobre a beleza e o poder da linguagem e da comunicação. Tudo tão delicado e forte. Me marcou muito.

A linguagem é uma pele, já diria Barthes <3

A linguagem é uma pele, já diria Barthes ❤

Tô lendo: Resolvi me jogar em tudo que é contemporâneo e feminino. Reli o maravilhoso Teaching my mother how to give birth, de Warsan Shire, salt., de Nayyirah Waheed, Comme une envie de voir la mer, de Anne Loyer, Confissões do Crematório, de Caitlin Doughty, A filha perdida, de Elena Ferrante e Sea Legs and Other Stories, de Candice J O’Reilly. Não se enganem pela quantidade – são livros de poucas páginas, naquele esquema de leitura rápida em contraste com a densidade do conteúdo. O da Anne Loyer peguei mais para dar uma refrescada na leitura em francês. Faz tempo que não leio no original e, antes de encarar um romance mais “sério”, peguei Comme une envie de voir la mer, que é literatura infantojuvenil. Levinho e meio bobinho, tem uma abordagem boa sobre adoção. Gosto de estabelecer uma conexão entre as poetas da lista. Sobre Warsan Shire recomendo a leitura desta matéria maravilhosa da Odhara. Ela ficou conhecida como “a poeta por trás do álbum Lemonade, de Beyoncé”, e mesmo amando essa parceria não dá para “resumir” a Warsan a isso.

Warsan Shire

Warsan Shire

Nayyirah Waheed

Nayyirah Waheed

A escrita dela me lembra demais a de Nayyirah. Ambas abordam temas pesados com leveza e falam muito sobre o feminino e pequenos sentimentos cotidianos. Acho que merecem um post à parte, vamos pensar. A Candice é mais suave, gosto de ficar relendo Sea Legs quando preciso de algo para me tranquilizar. Dói admitir que não morri de amores pelo livro da Ferrante. Amo a série Napolitana, a cada livro me envolvo mais com a ‘saga’ (vocês não sabem o quanto espero pelo quarto e último volume). Peguei A filha perdida na esperança de matar a saudade e não consegui me envolver com a história. É uma leitura rápida, bem escrita como de praxe, só não me cativou. Agora Confissões do crematório merece DEMAIS um post só para ele por diversos motivos. É um livro escrito por uma (isso mesmo, UMA) agente funerária (informação inútil: o termo em francês é croquemort, achei tão fofinho). Com este título. Quais as chances? Quem me conhece sabe, sou gótica suave e 0% entusiasta do tema morte. Depois de dez páginas estava fascinada pela indústria da morte (!!!) e, ao acabar o livro, passei pelo menos três horas assistindo vários vídeos do canal da Caitlin, Ask a Mortician. Digo mais: é um livro necessário, todos deveriam ler. Ele vai ter um texto bem especial só sobre ele, porém não posso deixar de indicar a crítica que a Anna Vitória (rainha) fez para o Valkírias.

Tô ouvindo: No outro andanças declarei meu amor pelo descobertas da semana do Spotify, e olha, nossa relação segue estável. Nas últimas semanas ele me presenteou com May this be love, de Jimi Hendrix (já ouviram? não consigo explicar bem o porquê, mas me dá uma paz!), com um cover muito gracinha de Zee Avi para First of the gang to die (a original é de Morrissey) e a exótica No ordinary man, de Salt Cathedral (também não encontrei o que me cativa TANTO neste clipe, mas já perdi a conta de quantas vezes assisti).

Tô visitando: Deveria sossegar minha bunda na cadeira e ficar em casa por motivos de dedicação a projetos pessoais e necessidade de economizar. Porém a vida, amores, ela vive nos enchendo de oportunidades para sabotar esses planos todos. Desde o início de 2017 conheci três lugares novos. O primeiro, a Taverna Medieval, já ganhou o coração dos nerds todos por motivos que o próprio nome do local explicam. Tem uma pegada bem Game of Thrones por lá, mas eles homenageiam o universo nerd como um todo. São bem cuidadosos com a questão da decoração do ambiente e da forma como as coisas são servidas. Uma das mesas, aliás, imita um barco viking. Os funcionários da casa usam roupas medievais e te abordam com “milady” e “milord”. Vale muito pela experiência e tudo que experimentei estava bom.

O copo pé medieval, mas a IPA era moderna e estava uma delícia (700ml de pura felicidade)

O copo pé medieval, mas a IPA era moderna e estava uma delícia (700ml de pura felicidade) [e sim, isso foi na Taverna Medieval)

Também fui conhecer o Red Bull Station. Fica colado na minha casa e por motivos obscuros só havia observado de longe. Descobri que além do espaço para exposições, o prédio possui um estúdio de gravação, um restaurante (chamado Cafeteria), e um terraço super gostoso. A Cafeteria tem menu executivo por R$39, compensa muito pelo valor. Aquele alô também aos amigos fotógrafos – para quem procura uma locação no centro, o Red Bull é uma boa pedida. A construção é bonita e possui vários espaços a serem explorados para um ensaio. Última descoberta – e digo isso rindo meio constrangida – foi o Mandíbula. Sempre perambulava pela Galeria Metrópole, moro ao lado, mas nunca tinha entrado no bar. Tem música, drinks, gente descolada, e na quarta rolou mais uma edição do Garotas no Poder (um grupo no facebook onde as meninas podem postar seus CVs ou oportunidades de trabalho só para gurias), com várias moças vendendo coisas legais para usar no carnaval. E fica coladinho na Taperá Taperá, uma livraria/biblioteca que também promove debates e exibe filmes de vez em quando. O legal da Galeria Metrópole é que, embora seja enorme, possui poucas lojas ativas. E essas poucas merecem demais sua atenção. Volto a falar sobre lá em outro post 🙂

Muito diva (risos) em uma das escadas externas do Red Bull Station

Muito diva (risos) em uma das escadas externas do Red Bull Station

Tô sentindo: Um combo DELÍCIA de angústia e ansiedade. Uma é complemento da outra, como a combinação de arroz com feijão. Não é o cenário ideal,  rola toda uma batalha diária para sobreviver no meio desse caos . Aos trancos e barrancos sempre, mas batalhando dentro das minhas possibilidades para não transformar tudo isso em um estado constante. Tudo é transitório, vai passar. Por hora sigo na investigação dessas dores, quero entender o que as desencadeia, por que ainda me incomodam tanto, etc. Não sucumbir é difícil? Sim. Pois tem sido curioso aprender a ter paciência para entender que não se deixar levar pela dor é possível. Vão por mim. 🙂

Desacelerar

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Entra ano, sai ano, e sigo no processo inconsciente de me pilhar cada vez mais. Aquela mania de arranjar mil compromissos, sentir culpa ao recusar convites, e terminar reclamando da falta de tempo. Muito bonito ser responsável pela própria desgraça, não é mesmo? Culpei São Paulo por muito tempo pois se enganar é outra arte que domino com muita habilidade. O nome disso é simples: vida adulta. Às vezes releio uns textos antigos do meu outro blog e penso naquela inocência de não ter noção do que me esperava no pós-20 anos. O mecanismo parecia tão simples em teoria: terminar a faculdade, arranjar um trabalho ou continuar onde já estava, sair vez outra e pagar as contas. Mais ou menos como comprar passagens aéreas sem pensar em hotel e no dinheiro a ser gasto no destino.

Desconstruí o mecanismo dentro das minhas possibilidades e descobri o quão difícil é parar e respirar quando nos jogamos no meio do furacão. É como se até nosso corpo relutasse em aceitar que por vezes é preciso desacelerar. Ele teima muito e quando aceita e entende o quão problemático pode ser para você, se manifesta. Assim nascem a gastrite, a enxaqueca, ou qualquer outro tipo de mal-estar físico. Teu corpo te força a dar um tempo. Comigo aconteceu na forma de um joelho com diagnóstico de condromalacia patelar, mas já perdi a conta de quantas vezes tive crises pesadas de gastrite e rinite ao ser confrontada por problemas cotidianos. Foi importante dedicar meu tempo ao autoconhecimento porque hoje consigo pegar muitos desses sintomas antes de se manifestarem.

Quando entramos na vida adulta, muita coisa foge do nosso controle. Uma recomendação que sempre faço às amigas à beira de um ataque de nervos como eu é tirar um tempo para refletir e, se possível, pegar um papel e anotar todas as coisas que estão te incomodando no momento. Analise uma a uma. Escrever ajuda a observar com mais clareza. Você vai notar que muita coisa da lista pode ser resolvida com medidas simples – e dá até pra montar um cronograma em cima disso, colocando os itens mais “resolvíveis” no topo e deixando coisas a longo prazo para o fim da lista. Às coisas mais impossíveis, cabe refletir sobre alternativas para lidar com cada uma.

E claro, essa é a parte do choque de realidade. Pensamos em alternativas e as mais viáveis nem sempre são as que gostaríamos. Parte do processo de autoconhecimento consiste, aliás, em entender quais são os seus limites e respeitá-los.

Eu, por exemplo, me encontrei na escrita. Nada elaborado e com o intuito de ser publicado. De costume pego a agenda e escrevo uma frase mesmo, simples, curta e direta. Colocar no papel é como transferir um sentimento do corpo para outra instância. Na minha cabeça isso traz um pouco de conforto ao momento, mesmo que seja uma coisa rápida. Tem gente que vai colorir, correr, pintar, desenhar. Comigo funciona escrevendo.

Este primeiro post de 2017 é um convite às velocidades reduzidas, ao “dar tempo ao tempo”, respeitar o nosso ritmo – que nunca vai se adequar ao considerado certo pelos outros. Permitir-se parar antes que o corpo resolva pedir bandeira branca.