Um brinde aos meus três anos de Europa (ou quase isso)

Arte por Isabelle

Sabe aquela sequência clichê das séries onde a protagonista acorda cheia de energia, toma um banho super empolgada, se arruma, veste sua roupa favorita, e justo no momento em que sai de casa uma pomba passa e caga na cabeça dela? É uma metáfora perfeita da mudança para o exterior. Quando chegou a minha vez, me senti a mestre do planejamento depois de organizar cada detalhe e partir com o coração aberto à essas novas oportunidades oferecidas pela vida em outro país. Mas ele me recepcionou defecando na minha cara. Como boa mulher brasileira forte e que não se abala com pouca coisa, eu primeiro xinguei um sonoro desgraça, limpei a sujeira e comecei outra vez. Acontece que fui pra França, e a população de pombas é enorme e forte por lá. Tomei muita bosta na testa. Comecei a me irritar com esta ação repetitiva e levei um bom tempo até aprender a contorná-la e a não me deixar afetar. Quando me senti com o mínimo de controle da situação, certa de que estava pronta a enfrentar situações semelhantes em qualquer lugar do mundo, juntei minhas malas e fui arranjar um jeito de chamar a Holanda de casa.

E aqui quem caga na minha cabeça são as gaivotas.

É um lugar comum entre muitos brasileiros que partem ao estrangeiro: nós gostamos de fazer um texto comemorativo para celebrar mais um ano de sobrevivência longe do Brasil. Chamo de ‘sobrevivência’ pois é vitorioso e precisamos nos parabenizar por nos vermos cada vez mais fortes longe de tudo que nos é tão familiar. Faço parte deste grupo e amo o exercício de fazer uma espécie de retrospectiva do ano que passou. Reviver as memórias é como assistir a um filme e me faz bem rever as cenas dos bons momentos e lembrar que as etapas difíceis passaram e superei todas elas. É algo que gosto de fazer também a cada aniversário, mas a perspectiva aqui é um tanto diferente. Me atenho a como atravessei cada etapa do existir enquanto estrangeira em um país que não é o meu de origem. Segui na França ao me despedir de Montbéliard e ir morar em Annecy, e com isso comemorei dois anos no País dos Croissants no dia 29 de agosto de 2019. Agora preciso ajustar minha narrativa e ainda não decidi se comemorarei meu aniversário de X Anos na Europa ou X Anos Que Deixei o Brasil. Aceito sugestões. Cheguei na Holanda em dezembro do ano passado, e com isso meu terceiro ano fora do Brasil foi celebrado em território laranja. O mesmo 29 de agosto, um mês atrás, veio sem nenhuma inspiração para fazer minha crônica de mais uma ano morando no estrangeiro.

Queria um registro de qualquer forma pois é difícil deixar algo de tamanha importância para mim passar em branco. Tentei pensar em diversas formas de começar este texto e me peguei travada, sem saber qual caminho percorrer. Ainda é difícil falar sobre assuntos tão delicados, dar nome aos incômodos e assumir coisas das quais não me orgulho. Tinha muito a contar ao completar dois anos de França, tenho pouco a dizer sobre meu quase um ano de Holanda. Pode-se dizer que não houve tempo para viver a realidade deste novo país que só sei chamar de lar de um jeito meio torto.

Antes de termos a imposição do isolamento social em um contexto de pandemia, ainda nos meus primeiros seis meses de França entre 2017 e 2018, senti o quanto manter contato à distância é complicado, seja porque as pessoas gerenciam mal a ausência física, seja pelo fuso horário que nem sempre ajuda. Foi preciso velar algumas amizades. E embora tenha doído tentei me colocar no lugar destas pessoas algumas vezes. Estou longe de me encaixar nisto que as pessoas definem como mulherão da porra, não sou um exemplo a ser seguido. Levo uma vida simples e sou ordinária até demais. Mas sei também o quanto é fácil associar o “morar no exterior” a uma vida perfeita. E algumas pessoas sentem raiva ao ver as outras indo viver essa tal vida perfeita no estrangeiro. Porque sair do Brasil parece uma solução mágica. Ainda mais se você vai para um país de primeiro mundo. É mais seguro, de fato. Mas existe essa ideia de que tudo é mais cômodo nestes países: a comida é mais barata, a cultura é acessível a todos, o transporte público funciona. A lista é longa. Para muita gente essas mil vantagens são suficientes para silenciar o fato de que você se muda sem conhecer ninguém, sem saber muito bem as regras do local e longe da sua família. Em tempos de superexposição nas redes sociais é ainda mais fácil cair nesta ilusão ao ver um feed cheio de fotos de lugares bonitos. Sustentar essa narrativa é tão cômodo quanto a reação de muitos estrangeiros quando me queixava de saudade: se estou tão infeliz, porque não volto para o meu país?

Apesar de toda carga negativa e de inúmeras cagações de regra, há luz no fim do túnel. Tanto na França quanto na Holanda fui bem amparada emocionalmente. Reforcei minhas ligações com muitas pessoas (à distância!), tive e tenho apoio dos meus pais e de amigos mais próximos. Sou grata por ter uma rede de apoio tão carinhosa e sinto uma falta absurda de tê-los todos fisicamente por perto. Neste sentido tenho tanta sorte que agora também posso contar com um parceiro que me dá suporte emocional e financeiro, um cara maravilhoso que está pronto a me ajudar independente do teor das minhas crises. Este deve ter sido um dos pontos altos do ano que passou. Ter o apoio dessas pessoas foi fundamental para não largar mão de tudo e correr de volta para o Brasil.

Posso afirmar que em termos de receptividade a Holanda é mais acolhedora que a França. Pode ser uma reação ao fato deles andarem de bicicleta o tempo inteiro, o que permite manter a produção de serotonina sempre ativa, mas eles parecem mais felizes e dispostos. É tudo bem organizado e as pessoas me parecem ter um bom equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Mas vivo de suposições desde a minha chegada. Cheguei no mês mais morto do ano, no auê das preparações para Natal e Ano Novo, um período onde ninguém está muito preocupado com trabalho (tampouco em contratar gente nova), faz um frio do caramba e chove muito e ninguém quer ficar na rua. As pessoas contam os segundos para tirar férias e curtir um jantar gostoso entre família. Já sabia que minha integração só começaria a acontecer em janeiro. Assim foi. Em um primeiro momento acabei convivendo com colegas de trabalho do meu parceiro e, em paralelo, me inscrevi no Meetup e comecei a procurar eventos relacionados aos temas que eu gosto. Porque eu estava rodeada de pessoas interessantes, mas queria sair um pouco do núcleo deles, que é bem internacional, e conhecer pessoas que chegaram aqui por outros meios e motivos. Existe também o detalhe de que cheguei sem saber uma palavra sequer de holandês (eu não sabia nem pronunciar o nome da cidade onde ia morar), e meu inglês, que ficou bem adormecido ao longo de dois anos na França, estava bem enferrujado. Colocar na minha cabeça que uma língua germânica não vai achar lugar fácil no meu cérebro tão habituado a línguas latinas é outro desafio, pois nem sempre consigo aceitar a lentidão do processo. Tudo isso para dizer que tardei a sentir o impacto tomando conta, porém uns tantos pequenos elementos viraram pedra no meu sapato e ficou cada vez mais difícil caminhar com alguma destreza. Nos meus primeiros meses na Holanda não imaginei que seria tão difícil conseguir um trabalho.

Antes de sair do Brasil tinha dificuldades em entender o que levava meus amigos brasileiros a aceitarem trabalhos que não tinham nada a ver com eles no exterior. Ou porque eles preferiam manter um trabalho no Brasil enquanto moravam em outro país, mesmo sabendo que a conversão das moedas não compensaria tanto assim. Na minha cabeça a conta não fechava, me perguntava se valeria mesmo a pena abrir mão de ter uma carreira ascendente no Brasil só pelo gosto de ter um salário mínimo em euros. Naquela época eu era total sem percepção da realidade e alimentei uma ilusão na qual eu conseguiria trilhar um caminho bacana e construir uma carreira brilhante em território estrangeiro, fosse na área de comunicação ou como gerente de projetos digitais.

Você se lembra dos pombos? Como mencionei acima, eles se transformaram em gaivota e fizeram questão de cagar em todas as minhas ilusões e expectativas. O tal emprego nunca veio, tampouco as reações positivas ao meu CV. Até rolaram algumas poucas entrevistas, que inclusive renderiam um post à parte dada a surrealidade dos fatos, mas pouco avançou ao longo destes últimos 10 (!!) meses. É muito frustrante estar sem ocupação em um país que você conhece mal, sentindo teu inglês enferrujado e apanhando para pronunciar decentemente algumas cinco frases em holandês. A exaustão psicológica se transformou em algo físico e a cada dia desperto mais nervosa e mais desesperada. Porque sou uma pessoa sem habilidade alguma para ter sossego. Queria usar este tempo livre para ver umas séries e fazer uns cursos online de graça. Mas me pego tomada de culpa em estar fazendo algo não relacionado a mandar um CV ou escrever uma carta de motivação.

Senti muita frustração em diversos momentos deste terceiro ano de Europa. Como se os dois anos anteriores tivessem sido desperdiçados com um investimento que não me ajudou em nada no presente. Ainda tenho muito a aprender sobre ser gentil comigo mesma ao longo deste processo de adaptação. Quando a angústia me dói mais que de costume, me esforço para respeitar também o momento que estamos vivendo. Todo mundo está em busca de um pouco de serenidade e de meios de se reinventar e existir no contexto de uma pandemia. Comigo não seria diferente.

É fato, ando capengando e ainda não descobri um método eficaz para fugir das gaivotas. Porém este terceiro ano me fez enxergar o quanto sou forte e fui longe sim. Interrompi minha trajetória profissional por um período, é verdade. Mas aprendi muito e me vi crescer mais resistente em lugares que nunca vão me acolher como o meu país de origem, sem ter ideia de quando poderei ver minha família e amigos mais próximos outra vez e abraçando um caminho cada vez mais incerto. Carrego esse sentimento com orgulho suficiente para balancear a perspectiva pessimista e não me deixar abalar pelos obstáculos. O que é meu tá guardado, como costumam dizer sempre lá na minha terra.

Eu me peço desculpas

Dia desses estava tomando um café e me peguei num destes desconfortos existenciais. Realizei, naquele momento, que havia me perdido de mim. Minutos antes estava ouvindo um podcast sobre mentir para si mesmo. Era em clima de comédia, aquele método básico que consiste em usar o humor como saída para algo que lá no fundo te causa muito incômodo. Eu ri e me identifiquei em vários aspectos para mais tarde cair na real e experimentar uma bela crise de pânico. Foi como se eu tivesse despertado de um coma e me dado conta de quanta coisa eu fiz – mentindo para mim mesma – enquanto sufocava tudo o que realmente tinha vontade de fazer. É muito fácil se perder e acumular bagunça. Eu sou especialista, não duvido que seria capaz de criar uma instalação de arte contemporânea bem conceitual em cima disso. Porque acho bonito isso de dar a cara à tapa, de se jogar nas aventuras da vida, de se perder e ver nisso um caminho. Saber se reconstruir e até criar algo em cima disso.

Eu nunca soube fazer isso. Mas aprendi a fingir que era mestre e soube sustentar esta narrativa por anos. Convicta da minha força e capacidade para chutar bundas, mudei de país dez meses atrás. Com um diploma de Mestrado novinho em folha na bolsa e a convicção de que meu inglês estava tão perfeito quanto o francês. Neste meio tempo não tive trabalho, não estudei, não fiz na-da. Vi uns poucos filmes e li pouco mais de dez livros. Tive uma fase onde devorei séries, que logo se dissipou. Tentei começar a me exercitar um sem número de vezes, abandonei todas. Entenda, isso talvez soe como alguma coisa para você. Porém é um grande nada para mim, uma pessoa que, de base, era muito ativa.

Tive uma outra fase de desemprego lá pelos idos de 2015. Foi o período em que descobri e comecei a psicanálise, e estava tão obcecada que aquilo me fez explorar ao máximo a minha capacidade de ressurgir das cinzas. Tinha uma urgência em rebater uma das frases que mais me marcou na primeira sessão, “eu sou muito fraca”. Sambei na cara da minha frustração em nunca ter trabalhado com reportagem e produzi várias, passei a fazer conteúdo para publicações físicas e online (e ser paga para isso!), escrevi muito, participei de um projeto super querido onde escrevia sobre o que dava na telha, melhorei minha performance na corrida e comecei a fazer natação. Dei fim a um relacionamento tóxico e passei a me afirmar cada vez mais.

Essa intensidade toda me levou longe e parecia duradoura. Conquistei muita coisa, até ter um tropeço de ansiedade que veio com tudo e me fez repensar a força pela qual batalhei e me sentia tão orgulhosa por ter conquistado. Dei o braço a torcer, aceitei que precisaria cuidar da ferida. Na minha cabeça havia curado a doença, mas hoje vejo que só fiquei trocando os band-aids. E a cada band-aid novo eu adicionava uma camada, incrementava a narrativa e tentava me agarrar ao fato de que uma hora essa porra ia cicatrizar e eu poderia seguir a minha vida em paz.

O cérebro, essa cabra da peste dos infernos… ele esteve aqui o tempo inteiro. Me dando uns toques para a realidade, me pedindo para ser atenta. Eu fui achando meios de ocultar todos estes sinais. O problema, você já deve imaginar, não é tão complexo assim: se a ferida é um pouco mais profunda essa parada de ficar só trocando band-aid vira uma infecção. Tive uma. Fiquei aqui estagnada, me sentindo um ser humano horrível por chegar ao mês 09 sem ter feito nada e sentindo os efeitos físicos destes vazios.

É muito potencial perdido. Vou abrir meu coração: eu amo escrever. É onde me sinto livre, é o momento em que mais me conecto comigo mesma, onde me sinto bem de verdade. Desde pirralha a escrita é minha válvula de escape e minha salvação em momentos de angústia. É prazeroso quando tenho algo para contar, é divertido quando só quero ter um breve registro de algo que vi ou vivi. Gosto de encher cadernos, até quis fazer da escrita minha profissão quando optei pelo Jornalismo. Entretanto ainda tenho um obstáculo: eu. Passei anos encontrando todos os defeitos do mundo nos meus textos e abandonando inúmeros parágrafos por dizer “que não estava bom o suficiente”. Embora nunca tenha me questionei sobre o que era este bom, tampouco tentei definir este bom. Porém soava mediano, perante um breve bloqueio já largava mão. Até hoje tenho meus rascunhos neste blog e em outros criados antes deste, e em to-dos acumulo parágrafos sem fim. Sabe o produzir conteúdo mencionado anteriormente? Também abri mão porque deixei de acreditar que alguém fosse querer pagar pelos meus textos quando as publicações para as quais colaborei fecharam as portas. Fui adepta do “não devo transformar a escrita em trabalho pois vou perder a paixão que tenho por ela”, que evoluiu para o “eu nem teria criatividade para ser redatora, foi por isso que não dei certo como jornalista”. Até mesmo a parte de entretenimento, que sempre me foi super acessível, larguei. Não foi por falta de ideias e tampouco de vontade, tanto que comecei. Dei o pontapé inicial diversas vezes, mas faltou a tal da força para derrubar os empecilhos que eu mesma criei e seguir caminhando.

Fraude atrás de fraude. Eu menti muito. Fiz uma formação em tecnologia, me dediquei ao longo de dois anos porque queria ter uma profissão com salários mais atrativos. Não nego, ainda quero. Porque tenho essa pira de fazer um bom trabalho e ser remunerada como mereço. Me encantei pelo universo da tecnologia e sinto que minha relação com a gerência de projetos digitais ainda tem potencial e talvez seja cedo para declarar nosso término. Mas me perdi de mim. Me abandonei sem dó.

Enxerguei com muita clareza o quanto preciso ser sincera comigo e lutar pelo que condiz com a minha essência. Precisava me desculpar depois de tanto falhar comigo mesma, é fato. Escrevi esta carta para pedir perdão por ser tão cruel e exigente comigo mesma. Quero reparar este erro. Tenho este corpo cheio de agonia, não vai ser fácil, mas agora é a hora de iniciar minha batalha contra a urgência.

Desta vez vai ser no meu tempo. Seja ele qual for.

Corona diaries #10

Quando fiz o primeiro ‘Corona diaries’ tinha como objetivo registrar como seria minha experiência com o confinamento. Parecia uma tentativa de provar para mim mesma que muito poderia acontecer mesmo sem colocar os pés para fora de casa. Não deixava de ser uma boa ocasião para sentar aqui e escrever um monte de reflexões sem nexo sobre o estar em casa e as tantas abobrinhas que brotaram na minha cabeça desde então. Daí recebi a última news da Luísa e ela me fez viajar no tempo e revisitar este longíquo passado de blogs criados antes de 2008. Me falha a memória e não consigo precisar o ano, mas minha primeira aventura online foi dividida entre blogspost e livejournal (!). Era um diário online. Dei toda uma volta ao longo dos anos para cair novamente no ponto zero que me trouxe ao universo blogueiro. Cada texto era um grande resumo do que havia feito no dia e, quando estava inspirada, rolava uma reflexão sobre algo do meu cotidiano. Essa coisa de fazer post com Top 5, resenha literária, dica de projetos e afins viria bem mais tarde, quando de fato passei a ter contato com outras blogueiras e tentei me adequar ao formato de boa parte dos blogs daquela época.

E o que é o Corona Diaries senão o meu meu jeitinho de blogar antigamente? Atribuí um nome como se estivesse produzindo muito conteúdo nesta página e precisasse diferenciá-lo de outros possíveis temas, comecei empolgada e fui espaçando cada vez mais as publicações. Como todo projeto que alimentou minha alma no início e foi perdendo o brilho paulatinamente até ser deixado de lado por n motivos. Toda essa lenga-lenga não passa de um disclaimer para anunciar a continuidade do Corona Diaries. Desconheço o amanhã, vai que um dia resolvo dar um tapa neste site e falar de outras coisas? Ao menos vai ficar guardado na categoria dele. E vai continuar com o Corona no nome pois, embora a Holanda já tenha desconfinado, o vírus segue fazendo vítimas e ainda não existe uma vacina.

Fecha parênteses.

Nestes quase dois meses desde o último post presenciei o desconfinamento em duas fases da Holanda. A situação por aqui passou longe do que se passou na Itália, Espanha e França, por exemplo. O governo anunciou recomendações a serem seguidas, fechou o comércio, pediu às empresas que fizessem o possível para que os funcionários trabalhassem de casa. Não vou entrar em detalhes pois não é o foco do diário, mas foi um confinamento brando. Conforme relaxaram as medidas, também retomamos algumas atividades que foram suspendidas lá no comecinho de março. Encontramos amigos (sem beijo no rosto nem aperto de mão) e visitamos alguns museus, fomos a um restaurante. Ia dizer que a vida está voltando ao normal, porém vejamos, está daquele jeito. Será que o dito normal como conhecemos voltará a ser algo tangível? Duvido muito. Independente das mudanças e da forma como as coisas funcionarão daqui pra frente, minha desordem interna ainda é a mesma. Ela teve seus momentos entre altos e baixos, é claro. A vida sempre foi assim, mas sinto que a quarentena só colocou em evidência. É como encarar o espelho – há dias em que vejo no reflexo a mulher mais linda do mundo e me impressiono em enxergar tanta beleza apesar de; há dias em que vejo minha imagem refletida e me pergunto como consegui me destruir tanto em tão pouco tempo. Vivo nesta montanha-russa que consiste em não ter tempo de curtir a adrenalina pois a viagem é rápida e sobra pouco tempo para apreciar as variações.

O verão chegou com tudo e meu corpo reage mal ao calor. A pressão cai, quando transpiro muito meu corpo coça (e dói pra uma porra), quando não chove fica seco demais para meu sistema respiratório e a rinite ataca no capricho. Pode-se dizer que o cenário tampouco tem ajudado a me sentir minimamente bem. A vantagem de viver em um país bipolar com relação ao tempo é que já está fresquinho outra vez. Me pareceu um absurdo sofrer com 31 graus depois de uma vida numa cidade onde 36/38 graus eram uma constante, mas aconteceu. Depois do extremo mormaço veio a tempestade, as temperaturas caíram e até deu para dormir sem sentir meu corpo pregando outra vez. Vitória.

Sigo em vida me agarrando à singela expectativa de dias menos tempestuosos na minha mente. A gente vai seguir se estapeando até ela me dar sossego, eu sei, mas não é que este negócio de fazer descargas mentais por aqui ajuda?

Corona diaries #9


[Aquarela feita pelo meu amigo Caio Naressi. Ele diz que pensou em mim enquanto pintava ao som do álbum Power, corruption and lies, do New Order, em algum momento de Novembro de 2019
]

Queria escrever alguma coisa antes de completar 29 anos. Não que não o tenha feito entre um bullet journal, uma carta de motivação e umas anotações soltas online, mas queria um Corona Diaries de prefácio para o meu réveillon. Já faz mais de uma década que aprendi a conjugar o verbo se réveiller (em tradução livre: despertar). Réveillon, que nós associamos à virada do ano no Brasil, é a primeira pessoa do plural na conjugação. Quando começava a estudar francês e descobri o significado deste verbo achei bonito o conceito de ‘despertar’ como rito de passagem. Desde então adotei à minha humilde realidade. Gosto da sensação de fazer planos e me encher de perspectivas para o ano que está por vir pela perspectiva da minha data de nascimento. É até um pouco doido falar sobre a intensidade com que experimento um sentimento de renovação a cada quatorze de maio.

Aniversariar sempre foi algo muito íntimo para mim, decorrência provável deste ato simbólico de transição. Preparar-se para um novo ano e se despedir do ano que passou demanda entrega, vasculhar as memórias, analisar o que está encaminhado, checar o que precisa ficar para trás, ver o que pretendemos levar adiante, pensar nos possíveis planos futuro. Convenhamos, é um trabalho custoso. Toma tempo e exige um pouco de concentração. E bem, é minha vida, essa transição depende exclusivamente de mim. Por isso sempre gostei do toque de recolher, de voltar para minha concha e fazer todo este trabalho reflexivo no conforto dos meus pensamentos. Tive contudo meus momentos de variação. Em dados períodos senti vontade de ser lembrada, fiquei animada para comemorar, fiz festinhas, me presenteei. Nunca fui muito chegada a narrativas lineares e deixei essas manifestações falarem por si quando aconteceram.

No início do ano mudei de país e, desempregada, já sabia que não poderia ver meus pais no primeiro semestre e que não poderia trazer meus amigos mais queridos para a Holanda. Ou seja, não teria quórum suficiente para uma festa. Então veio o corona e a certeza de que seria inviável reunir as oito pessoas que conheço no país e que poderiam eventualmente se deslocar até onde moro. Todos os caminhos me levaram de volta à introspecção em 2020. Porém neste processo de contar os dias sem saber quantos dias faltam também perdi toda e qualquer noção de tempo. Um dia fui dormir e quando acordei já era 13 de maio, um dia antes do meu aniversário. Foi no susto.

Desde a última cartinha tentei ter mais cuidado comigo e conversei cada vez menos com as pessoas. Precisava de um tempo em silêncio. Foi preciso lidar com muito barulho aqui dentro, comprar algumas brigas comigo mesma, repensar todas as lições pelas quais passei desde Maio de 2019. Em alguns momentos doeu muito, em outros chorei de alegria, como diria Roberto Carlos, se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi. E bota emoção nisso! Depois de meses difíceis em Annecy tenho aprendido a me afirmar e me posicionar. Eu achava que sabia, e talvez até soubesse, mas desaprendi, desandei, e agora tenho tentado reorganizar essas pecinhas confusas que me compõem. Comemorei um ano de um dos encontros mais bonitos da minha vida, começamos uma série nova entre tantas que vimos na quarentena, desabei a chorar depois de uma chamada de vídeo com a minha mãe, comecei a anotar frases que ouvi em Rupaul’s Drag Race e que viraram pauta para minhas sessões de psicanálise. Também li os drops diários para salvar o minuto, me senti abraçada e tive ainda mais certeza do que desejo para os 29 anos: afeto e leveza. Afeto para apaziguar momentos complexos, leveza para encará-los.

Hoje cedo resolvi colocar minha playlist de músicas mais ouvidas em 2016 (!) e esbarrei em Colors, de Halsey, no meio da seleção. Senti tanto quando ela disse you’re ripped at every edge but you’re a masterpiece. Escolhi como mantra do meu ‘despertar’ dos 28 para os 29. Vou abraçar minha idade nova mentalizando que nunca serei definida pelo meu corpo e nem pelo meu trabalho. Tenho mil motivos para ter orgulho das minhas cicatrizes e tirar o melhor de todo meu aprendizado e conquistas ao longo destes (quase!) 29 anos.

A gente se irrita tanto com bobagens quando só precisa de um pouco de sossego e afeto. Vinha me sentindo despedaçada desde o início do confinamento por uns tantos motivos (muito bem mencionados no último diário), mas de tanto ouvir meu companheiro comecei a abrir meus olhos. Dei início a todo um processo para me reconquistar e parar de esquentar a cabeça com assuntos que nem deveriam mais ser colocados em pauta na minha vida.

De pouquinho em pouquinho retomo a capacidade de me sentir como uma obra prima. Tudo em sem tempo.

Corona diaries #8

People like us get so heavy and so lost sometimes
So lost and so heavy that the bottom is the only place we can find
You get dragged down, down to the same spot enough times in a row
The bottom begins to feel like the only safe place that you know


Nossa trajetória de viver três meses em um começou no aeroporto de Genebra, na Suíça, e como todo começo de história pós-apocalíptica as coisas já começaram ruins. Saímos de um pequeno paraíso em Champéry para cinco longas horas de espera pela partida do nosso voo de volta para casa. Enquanto remonto as memórias sinto a nossa confusão como se fosse hoje: estávamos ambos desajeitados e em busca de compreensão de um mínimo aspecto do que estava por vir. Enquanto ele se ocupava com questões do trabalho, vi o link do perfil de Fiona Apple na New Yorker (ele foi mencionado em um dos primeiros diários) e decidi que aquela seria minha companhia para o nosso chá de aeroporto. Tomei todo tempo necessário à leitura e passei quase toda a espera concentrada nesta longa conversa de Apple com Nussbaum. Fetch the bolt cutters foi lançado há duas semanas (!). O que poderia ser mais simbólico do que este disco sendo lançado e coroando nosso aniversário de um mês de confinamento?

Não dei continuidade ao Corona Diaries pois, como tantas pessoas, me perdi. Em meio a tantas notícias ruins, perspectivas lamentáveis e muito pessimismo, afundar me pareceu excelente como opção. É tanto esforço para ser forte, resistir e dar conta do pouco que preciso dar conta que deixei meu corpo amolecer e me entreguei. Chega de oferecer resistência. Deixei todo o peso recair sobre o meu corpo, alimentei minha raiva enquanto me informava sobre o Corona – e em particular sobre o que se passa no Brasil – vi minha imagem no espelho e chorei muito por detestar (ainda mais) minha imagem, procrastinei, vi muitos vídeos inúteis no Youtube, senti nojo do meu corpo, enalteci meus defeitos, me desprezei o quanto pude. ‘Cause I fuck with myself more than anybody else. Tudo isso na minha cabeça. Instaurei o caos e deixei assim porque ainda não me sentia pronta para fazer uma faxina.

Ainda não me sinto, por sinal.

O confinamento potencializou dois conflitos que negligenciei no último ano: meu corpo físico e meu futuro profissional. Graças à psicanálise me resolvi muito bem com meu físico e sempre tive uma relação saudável e respeitosa com ele. Até tive minha fase louca das corridas e me acalmei depois de ter uma lesão, mas isso é assunto para outro momento. Mas desde 2015 consegui, na medida do possível, viver de forma saudável. Sou taurina, comer é de longe uma das minhas atividades favoritas, então me privar nunca foi uma opção. Até o início do ano passado não tive episódios compulsivos, comia e bebia o que tinha vontade. A atividade física seguiu presente e era o que ajudava a equilibrar eventuais ‘exageros’ – embora não fosse intencional. Nunca fiz exercício para emagrecer. Minha família tem histórico de colesterol alto e diabetes e bom, sigo a mesma tendência. Manter o corpo em movimento é essencial para me manter saudável. Porém a mudança para Annecy e a transição de carreira foram amargas. A gente nunca está pronto pra nada nesta vida (embora pense que sim), mas foi um pouco mais difícil do que eu esperava. Por questões financeiras e por morar longe de tudo, ir à academia deixou de ser uma opção. Parei de me exercitar em fevereiro do ano passado e nunca mais retomei. Tentei preencher meus vazios com comida e bebida e tive, enfim, uns tantos episódios compulsivos.

Hoje, pouco mais de um ano depois, estou com 13 kg a mais e com terríveis dificuldades em me aceitar desta forma. É difícil falar sobre o assunto pois é deveras pessoal e corro o risco de decepcionar pessoas com problemas sérios de saúde ou com distúrbios de imagem. Nunca tive um ganho de peso tão significativo e como todo evento novo em nossas vidas tenho apanhado para tratar a questão. Fico nesta corda bamba entre trabalhar a aceitação ou começar a tomar medidas para contornar essa situação e voltar (de forma saudável) ao meu peso de antes. Quando penso no que implica mandar fora 13 kg me dá desespero, porque para fazê-lo da melhor forma é preciso tempo E muita paciência. Com a cabeça pilhada do jeito que está – digamos que as coisas não melhoraram muito do ano passado pra cá – e no meio de uma pandemia, como poderia pensar em regime e em me exercitar? Tenho um companheiro que me apoia nas minhas escolhas e nunca ma encheu o saco com relação a corpo e/ou alimentação, mas que também tem sofrido os efeitos do confinamento, que cedo ou tarde acabam afetando todo mundo, então impor uma dieta nos deixaria ainda mais nervosos e esgotados mentalmente. Minha alternativa, por ora, é arriscar alguns exercícios em casa. Como o vizinho reclamou dos abalos sísmicos provocados pelos meus polichinelos (gostaria muito de estar exagerando), encontrei alternativas em treinos apartment friendly da MadFit. Estou sem objetivos no momento, não tomei decisões concretas, mas mexer o corpo ajuda a aliviar o stress e já me sinto menos cansada quando preciso subir as escadas de casa ou pegar a bicicleta para ir ao mercado. Já é alguma coisa.

Foi também na tentativa de me tranquilizar que me desesperei (!!!) mais uma vez quando voltei a pensar sobre minha transição de carreira. O peso do meu corpo causa desconforto, o das minhas escolhas o sobrecarrega e tenho cada vez mais dificuldades em caminhar equilibrando tanto peso. Depois de 7 anos trabalhando como assessora de imprensa (e fazendo uns freelas de redação) fiz um mestrado em produtos e serviços multimídia, trabalhei um ano inteiro como gerente de projeto digital e gostaria de continuar atuando na área. Mas entendo bem a demanda de experiência para o cargo e não tenho o suficiente. Perdi as estribeiras procurando vagas de assistente que não exigissem fluência em holandês, mas as buscas foram infrutíferas. Em diversas ocasiões me candidatei mesmo assim pois sou grande adepta do “não custa tentar”, mas depois de tomar tantos nãos na cara deixei a frustração falar mais alto e tenho sentido cada vez mais vontade de abrir mão e tentar outra coisa. Não houve uma única vez em que ultrapassei a etapa do envio de CV. Não é como se eu tivesse passado por diversas entrevistas sem sucesso – eu nem chego a ser entrevistada. Como manter o estímulo para continuar tentando quando todas as reações são negativas?

No meio da quarentena me vi obrigada a me revisitar e questionar minha trajetória profissional de forma mais rígida. Confesso, doeu. Tenho um currículo ótimo, sinto orgulho de tudo o que fiz até agora e sei que dei o melhor de mim. Só que perante tantos nãos me vi feito um bicho acanhado tremendo de medo. É como se piscasse e me esquecesse de todos bons feitos. As falhas pipocam e preciso fazer uma força monstruosa para dar voz com segurança às minhas qualidades. Por um momento cogitei perguntar qual é a minha maior qualidade aos amigos mais próximos, ou que me dissessem algo que fiz e que os marcou positivamente. Partindo do que os mais querido veem de bom em mim, montaria uma espécie mapa que me ajudaria a explorar cada uma dessas características para me encontrar nelas. Mas me pareceu o cúmulo da carência e no fim das contas é uma tarefa que não pode ser delegada. Depende de mim. Sendo assim, meu presente de aniversário (daqui duas semanas!) vai ser este mapeamento. Tomei nota de algumas pistas que encontrei no meio do caminho destes últimos dias. Vou fazer umas colagens, voltei ao meu bullet journal, e espero ter uma luz a partir de tudo isso para refazer um bom CV e uma boa carta de motivação. E não menos importante, encontrar vagas mais adequadas ao meu perfil. O plano de ser gerente de projeto digital vai ficar para mais tarde.

É difícil descrever o nível de exaustão psicológica em que me encontro e percorri um longo caminho até voltar para este espaço e conseguir escrever com leveza. Seguindo a ordem caótica do mundo, mesmo sem sair de casa muita coisa aconteceu. Os pontos altos do último dia foram Fetch the bolt cutters, a volta da newsletter (repaginada!) de uma amiga muito querida, Sherlock (ainda não havia dado uma chance à série), Rupaul’s Drag Race (cuidado com os spoilers, estamos assistindo as temporadas antigas) e Deerskin. Ainda estou com dificuldades para ver filmes em casa. Me perco com as minhas listas, com dicas de amigos e tentando organizar as atividades do dia para tirar um momento e me concentrar em um filme. Quem sabe uma hora vai?

Quero ver como as coisas vão evoluir agora que aceitei os sentimentos ruins. Deixar sair faz parte do processo de cura. Pode até ser que nasça algo destes tantos cafés que tenho compartilhado com meus demônios pessoais. Vez ou outra cogito produzir outros tipos de conteúdo aqui no blog, de repente falar sobre coisas legais que li e vi neste meio tempo. Por enquanto vou me contentar em chegar ao fim do dia com algum pingo de sanidade. Nos vemos em breve. 🙂

[o trecho que abre este texto é de Heavy Balloon, de Fiona Apple]

Corona diaries #6

Arte de Elena Garnu

Perdi as estribeiras. Há tempos não sentia tanto nervoso, tampouco a força e as proporções que o ódio podem tomar quando estamos à flor da pele. Como se já não fosse frustrante o suficiente acompanhar tudo relacionado ao Covid-19, caio em notícias sobre o dito presidente do meu país de origem e sou tomada por uma tristeza imensa. É impossível falar sobre pandemia sem falar sobre política. Se temos governadores é por um motivo: estando nós de acordo ou não (e no meu caso o santo não bate com o deste homem por motivos óbvios), eles são porta-vozes. São eles quem devem se posicionar para evitar uma piora no quadro atual. Nós, enquanto seres humanos, podemos tomar partido e fazer o que está ao nosso alcance. Pois penso muito no quanto minha bolha pode se colocar nesta posição privilegiada: além de sermos pessoas deveras questionadoras, temos acesso fácil à informação. E quem não tem TV nem internet em casa? Ou um acesso limitado a ambos? Parece surreal em pleno 2020, mas existe. Daí a importância da política para, na medida do possível, acalmar a população e discutir as decisões a serem tomadas em meio à crise.

Dói ver alguém tão despreparado e sem tato no poder. Ele termina por promover a desordem e disseminar ódio – como sempre fez, por sinal. Ele nunca mentiu e tampouco fingiu ser uma pessoa razoável. É triste ver quanta gente não enxerga tal fato e continua aplaudindo a loucura deste homem. Enfim. Não vou me prolongar porque este verme não merece protagonismo por aqui. Mergulhados no caos como estamos, é evidente que não precisamos nos afundar ainda mais na merda.

Sentir como meu psicológico reage ao confinamento me fez repensar muitas coisas, e uma delas foi o diário. Ele surgiu como forma de fazer passar o tempo. Embora o conteúdo não acrescente em nada, ele me faz pensar que estou produzindo algo embora passe o dia parada. Mas tenho medo de virar obrigação. Espaçar a atividade me parece uma boa opção, sobretudo quando vejo uma nova notícia e tenho mais certeza que os dias de confinamento devem se prolongar.

Inclusive parei. Escrevi o parágrafo anterior e fui fazer minha bateria de exercícios do dia no fim da tarde de ontem. Voltei agora, neste resto de quarta-fera. Continuo sendo zoada pela Holanda, com este tempo ridículo, ensolarado e de céu azul. Comecei um texto inspirado pelo novo curta de meu amigo, Caio Naressi, e acabei largando mão porque minha concentração foi embora. Pode ser que retome em algum momento. Minha participação no podcast Conversa de Adulto foi ao ar. Laurinha Lero liberou enfim um novo episódio de Respondendo em Voz Alta [onde ela define o presidente com esta bela frase: “A estupidez do cara é um recurso inesgotável, ele é o pré-sal da estupidez. Muito preciso, tá de parabéns]. Minha amiga falou muito sobre seus 8 kg perdidos em decorrência do término do namoro (sim, a mesma citada em outro diário). O “presidente” do Brasil conseguiu falar mais bosta que de costume (!). Fiz exercícios de holandês. Fiz comida para nós (!!), Nicolas também. Ligamos pra um amigo dele e dividimos um apéro digital. Desejei dar continuidade à minha ilusão de produtividade, mas faltou força de vontade e sobretudo inspiração. No meio da paranoia, dessa agonia de tentar fazer pelo menos cinco coisas e não conseguir avançar em nenhuma, releio este parágrafo e constato que bem, os últimos dois dias (e meio) foram bem movimentados.

E nem precisei sair de casa para a vida acontecer.

Em tempos de ser considerado heroi pelo ato de confinamento, por que raios a gente ainda bate a cabeça contra a parede por não dar conta de seguir adiante e riscar os itens da lista de afazeres que elaboramos nas primeiras horas de quarentena?

Corona diaries #5

Ilustração de Kati Kohl

[Você pode ler ao som de Où va le monde, de La Femme]

Você sabe o que é um Roepnaam? Quando cheguei na Holanda fui surpreendida por este campo em alguns formulários. Em tradução livre, é um “nome diário”. A língua holandesa não é das mais fáceis, os locais estão de acordo, e os nomes próprios não fogem desta curva. Muita gente foi batizada com nomes cristãos por essas bandas também. Em alguns casos, esses nomes não são tão fáceis de se pronunciar para quem não fala holandês. Quando uma criança nasce na Holanda, os pais escolhem o nome (na grande maioria dos casos são nomes compostos) e o tal do Roepnaam, pois bem, escolher um nome composto e um sobrenome é pouca coisa. É uma espécie de apelido no fim das contas, com a diferença de que ele vira quase o teu nome oficial porque as pessoas só te reconhecem por ele! Pareceu confuso? Pois bem, vai continuar sendo confuso como quase tudo na cultura local. Posso exemplificar com uma personagem bem conhecida e talvez dê para ter uma noção melhor: Anne Frank. Seu nome era Annelies Marie Frank. Anne não era nome ‘artístico’, mas seu Roepnaam, e todos eles constavam em sua certidão de nascimento.

Se um dia um conhecido holandês vier me relatar uma crise de identidade, terei o dobro de empatia. Coitadinho.

E já que estamos no tema Holanda, sinto que o Buienradar resolveu me pregar uma peça. O aplicativo em questão é um grande aliado da população holandesa, pois este belo radar meteorológico nos dá uma estimativa quase precisa das chuvas no país. Ele costuma ser bem eficaz e me ajudou muito a encontrar janelas sem chuva para fazer mercado ou sair para correr antes do Covid-19. Foi só falar de confinamento que ele deu para me dizer “Geen neerslag verwacht” (em livra tradução: nenhuma precipitação esperada) TO-DOS os dias. Muito sol e céu azul para nós. Porém basta abrir a porta do terraço um pouquinho para acalmar os ânimos: a ventania maluca deste país segue firme e forte e faz um frio de doer. Muitíssimo apropriado para ficarmos quietos de conchinha no sofá.

Nós somos, todavia, um casal muito culto – então vamos aproveitar que Nicolas não precisa trabalhar e passar a tarde lendo. Resolvi pegar um quadrinho para este domingo: S’enfuir – Récit d’un otage, de Guy Delisle. Eu AMO Delisle e recomendo todos os quadrinhos já publicados dele. Mas me faltava este, sua publicação mais recente. Ele conta a história de Christophe André, que foi sequestrado no Cáucaso durante uma missão para uma ONG em 1997. Ele relata sua experiência em cativeiro ao longo de 111 dias. Quer leitura mais adequada para um confinamento?

Mal sabia que ao começar seria acometida pelas ironias de meu intestino, que resolveu elevar o conceito de ficar em casa à máxima potência.

E já que apelei à escatologia (estaria eu deveras afetada pelas declarações do dito presidente do meu país de origem?), decidimos coroar o dia de hoje com Love is blind. A série coloca um pessoal para se conhecer “pelas paredes”, eles conversam e precisam se pedir em casamento sem nunca terem se visto. Um ponto excelente são as marcações: quando vi o “dia 1 do EXPERIMENTO” já estava com lágrimas nos olhos de tanto rir. É maravilhosamente horrível! Vi muitas pessoas recomendando antes do meu período offline do Twitter, alguns amigos indicaram, sabe-se lá como consegui desviar de tanto spoiler mesmo sendo tão previsível.

Mas é fato: conteúdos bobos como este são uma boa distração para quem sofre de ansiedade e não aguenta mais se sentir atingido com esse tanto de notícia ruim. É preciso uma dose de ignorância para não pirar em meio à tanta loucura.

Corona diaries #4

[Você pode ler ao som de wanderlust – Marika Hackman]

O dia amanheceu tão bonito. Com a primavera que se aproxima, o sol começa a despertar mais cedo. Nas minhas primeiras horas despertas de hoje ele chegou a arder os olhos, uma raridade nos Países Baixos. A santa ironia de não chover e termos um céu azul desses justo quando não podemos sair. Tomamos um café da manhã preguiçoso e decidimos fazer um rápido passeio de bicicleta para absorver um pouco do sol e respirar um pouco antes que anunciem um lockdown por aqui. Eu sei, não deveríamos… e eu não deveria ficar me justificando ou fazendo mea culpa, mas precisávamos de um respiro e de uma breve sensação de que tudo está sob controle. Sendo a sensação falsa ou não. Enganar-se com falsas esperanças ainda é uma alternativa, cada um faz o que está ao se alcance e por aí vai.

Somos dois, evitamos aglomerações, retornamos em tempo de preparar algo gostoso para o almoço. Nicolas fez um Poke. Às 16h tinha um encontro marcado com duas amigas no WhatsApp mais próximo. Participei do Podcast Conversa de Adulto, criado pela minha amiga Fernanda Lopes, junto com a Maíra. Nós três nos formamos em Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, em 2012, e seguimos rumos distintos em nossas carreiras. A origem do nome deste blog, por sinal, foi ideia da Fer. Ninguém quer sufocar ninguém com dicas-do-que-se-fazer-durante-a-quarentena, mas caso você queira uma dica de leitura, ela é co-autora de Lute como uma garota: 60 feministas que mudaram o mundo. Enquanto nossa colaboração não vai ao ar, você pode conferir os três primeiros episódios. Para podcasts chamamos de “episódio” também? Fica a questão. Foi uma delícia participar e aproveitar a ocasião para conversar com pessoas que possuem um cantinho reservado no meu coração e que não vejo há tanto tempo.

Em contrapartida à essa troca rica e animadora de experiências, tenho uma amiga francesa com sérias dificuldades para superar o término de seu namoro. Antes de conhecer meu companheiro, fui solteira por dez anos. Isso mesmo, você não leu errado: uma década aprendendo a conviver de forma harmoniosa com a minha própria companhia e sem grandes perspectivas de encontrar alguém para compartilhar minhas loucuras. Gosto de brincar que Nicolas foi meu presente por ter tirado o melhor que pude dessa experiência de tantos anos fazendo tudo sozinha. Tive meus encontrinhos e tentativas de me relacionar com outros caras no meio do caminho, levei tanto pé na bunda… cada término me deixou mais forte. Ser rejeitada não é fácil, a gente sofre mesmo. Porém tenho sérias dificuldades em aconselhar a amiga em questão pois do que acompanhei do relacionamento o cara nunca foi essa coca-cola toda. A moça escreveu uma carta de “despedida oficial” para o ex, e a resposta dele veio nesta linda tarde de sábado – e claro, não foi como ela esperava. Passamos uma hora ao telefone enquanto eu tentava consolá-la. Estou há quase dois meses tentando ajudar, embora tudo que eu diga pareça passar batido. Em certa medida acabo por exercitar um bocado de empatia: como não sofrer com o coração partido em tempos de confinamento, ainda mais quando você não tem um emprego ou um mestrado para ocupar sua cabeça? (Aceito sugestões)

Vi uma notícia sobre um grupo de elefantes que « invadiu » uma província e se empanturrou de milho e vinho (!). Estranhei, dada a descrição dos fatos, e fui atrás de mais informações. As fotos são de fato adoráveis, mas a verdade é que a quarentena alimentou o potencial criativo de muitas pessoas e temos aí grandes ficcionistas em ação.

Vamos fechar nosso sábado com uma versão em Anime de Altered Carbon que acabamos de encontrar na Netflix. Terminamos a segunda temporada há pouco tempo, que por sinal não é tão boa quanto a primeira, mas gosto bastante da série. Não é tão ruim assim ficar confinada quando consigo encontrar escapismos na ficção ❤

Corona diaries #3

[Para ler ao som de Burning, de Maggie Rogers]

Para uma pessoa muito sensitiva, é curioso não ter sido assombrada pelo Corona Vírus em sonhos. Quando estou paranoica com algo eles povoam meu inconsciente com muita facilidade enquanto durmo. Pois de ontem para hoje a angústia e as sensações ruins de uma ameaça invisível apareceram vagamente. Sonhei que perdia uma viagem num cruzeiro (????) porque me enrolava finalizando a mala. Tive tempo para arrumá-la no sonho, mas decidi fazê-lo em cima da hora e perdi várias coisas no meio da arrumação. Senti cada olhada no relógio e cada consulta ao Google Maps para checar a estimativa de tempo do percurso até o ponto de saída do cruzeiro como se estivesse de fato acontecendo. Meu inconsciente é maluco. Vamos ver como ele responde pelos próximos dias.

Me sinto um tanto incomodada com a obrigação de estar informada e ter que participar do movimento da vida mesmo confinada. É preciso ler as notícias e manter-se atualizado, entendo, mas precisa ser o tempo inteiro? É assim tão urgente perguntar às pessoas se elas estão à par do fato x ou y? Precisamos mesmo fazer olhar todos catálogos de cursos online gratuitos que nos são oferecidos no momento? Se a gente não dá conta de todas as séries dos serviços de streaming, imagine o tempo perdido a filtrar todas essas oportunidades. E será que a gente quer mesmo se sufocar de conteúdos diversos no momento que vivemos?

São muitas perguntas, tempo transbordando para buscar respostas, vontade de continuar quieta e tocar a vida como já vinha fazendo antes da pandemia. Com leves adaptações, claro, como se eu saísse até então. Começo a sentir saudades de ir ao cinema às 11 da manhã (estar desempregada tem seus deleites), de ir tomar um café na rua enquanto leio no meio da semana, de se permitir uma cerveja no pub com Nicolas depois da aula de holandês. Nada imprescindível, ainda posso ver filmes, fazer um lanchinho da tarde e dividir um drink com ele em casa, e isso me faz pensar no quão fácil é se fechar em casa quando você PODE fazê-lo e ainda pode assistir ao fim do mundo enchendo alguém de abraços e beijos. Vantagem que pode virar perigo à produtividade de quem trabalha, visto que um carinho inocente pode ser brecha para uma atividade sexual inusitada no meio do expediente.

Leio alguns textos e crio uma pasta com imagens que posso usar para ilustrar os diários enquanto meu companheiro cuida da janta. Não saímos de casa hoje, mas ele vai nos proporcionar uma rápida viagem – gastronômica – à região de Haute-Savoie, onde morávamos quando nos encontramos. Por sinal, temos aqui uma saída deliciosa para quem sente vontade de viajar no momento e não pode: que tal testar uma receita típica de outro país? Cozinhar é um ato de amor, seja para si mesmo ou para outras pessoas, e é preciso dedicar um momento ao preparo, o que faz passar o tempo e ocupar-se.

Ele preparou um Diot, uma salsicha típica de Haute-Savoie. Na receita dele, ela cozinha em um molho maravilhosa que leva manteiga e leite no preparo. Para acompanhar, ele fez um purê de batatas. Ficou delicioso, e é provável que o dia de hoje acabe tranquilo assim – com comida boa, um bom vinho, pois ninguém precisa acordar cedo amanhã, e a serenidade de quem está saudável e (por hora!) protegido.

Corona Diaries #2

A arte é de Rafaela Mascaro

Foi preciso uma crise que esvazia as ruas da cidade para enfim ter coragem de pegar minha bicicleta e sair sem medo. Triste constatar que uma circunstância extrema foi a única capaz de paralisar minha insegurança por algumas horas, mas essas coisas acontecem. Circunstâncias da vida. Como mencionei no último diário, este hábito saudável da população holandesa pode ser um grande aliado desta crise: você passa menos tempo exposto do que se fosse à pé. Mesmo tendo meu objetivo traçado antes de abrir a porta – comprar pão (moro com um francês e digamos que o pão é um item essencial para eles) na padaria e sal no mercado mais próximo – não restringi meu passeio à obrigação. Aproveitei o trajeto do ponto a ao b para observar as ruas e tentar entender esse organismo vivo que é a cidade. Como ela se molda e como continua dando seus passos neste novo contexto.

Fiz um caminho conhecido com a atenção de sempre, embora a movimentação seja mínima. Entre a ida e a volta cruzei pelo menos 6 bicicletas e dois carros. Na rua da padaria duas pessoas fumavam a conversavam na calçada. Não muito longe um homem saía de casa com seu cachorro, despertando minha curiosidade em saber como os donos de bichinhos vão gerenciar os passeios. Mas bom, não era ocasião para papear com desconhecidos nas ruas. Estava frio, ventava pouco para os padrões holandeses, mas os trabalhos continuam. Embora pouco numerosos e sem uma grande concentração de pessoas, há trabalhadores sujando as mãos nos pavimentos de Haia. Passei por três “caminhões” de obra e um pequeno amontoado de gente trabalhando nas imediações destes veículos.

O mercado estava vazio. Passei por duas pessoas que trabalham no local e dois clientes. Na entrada e nos corredores colaram avisos pedindo às pessoas que mantenham 1,5m de distância umas das outras. Não percebi nenhuma limitação nos estoques. Tudo estava bem abastecido. Peguei o sal, um pote de sorvete (quarentena pede milkshake), paguei, peguei minha bicicleta e voltei para casa.

Nosso segundo dia de “confinamento” não teve nada de extraordinário. Minha leitura de Half of a yellow sun, de Chimamanda Ngozi Adichie, enfim deu uma guinada significativa e passei boas horas acompanhando as desventuras dos personagens espalhada no sofá. Fiz pausas para escrever e tomar um café com Nico e, no fim da tarde, deixei tudo no jeito para poder fazer os exercícios propostos pelo aplicativo. Tenho tentado seguir à risca, me exercitar ajuda a manter a mente sã.

Acabei por começar a segunda temporada de Formula 1: Drive to survive com meu companheiro. Ele queria assistir, eu estava curiosa. No fim das contas me peguei envolvida. A série é bem produzida e estruturada, interessante o suficiente para atrair uma pessoa como eu, que não entende nada e nem dá a mínima para carros. Nosso segundo dia de confinamento deve acabar com o penúltimo episódio.

Para quem só possui o trabalho em ambientes externos como opção – sobretudo os autônomos, como fotógrafos, por exemplo, não deve ser fácil. Passei um momento pensando em opções que poderia propor a profissionais da categoria para obter alguma renda neste período. Para quem foi “obrigado” a trabalhar de casa e está surtando, ainda vejo graça. Coisa de quem sempre gostou muito de ficar quietinha em casa. Foi curioso ver a publicação de Fiona Apple’s Art of Radical Sensitivity, um perfil gigante e maravilhoso de uma das minhas cantoras favoritas, escrito por Emily Nussbaum, justo em meio aos anúncios de quarentena. A artista vive isolada em sua casa já há algum tempo, saindo apenas para passear com sua cachorra. A leitura me acompanhou durante minhas horas presa no aeroporto enquanto tentava voltar para casa, recomendo mesmo para quem não acompanha o trabalho dela – Nussbaum nos ambienta com perfeição.

Para criar um relativo dinamismo nos diários, vou compartilhar dicas possíveis de se fazer em casa em tempos de isolamento. É uma forma de ter um registro de atividades que funcionaram para mim e podem ajudar quem por ventura cair nestas páginas.

É provável que eu deixe também dicas de leitura e filmes no fim do diário do dia – claro que elas podem aparecer soltas no meio dos textos, mas deixarei um espaço dedicado no finalzinho também caso sinta vontade.

Até a próxima ❤

Formiguinhas de plantão, deu vontade de doce? Que tal fazer um Smoothie? 🙂 Nos meus tempos de mulher fitness sempre congelava bananas para não perder. Vocês sabem, essa preciosa fruta apodrece com muita facilidade, e bom, ninguém gosta de jogar comida fora. A banana congelada batida com um pouquinho de gelo vira um sorbet fácil e super gostosinho, mas tenho essa receitinha de smoothie prática que sempre foi uma mão na roda, sobretudo quando precisava de um pré ou pós treino mais leve. Dá para adaptar caso você seja vegan. Anote aí!

Ingredientes:

  • 1 banana congelada
  • 1 xícara de leite gelado (normal ou vegetal – recomendo o de amêndoas)
  • 1 colher de sopa de pasta de amendoim (de preferência pura <3)
  • Um pouquinho de mel (ou melado/agave) para adoçar caso sinta necessidade.

Preparo: Bata tudo no liquidificador e seja feliz x)