Pessoas horríveis, o livro e a série

É difícil passar pela leitura de Pessoas Normais, de Sally Rooney, sem sentir muito. Sentimentos estes entendidos como negativos: raiva, indignação, frustração. Pode ser que você se identifique com os personagens, mas o risco de passar nervoso é o mesmo. Vi muitos amigos comentando sobre a obra, sobretudo pessoas com preferências literárias semelhantes às minhas. Mas o que me motivou a comprar e ler foi a capa. Fiquei intrigada com a associação que fiz entre o título e aquelas duas pessoas espremidas dentro de uma lata de sardinha. Palmas à ilustradora, que com uma imagem tão simples anunciou a essência do enredo. Rooney conta a história de Marianne e Connell, dois jovens que estudam no mesmo colégio no interior da Irlanda. Ela parte de um clichê bem conhecido – a moça é uma nerd sem amigos, ele faz parte do time de futebol e é bem popular. A história deles acaba se cruzando pois para além da escola, a mãe de Connell trabalha como faxineira na casa de Marianne.

Eles se envolvem, mas ninguém pode saber pois a popularidade de Connell seria ameaçada. Marianne se silencia, assumindo a postura do “isto não está me fazendo mal, não tem problema algum”. Um lugar comum entre os millennials – muita disposição para pegação, zero desenvoltura para assumir sentimentos. Existe essa ideia de ‘conforto’ no não dizer. Se você não manifesta verbalmente como se sente, é como se os sentimentos não existissem.

Como em todo bom enredo, ele é composto por diversas camadas e a primeira impressão é um tanto superficial. Como se fosse só mais uma história corriqueira de romance frustrado que se limitasse a discutir conflitos de comunicação. Conforme você adentra nas nuances da história, mais ela passa a levantar questionamentos – e sinto que a série foi muito benéfica neste aspecto. Todos os pontos que me pareceram meio soltos na obra foram bem explorados na adaptação televisiva.

Começo por Marianne. Ela tem uma personalidade forte, é firme em seus discursos impessoais. Uma pessoa que fala com propriedade sobre qualquer assunto que não seja relacionado a como ela se sente enquanto ser humano. Isso explica um pouco da minha impressão inicial, quando a vi como alguém introspectiva e só. Conforme a história avança as cicatrizes dela começam a se mostrar. Marianne nunca foi amparada por ninguém. Embora Rooney não dê muitos detalhes sobre o pai dela, sabemos que ele não é flor que se cheire. Tanto no livro quanto na série ele não dá o ar da graça em nenhum momento, mas fica implícito que a relação dele com a esposa, então viúva (o pai de Marianne faleceu quando ela tinha 13 anos) não era das melhores. Isso reflete, em certa medida, na forma como ela se ocupa dos filhos. Marianne é negligenciada a ponto de não ser defendida durante uma das discussões com o irmão, Alan. Ele tem um comportamento violento, tanto que acaba agredindo a irmã fisicamente em uma das sequências.

Marianne cresceu entre dois homens insolentes, então digamos que suas referências masculinas não eram das melhores. Nós vemos como ela preenche esse vazio com namorados lamentáveis e abusivos. O amor próprio mandou abraços para nossa protagonista. O fato de nunca ter sido protegida acaba refletindo também nas amizades. Uma vez que ela parte para Dublin, sua popularidade aumenta. Ela passa a frequentar pessoas com o mesmo padrão financeiro de sua família e no mesmo nível intelectual dela. Tudo aquilo que fazia dela a esquisita da escola veio a ser uma qualidade em seus anos universitários. Rise and shine, Marianne. Salvo que tudo que nos dói e não é tratado acaba ressurgindo uma hora ou outra. Sua vida é toda preenchida por superficialidades que escondem os problemas.

Corta para Connell. Enquanto adolescente, a popularidade na escola é tudo que ele tem. Ele não quer colocar essa fama em risco, pelo contrário. Quer aproveitar até onde pode, a ponto de silenciar seus desejos. Ele vive com a mãe, Lorraine, uma das melhores personagens desta história, por sinal. Eles fazem parte de uma classe menos abastada, ela é mãe solteira e trabalha fazendo faxina. Connell tem uma boa relação com ela, mas ainda é muito imaturo. E parece convicto de que sua popularidade o acompanhará para onde for. Percebemos que ele não é desrespeitoso com Marianne em nenhum momento, mas tampouco assume alguma responsabilidade. E é aí que as coisas se complicam. Ele não sabe mensurar o impacto de sua imaturidade até debandar para a capital e se ver tão perdido quanto a Marianne do colégio. Ele sente o gosto amargo de não conseguir constituir laços, de não conseguir se impor nesta sociedade cheia de pessoas ricas e ditas inteligentes demais. Acompanhar o processo dele ao tentar se impor e ter uma voz entre pessoas que nunca fizeram parte do seu círculo social é doloroso. Ele encontra meios de ‘existir’ neste contexto, e, embora não se sinta 100% confortável, passa a encarar a realidade com um pouco de leveza. Sobretudo depois do mochilão que ele faz e ao começar seu namoro com Helen.

Se Marianne e Connell não se tornam um casal, não é puramente por falta de comunicação, mas também pelo conflito social. Connell passa boa parte do enredo preso, sente culpa ao se ver com alguém que não possui as mesmas condições. Isso não é verbalizado em nenhum momento, mas acaba saltando nas entrelinhas. Embora pareça tolo se importar com um fator tão ‘banal’, acaba sendo uma forma de bloqueio. Esse impacto é evidenciado pelo encontro com Marianne em Dublin, que confirma a ideia construída por ele de que eles não fazem parte “do mesmo mundo”. Ela é o único lar que ele tem por ali, visto que eles carregam uma conexão longíqua e ao menos ela o conhece independentemente de qualquer estigma social. Ele não consegue abrir mão de sua vida anterior e culpabiliza ainda mais com a notícia da morte de um de seus amigos da escola mais para o fim do livro, que o encaminha para uma depressão e o faz trabalhar a aceitação de que talvez as coisas não estejam lá tão bem assim. E que por vezes é necessário parar e repensar a nossa lógica de vida para poder seguir em frente.

Marianne, por sua vez, tem sua revelação em meio a uma cena de abuso psicológico por parte do seu namorado que ela arranja durante uma temporada na Suécia. Ela tem uma iluminação e entende que não precisa se submeter a humilhação para ter uma migalha de amor, e neste momento ela passa a se questionar sobre como foi parar neste lugar. É um primeiro respiro para a personagem, que passa todo o romance emendando um namorado merda no outro. Mas ela ainda tem muito chão pela frente (quem nunca) e isto é posto à prova quando ela empreende uma nova etapa com Connell. Quando tudo parece se encaminhar para um relacionamento saudável entre ambos, quando eles enfim conseguem conversar como pessoas normais que assumem suas inseguranças, um deles precisa partir.

Embora tenha levantado muitos aspectos positivos, o livro me deixou um tanto decepcionada. Boa parte dos pontos que me deixaram reflexiva só vieram depois de assistir a série. Custei a me implicar na narrativa, que me pareceu um tanto vaga. Só conseguia sentir raiva, vontade de dar um chacoalhão nesse povo e mandar todo mundo pra terapia. Um lado meu dizia que este sim poderia ser um livro que dá voz a nossa geração, esse bando de gente que sofre pra dar nome ao que sente. É um retrato perfeito da agonia relacional dos millennials. Nesse sentido Rooney é maravilhosa, mas faltou alguma coisa que me cativasse de verdade. Essa ‘falta’ foi 100% preenchida pela série, que tapou todos os buracos que a obra havia deixado para mim. As atuações são incríveis, Daisy Edgar-Jones e Paul Mescal possuem uma química surreal e constroem uma Marianne e um Connell quase palpáveis. Tudo que faltou em emoção no livro, transbordou na série.

Independente de ter gostado mais da série que do livro, Pessoas Normais me marcou e considero como uma obra muito significativa e sintomática de nossos tempos. Um retrato delicado de como podemos soar banais na superfície e o quanto isso se afirma em uma geração tão dependente da imagem que passam nas redes sociais. Mas que no fundo somos todos seres complexos e cheios de questões que temos dificuldade em abordar e exteriorizar. Se você ainda está hesitante sobre ler ou assistir, te dou aqui um último empurrão para fazê-lo. Não é só mais um romancezinho.

(Gostaria de deixar um agradecimento especial ao Caio e ao Carlos, que levantaram pontos importantes da série comigo e me motivaram a escrever este texto!)

Andanças #2 – Intermediário

O último andanças tá quase aniversariando, veja bem. Como é ter disciplina com projetos pessoais (tipo um blog e uma newsletter, por exemplo)? Me contem nos comentários, tudo serve de inspiração nessa vida.  Desta vez só voltei com o blog depois de ter pelo menos 4 posts prontos e pauta para outros 10 (obrigada, Nicas!). Talvez não seja o caso de perder a esperança tão cedo. Vou me basear em janeiro e fevereiro para fazer esta edição 🙂

Tô assistindo: É muito ruim oscilar, não é mesmo? Fiquei no maior fogo no rabo no em janeiro, promissora no papinho de ir ao cinema pelo menos uma vez por semana. Voltei para o ciclo de cansaço pós-firma e aos fins de semana sinto vontade de mofar no sofá. Tão grande a preguiça que a pessoa nem se mobilizar a colocar uma série ou filme no pc, um pequeno detalhe. Comecei Please like me e até agora achei meio…ok. Bom, são poucos episódios por temporada, não custa nada insistir mais um pouco. Em janeiro dei sorte e assisti muita coisa boa: Elle, La la land, Manchester á beira mar e Eu, Daniel Blake. Em fevereiro vi A Chegada e A Criada. Os melhores: Daniel Blake e A Chegada. Daniel é daqueles filmes para te incitar a ficar revoltado com o sistema e refletir um pouco sobre como o governo trata o cidadão. A Chegada fala sobre a beleza e o poder da linguagem e da comunicação. Tudo tão delicado e forte. Me marcou muito.

A linguagem é uma pele, já diria Barthes <3

A linguagem é uma pele, já diria Barthes ❤

Tô lendo: Resolvi me jogar em tudo que é contemporâneo e feminino. Reli o maravilhoso Teaching my mother how to give birth, de Warsan Shire, salt., de Nayyirah Waheed, Comme une envie de voir la mer, de Anne Loyer, Confissões do Crematório, de Caitlin Doughty, A filha perdida, de Elena Ferrante e Sea Legs and Other Stories, de Candice J O’Reilly. Não se enganem pela quantidade – são livros de poucas páginas, naquele esquema de leitura rápida em contraste com a densidade do conteúdo. O da Anne Loyer peguei mais para dar uma refrescada na leitura em francês. Faz tempo que não leio no original e, antes de encarar um romance mais “sério”, peguei Comme une envie de voir la mer, que é literatura infantojuvenil. Levinho e meio bobinho, tem uma abordagem boa sobre adoção. Gosto de estabelecer uma conexão entre as poetas da lista. Sobre Warsan Shire recomendo a leitura desta matéria maravilhosa da Odhara. Ela ficou conhecida como “a poeta por trás do álbum Lemonade, de Beyoncé”, e mesmo amando essa parceria não dá para “resumir” a Warsan a isso.

Warsan Shire

Warsan Shire

Nayyirah Waheed

Nayyirah Waheed

A escrita dela me lembra demais a de Nayyirah. Ambas abordam temas pesados com leveza e falam muito sobre o feminino e pequenos sentimentos cotidianos. Acho que merecem um post à parte, vamos pensar. A Candice é mais suave, gosto de ficar relendo Sea Legs quando preciso de algo para me tranquilizar. Dói admitir que não morri de amores pelo livro da Ferrante. Amo a série Napolitana, a cada livro me envolvo mais com a ‘saga’ (vocês não sabem o quanto espero pelo quarto e último volume). Peguei A filha perdida na esperança de matar a saudade e não consegui me envolver com a história. É uma leitura rápida, bem escrita como de praxe, só não me cativou. Agora Confissões do crematório merece DEMAIS um post só para ele por diversos motivos. É um livro escrito por uma (isso mesmo, UMA) agente funerária (informação inútil: o termo em francês é croquemort, achei tão fofinho). Com este título. Quais as chances? Quem me conhece sabe, sou gótica suave e 0% entusiasta do tema morte. Depois de dez páginas estava fascinada pela indústria da morte (!!!) e, ao acabar o livro, passei pelo menos três horas assistindo vários vídeos do canal da Caitlin, Ask a Mortician. Digo mais: é um livro necessário, todos deveriam ler. Ele vai ter um texto bem especial só sobre ele, porém não posso deixar de indicar a crítica que a Anna Vitória (rainha) fez para o Valkírias.

Tô ouvindo: No outro andanças declarei meu amor pelo descobertas da semana do Spotify, e olha, nossa relação segue estável. Nas últimas semanas ele me presenteou com May this be love, de Jimi Hendrix (já ouviram? não consigo explicar bem o porquê, mas me dá uma paz!), com um cover muito gracinha de Zee Avi para First of the gang to die (a original é de Morrissey) e a exótica No ordinary man, de Salt Cathedral (também não encontrei o que me cativa TANTO neste clipe, mas já perdi a conta de quantas vezes assisti).

Tô visitando: Deveria sossegar minha bunda na cadeira e ficar em casa por motivos de dedicação a projetos pessoais e necessidade de economizar. Porém a vida, amores, ela vive nos enchendo de oportunidades para sabotar esses planos todos. Desde o início de 2017 conheci três lugares novos. O primeiro, a Taverna Medieval, já ganhou o coração dos nerds todos por motivos que o próprio nome do local explicam. Tem uma pegada bem Game of Thrones por lá, mas eles homenageiam o universo nerd como um todo. São bem cuidadosos com a questão da decoração do ambiente e da forma como as coisas são servidas. Uma das mesas, aliás, imita um barco viking. Os funcionários da casa usam roupas medievais e te abordam com “milady” e “milord”. Vale muito pela experiência e tudo que experimentei estava bom.

O copo pé medieval, mas a IPA era moderna e estava uma delícia (700ml de pura felicidade)

O copo pé medieval, mas a IPA era moderna e estava uma delícia (700ml de pura felicidade) [e sim, isso foi na Taverna Medieval)

Também fui conhecer o Red Bull Station. Fica colado na minha casa e por motivos obscuros só havia observado de longe. Descobri que além do espaço para exposições, o prédio possui um estúdio de gravação, um restaurante (chamado Cafeteria), e um terraço super gostoso. A Cafeteria tem menu executivo por R$39, compensa muito pelo valor. Aquele alô também aos amigos fotógrafos – para quem procura uma locação no centro, o Red Bull é uma boa pedida. A construção é bonita e possui vários espaços a serem explorados para um ensaio. Última descoberta – e digo isso rindo meio constrangida – foi o Mandíbula. Sempre perambulava pela Galeria Metrópole, moro ao lado, mas nunca tinha entrado no bar. Tem música, drinks, gente descolada, e na quarta rolou mais uma edição do Garotas no Poder (um grupo no facebook onde as meninas podem postar seus CVs ou oportunidades de trabalho só para gurias), com várias moças vendendo coisas legais para usar no carnaval. E fica coladinho na Taperá Taperá, uma livraria/biblioteca que também promove debates e exibe filmes de vez em quando. O legal da Galeria Metrópole é que, embora seja enorme, possui poucas lojas ativas. E essas poucas merecem demais sua atenção. Volto a falar sobre lá em outro post 🙂

Muito diva (risos) em uma das escadas externas do Red Bull Station

Muito diva (risos) em uma das escadas externas do Red Bull Station

Tô sentindo: Um combo DELÍCIA de angústia e ansiedade. Uma é complemento da outra, como a combinação de arroz com feijão. Não é o cenário ideal,  rola toda uma batalha diária para sobreviver no meio desse caos . Aos trancos e barrancos sempre, mas batalhando dentro das minhas possibilidades para não transformar tudo isso em um estado constante. Tudo é transitório, vai passar. Por hora sigo na investigação dessas dores, quero entender o que as desencadeia, por que ainda me incomodam tanto, etc. Não sucumbir é difícil? Sim. Pois tem sido curioso aprender a ter paciência para entender que não se deixar levar pela dor é possível. Vão por mim. 🙂

Andanças #1

Olar, caro(a) leitor(a).

Sumi? Sumi. Bem horrorosa, bem bagunçada, e quando me peguei no meio de um Congresso de Blogueiras em plena Quermesse da Consolação (na Igreja, pois todas moças da casa do Senhor) acabei ficando com o coração pesado por tratar este espaço com tanto descaso. Ele não merece. A Nicas até comentou – sei que newsletters são legais, mas voltem com os blogs (inclusive visitem o dela)! Acontece que a vida não colabora muito, e às vezes faltam pautas, disposição e sossego. Sabe aquele momento que você para com o notebook no colo para fazer algo SEU? Escrever um texto, pensar em algo para o blog? Não tenho mais. Digamos que não é de todo mal, dado que ando muito ocupada aprendendo a viver, porém sinto falta de ter um registro escrito dessa vivência. E pensando nisso criei o andanças.

Melhor congresso <3

Melhor congresso ❤

Adotei o clássico modelo diarinho que muita gente costuma fazer. É um forma de voltar aqui no mínimo uma vez por mês para contar sobre as minhas andanças de uma forma mais leve, sem aquela obrigação de entregar um post que a meu ver esteja sem pontas soltas. Aqui eu deixo uma risada nervosa, pois até parece que algum dia vou escrever algo e me sentir 100% feliz com o resultado.

Vamos lá!

Tô assistindo: Meu povo, o que acontece comigo? Tantos anos esfregando minha carteirinha de cinéfila da fuça das pessoas e tcharãm, advinha quem não coloca os pés no cinema há um mês? Quem não assistiu nem dez filmes desde o início do ano? Euzinha. Meu plano para o segundo semestre é tentar reverter este quadro, pensei naquele esquema de ver pelo menos um filme por semana. O que vocês sugerem?

Por um acaso do destino fui ao cinema com uma amiga e assistimos Alice através do espelho, de James Bobin. Gosto de uma brisa louca, vocês sabem, mas o filme é afetado de-mais. Socorro. É uma estética que me deixa um tanto agoniada, ainda mais quando te tacam um belo par de óculos 3D nas mãos ao entrar na sala. Para minha surpresa, apesar dos exageros, o filme tem uma mensagem muito bonita. Para ensinar que tempo é um negócio importante e é preciso administrar nossa relação com ele por mais que doa.

Em janeiro adquiri um vício chamado Game of Thrones e, em menos de um mês, assisti às cinco temporadas. Antes que me perguntem como, estava desempregada. Em vias de streaming consegui assistir a sexta temporada e gente, que sofrência. Toda vez que travava eu morria um pouquinho, acho que meu macbook pode ter contraído alguns vírus dessa brincadeira, mas o vício nos faz perder a mão e machucar até mesmo nossos amigos mais próximos (te levo na assistência logo menos, querido notebook).

É cada tiro que a gente leva, meus amigos. Fazia tempo que Game of Thrones não tinha uma temporada tão boa e até deu pra perdoar a catástrofe que foi a quinta. O último episódio vai ao ar no próximo domingo e meu coração já fica pesado de antemão. Vou virar mais uma daquelas chatas que fica sofrendo a espera de um ano até a próxima temporada.

Tô lendo: Compensei a monstruosidade no trato com filmes com livros. Voltar a trabalhar me deu um gás nas leituras. Foi tão intenso que encarei até os dois primeiros de Karl Ove Knausgård, logo eu, que vivia evitando por motivos de mais de 400 páginas. Falei sobre a experiência de ler esse norueguês porreta na Pólen. Tenho planos de textão com resumos das leituras do primeiro semestre, vamos ver se sai. Neste mês terminei Um outro amor, que é o segundo volume da saga Minha Luta, do Knausgård. Spoiler: é maravilhoso e ainda melhor que o primeiro. Recebi O Céu de Lima, de Juan Gómez Bárcena, para resenhar pra Pólen. Nunca tinha lido nada de literatura peruana – contemporânea ainda por cima! – e adorei esse primeiro contato, o livro é envolvente e muito bem conduzido. Li Um copo de cólera, de Raduan Nassar, pois sempre bom ler um livro com até 100 páginas, não é mesmo? E deu aquela saudade de literatura nacional que é moderna-mas-saiu-já-tem-um-tempo. É um soco no estômago e estou com vertigem desde então. Agora peguei a sequência da série Napolitana de Elena Ferrante, História do novo sobrenome. Ainda estou com um pouco de náusea pós-copo de cólera, então tá difícil de pegar no tranco. Porém Ferrante, amigos. Já já ela acha um jeito de me amarrar de vez.

Tô ouvindo: Vocês brincam de descobertas da semana no Spotify? Muitas coisas acontecem nessas playlists. No começo não houve conexão entre nós, mas nos últimos tempos o aplicativo tem dado show. Sempre aparecem bandas que andam meio sumidas dos meus fones de ouvido e novidades bem interessantes. Nessas descobri Boots e acho que já ouvi Mercy  milhões de vezes. Também descobri Liniker (deixa eu bagunçar vocêêê). Pra vocês terem uma ideia de como não existe padrão e ele parece de fato jogar tudo que ando escutando num liquidificador antes de mandar sugestões. Desenterrei Bombay Bicycle Club e Nada Surf (i’ve got blooonde on blonde on my portable stereo). E ainda serviu pra ouvir bandas que todo mundo comentava mas eu morria de preguiça, como Haim e Boogarins. Talvez eu tenha encontrado novos amores.

Tô visitando: Para uma pessoa preguiçosa até que ando bem saidinha. Depois de levar muita chicotada no coração resolvi trabalhar para ser uma pessoa mais presente na vida dos amigos. O mix de caos paulistano com vida adulta dificulta tudo na hora de conciliar agendas, e a adaptação não acontece do dia para a noite, entretanto tive progressos. Essa parte aqui sempre vai ser tomada por restaurantes, cafés e bares, pois sou uma pessoa que ama comer e beber. Tem coisa melhor que estar com gente querida e ainda encher o bucho? Sigo batendo cartão no Por um punhado de dólares, café do amor: pertinho de casa, ao lado da academia. Agora trabalho em Pinheiros e eventualmente me jogo nas comidas maravilhosas espalhadas neste bairro. Também está nos planos revolucionários do blog fazer um Guia dos Gulosos em Pinheiros, assim fica fácil compartilhar as maravilhosidades da região com vocês.

 

Nas últimas duas semanas finalmente conheci o House of food. É um espaço colaborativo – o restaurante aluga e serve suas iguarias em um dia. Semana passada, por exemplo, teve Falafel do Pita e sopas polonesas da Pierogueria. Valores honestos, o que é mais importante. Também fui ao Café, Cachaça & Cia, que na hora do almoço faz qualquer um rolar de felicidade. Tem os pratos feitos tradicionais, com um diferencial – os acompanhamentos são à vontade. Arroz, feijão, batata rústica, farofinha, tudo à vontade e para o deleite de quem come feito uma condenada.

Na parede do House of Food, do lado de fora

Na parede do House of Food, do lado de fora

Com Isa e Simone, muito felizes pós-sopas polonesas <3

Com Isa e Simone, muito felizes pós-sopas polonesas ❤

Chocojack, o chocolate quente batizado com Jack Daniels

Chocojack, o chocolate quente batizado com Jack Daniels

Visitei Picasso: mão erudita, olho selvagem (Meu sonho é ter um Picasso no lavabo), em cartaz no Instituto Tomie Ohtake. Eles pegaram o acervo do Musée Picasso e trouxeram pra cá! Vocês tem noção do quão maravilhoso isso é? Por um valor bem honesto (R$12, e tem meia-entrada) dá para se sentir um pouco mais próxima desse espanhol maravilhoso. Guernica é uma das minhas telas favoritas, então qualquer pouquinho de Picasso faz bem pra alma. Aproveitem porque acaba em 14 de agosto e essa mania de adiar a visita não vai nos levar além.

Loka do dia por motivos de vestido bonitão

Loka do dia por motivos de vestido bonitão

Contemplativa

Contemplativa

Tô sentindo: O coração sossegado. Isso é uma grande vitória para quem está cuidando da ansiedade. É muito difícil e tem dias que chega a doer fisicamente, mas aos poucos encontro formas de me tratar bem e não sofrer com essa ansiedade maligna. Encontrei um pouco de serenidade para continuar minha caminhada e paciência para ficar mais forte. Ou forte o suficiente.

Beijocas e até a próxima 🙂

 

Os tais livros infantis

Você tem aquela certeza de que não dá pras e envolver mais ainda com literatura, até o dia em que acaba se demorando na sessão de livros infantis. Entre capas duras muito elaboradas e brochuras, muita cor, desenhos e quase nada de texto, descobri todo um mundo mágico com o qual não tinha contato há muito tempo. Isso faz mais ou menos dois anos. Foi um fascínio que veio do nada, dado que naquela época  e até hoje não tenho nenhum contato com crianças.

A vida segue na vibe da zoeira eterna, e acabei conseguindo emprego em uma editora cujo foco são os livros infantis. Tô mergulhada na categoria? Estou sim! E vai sobrar pra todo mundo, pois gente: todo um universo dos mais lindos e super acessível. Quer dizer, não dá pra comprar porque não tá tendo onde guardar mais livros físicos e livros para crianças não são nada baratos. Mas dá pra fazer aquele passeio na livraria ou na biblioteca e ler vários de uma vez só.

Tem muito tempo que não escrevo sobre livros e achei por bem unir o útil ao agradável. Vou falar sobre dois autores que me levaram aos livros infantis e mais dois que conheci recentemente. Boa leitura!

 

Onde tudo começou

De praxe: tudo reside em Onde vivem os monstros, de Maurice Sendak. Fui atrás depois de ver o filme e foi amor, porque tive aquele primeiro estalo de perceber que nem todo livro feito para crianças subestima as capacidades cognitivas de seu público. Claro, cada obra quer passar uma lição, algum valor, mas quando é para crianças mais novinhas costuma ser tudo bem escancarado mesmo. Em obras como as de Sendak há muito nas entrelinhas. Ele enaltece muito o lado instintivo de seus personagens, criando aquela proximidade e identificação que cativa qualquer leitor. As ilustrações, no caso específico de Onde vivem os monstros, tem, justamente, figuras imperfeitas. E se vocês pensarem bem é uma mensagem linda, porque tenta ensinar a amar pelo que as pessoas (ou, neste exemplo, os monstros) são, e não pela sua roupagem externa. Recomendo ler este artigo que saiu na Mental Floss há alguns anos, listando 10 curiosidades sobre Sendak.

 

O desdobramento

onda espelho

Estava na Livraria da Vila com a minha amiga Jéssica quando passamos pela sessão infantil e ela veio me falar de Suzy Lee. Isso mesmo, “peguei ponte aérea” à Coréia do Sul e fiquei apaixonada pelo trabalho de Lee. Ela dispensa textos e é super habilidosa em criar diálogos apenas com desenhos. Amei o fato de ser uma guria solitária (o adjetivo é meu), sempre sozinha, tentando desbravar o mundo dentro de suas possibilidades. No Brasil, a CosacNaify (RIP, que também publicou Onde vivem os monstros) publicou Onda, Sombra e Espelho. Sombra e Espelho falam de descobertas pessoais, é um diálogo consigo mesmo. Já em Onda temos uma perspectiva de contato com a imensidão do mar. E editora também lançou A Trilogia da Margem, onde fala sobre seu processo de produção e a forma como podemos explorar a imagem sem a necessidade de apelar para o texto. O livro é destinado a docentes do Ensino Fundamental, e também conta a experiência da  autora ao visitar escolas que adotaram seus livros. A protagonista brinca com os limites definidos pelas linhas e margens, o que traduz muito bem o encanto da literatura. Um simples objeto de papel que nos permite tanta coisa. Uma das características que mais me encantam em livros para criança é a forma como eles aproveitam o espaço físico do livro.

sombra

 

Estamos no livro errado

Entrei na editora junto com Estamos no livro errado, de Richard Byrne. Ele tinha acabado de chegar da gráfica, eu, dos longos meses de desemprego. Nos demos muito bem. A Panda Books também publicou Este livro comeu o meu cão do mesmo autor. Em ambos o livro é um personagem muito bem utilizado. O do cão gira em torno do desaparecimento do bichinho de estimação da Bella, “engolido” pelo livro. Ela o procura ao longo das páginas e bem, é uma obra toda interativa, perfeita para contação de histórias. Estamos no livro errado é um pouquinho mais elaborado, mostrando todos os tipos de livros possíveis. Tem de tudo – história em quadrinho, jogo dos 7 erros, tutorial para fazer um barquinho e papel, e por aí vai. Bella tem um amigo, Beto, e ambos saem por aí pingando em vários cenários. Amigos, outro detalhe: tão fofinhas as ilustras que dá vontade de apertar ❤

O bônus do livro infantil da diferentona (pois sério)

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Também da editora, temos o livro de Katia Canton (ilustrado por Renato Moriconi), O grande  amigo. Este é mais cabeça, para crianças um pouco mais velhas. A Katia é professora da USP e curadora do MAC (Museu de Arte Contemporânea da USP). Se eu fosse criança é bem certo que me identificaria horrores com o Rodrigo, personagem central dessa história. Imaginem, os amiguinhos e a própria família do menino o apelidaram de Bicho do Mato só porque ele é muito tímido. Breve e muito verdadeiro, fala sobre a importância da autoestima. Para isso, ela faz um paralelo com os autorretratos de Rembrandt. Simples, objetivo, e com uma mensagem importante em tempos onde o bullying está sempre em pauta.

Esta foi a minha “porta de entrada” neste universo. E vocês, gostam? Tem curiosidade? Vamos trocar figurinhas sobre isso ❤

Lidy com isso! #05 – Literatura para correr

OI, GENTE BONITA!

Presenciei um milagre na última semana: consegui um emprego fixo. Isso mesmo. Ainda estou em choque, fiquem surpresos comigo. Claro que a novidade trouxe muita correria e abalou todo o planejamento do blog e do canal, mas estamos aí fazendo o que está ao alcance no momento. Não vou abandonar nada apesar do emprego, só vou deixar a desejar neste comecinho, enquanto encontro meu ritmo.

Por hora, deixo mais um vídeo no ar, desta vez falando sobre “literatura para correr”. Livros onde a corrida é a protagonista.

Assistam e se inscrevam no canal ❤