Corona diaries #6

Arte de Elena Garnu

Perdi as estribeiras. Há tempos não sentia tanto nervoso, tampouco a força e as proporções que o ódio podem tomar quando estamos à flor da pele. Como se já não fosse frustrante o suficiente acompanhar tudo relacionado ao Covid-19, caio em notícias sobre o dito presidente do meu país de origem e sou tomada por uma tristeza imensa. É impossível falar sobre pandemia sem falar sobre política. Se temos governadores é por um motivo: estando nós de acordo ou não (e no meu caso o santo não bate com o deste homem por motivos óbvios), eles são porta-vozes. São eles quem devem se posicionar para evitar uma piora no quadro atual. Nós, enquanto seres humanos, podemos tomar partido e fazer o que está ao nosso alcance. Pois penso muito no quanto minha bolha pode se colocar nesta posição privilegiada: além de sermos pessoas deveras questionadoras, temos acesso fácil à informação. E quem não tem TV nem internet em casa? Ou um acesso limitado a ambos? Parece surreal em pleno 2020, mas existe. Daí a importância da política para, na medida do possível, acalmar a população e discutir as decisões a serem tomadas em meio à crise.

Dói ver alguém tão despreparado e sem tato no poder. Ele termina por promover a desordem e disseminar ódio – como sempre fez, por sinal. Ele nunca mentiu e tampouco fingiu ser uma pessoa razoável. É triste ver quanta gente não enxerga tal fato e continua aplaudindo a loucura deste homem. Enfim. Não vou me prolongar porque este verme não merece protagonismo por aqui. Mergulhados no caos como estamos, é evidente que não precisamos nos afundar ainda mais na merda.

Sentir como meu psicológico reage ao confinamento me fez repensar muitas coisas, e uma delas foi o diário. Ele surgiu como forma de fazer passar o tempo. Embora o conteúdo não acrescente em nada, ele me faz pensar que estou produzindo algo embora passe o dia parada. Mas tenho medo de virar obrigação. Espaçar a atividade me parece uma boa opção, sobretudo quando vejo uma nova notícia e tenho mais certeza que os dias de confinamento devem se prolongar.

Inclusive parei. Escrevi o parágrafo anterior e fui fazer minha bateria de exercícios do dia no fim da tarde de ontem. Voltei agora, neste resto de quarta-fera. Continuo sendo zoada pela Holanda, com este tempo ridículo, ensolarado e de céu azul. Comecei um texto inspirado pelo novo curta de meu amigo, Caio Naressi, e acabei largando mão porque minha concentração foi embora. Pode ser que retome em algum momento. Minha participação no podcast Conversa de Adulto foi ao ar. Laurinha Lero liberou enfim um novo episódio de Respondendo em Voz Alta [onde ela define o presidente com esta bela frase: “A estupidez do cara é um recurso inesgotável, ele é o pré-sal da estupidez. Muito preciso, tá de parabéns]. Minha amiga falou muito sobre seus 8 kg perdidos em decorrência do término do namoro (sim, a mesma citada em outro diário). O “presidente” do Brasil conseguiu falar mais bosta que de costume (!). Fiz exercícios de holandês. Fiz comida para nós (!!), Nicolas também. Ligamos pra um amigo dele e dividimos um apéro digital. Desejei dar continuidade à minha ilusão de produtividade, mas faltou força de vontade e sobretudo inspiração. No meio da paranoia, dessa agonia de tentar fazer pelo menos cinco coisas e não conseguir avançar em nenhuma, releio este parágrafo e constato que bem, os últimos dois dias (e meio) foram bem movimentados.

E nem precisei sair de casa para a vida acontecer.

Em tempos de ser considerado heroi pelo ato de confinamento, por que raios a gente ainda bate a cabeça contra a parede por não dar conta de seguir adiante e riscar os itens da lista de afazeres que elaboramos nas primeiras horas de quarentena?

Corona diaries #5

Ilustração de Kati Kohl

[Você pode ler ao som de Où va le monde, de La Femme]

Você sabe o que é um Roepnaam? Quando cheguei na Holanda fui surpreendida por este campo em alguns formulários. Em tradução livre, é um “nome diário”. A língua holandesa não é das mais fáceis, os locais estão de acordo, e os nomes próprios não fogem desta curva. Muita gente foi batizada com nomes cristãos por essas bandas também. Em alguns casos, esses nomes não são tão fáceis de se pronunciar para quem não fala holandês. Quando uma criança nasce na Holanda, os pais escolhem o nome (na grande maioria dos casos são nomes compostos) e o tal do Roepnaam, pois bem, escolher um nome composto e um sobrenome é pouca coisa. É uma espécie de apelido no fim das contas, com a diferença de que ele vira quase o teu nome oficial porque as pessoas só te reconhecem por ele! Pareceu confuso? Pois bem, vai continuar sendo confuso como quase tudo na cultura local. Posso exemplificar com uma personagem bem conhecida e talvez dê para ter uma noção melhor: Anne Frank. Seu nome era Annelies Marie Frank. Anne não era nome ‘artístico’, mas seu Roepnaam, e todos eles constavam em sua certidão de nascimento.

Se um dia um conhecido holandês vier me relatar uma crise de identidade, terei o dobro de empatia. Coitadinho.

E já que estamos no tema Holanda, sinto que o Buienradar resolveu me pregar uma peça. O aplicativo em questão é um grande aliado da população holandesa, pois este belo radar meteorológico nos dá uma estimativa quase precisa das chuvas no país. Ele costuma ser bem eficaz e me ajudou muito a encontrar janelas sem chuva para fazer mercado ou sair para correr antes do Covid-19. Foi só falar de confinamento que ele deu para me dizer “Geen neerslag verwacht” (em livra tradução: nenhuma precipitação esperada) TO-DOS os dias. Muito sol e céu azul para nós. Porém basta abrir a porta do terraço um pouquinho para acalmar os ânimos: a ventania maluca deste país segue firme e forte e faz um frio de doer. Muitíssimo apropriado para ficarmos quietos de conchinha no sofá.

Nós somos, todavia, um casal muito culto – então vamos aproveitar que Nicolas não precisa trabalhar e passar a tarde lendo. Resolvi pegar um quadrinho para este domingo: S’enfuir – Récit d’un otage, de Guy Delisle. Eu AMO Delisle e recomendo todos os quadrinhos já publicados dele. Mas me faltava este, sua publicação mais recente. Ele conta a história de Christophe André, que foi sequestrado no Cáucaso durante uma missão para uma ONG em 1997. Ele relata sua experiência em cativeiro ao longo de 111 dias. Quer leitura mais adequada para um confinamento?

Mal sabia que ao começar seria acometida pelas ironias de meu intestino, que resolveu elevar o conceito de ficar em casa à máxima potência.

E já que apelei à escatologia (estaria eu deveras afetada pelas declarações do dito presidente do meu país de origem?), decidimos coroar o dia de hoje com Love is blind. A série coloca um pessoal para se conhecer “pelas paredes”, eles conversam e precisam se pedir em casamento sem nunca terem se visto. Um ponto excelente são as marcações: quando vi o “dia 1 do EXPERIMENTO” já estava com lágrimas nos olhos de tanto rir. É maravilhosamente horrível! Vi muitas pessoas recomendando antes do meu período offline do Twitter, alguns amigos indicaram, sabe-se lá como consegui desviar de tanto spoiler mesmo sendo tão previsível.

Mas é fato: conteúdos bobos como este são uma boa distração para quem sofre de ansiedade e não aguenta mais se sentir atingido com esse tanto de notícia ruim. É preciso uma dose de ignorância para não pirar em meio à tanta loucura.

Corona diaries #4

[Você pode ler ao som de wanderlust – Marika Hackman]

O dia amanheceu tão bonito. Com a primavera que se aproxima, o sol começa a despertar mais cedo. Nas minhas primeiras horas despertas de hoje ele chegou a arder os olhos, uma raridade nos Países Baixos. A santa ironia de não chover e termos um céu azul desses justo quando não podemos sair. Tomamos um café da manhã preguiçoso e decidimos fazer um rápido passeio de bicicleta para absorver um pouco do sol e respirar um pouco antes que anunciem um lockdown por aqui. Eu sei, não deveríamos… e eu não deveria ficar me justificando ou fazendo mea culpa, mas precisávamos de um respiro e de uma breve sensação de que tudo está sob controle. Sendo a sensação falsa ou não. Enganar-se com falsas esperanças ainda é uma alternativa, cada um faz o que está ao se alcance e por aí vai.

Somos dois, evitamos aglomerações, retornamos em tempo de preparar algo gostoso para o almoço. Nicolas fez um Poke. Às 16h tinha um encontro marcado com duas amigas no WhatsApp mais próximo. Participei do Podcast Conversa de Adulto, criado pela minha amiga Fernanda Lopes, junto com a Maíra. Nós três nos formamos em Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, em 2012, e seguimos rumos distintos em nossas carreiras. A origem do nome deste blog, por sinal, foi ideia da Fer. Ninguém quer sufocar ninguém com dicas-do-que-se-fazer-durante-a-quarentena, mas caso você queira uma dica de leitura, ela é co-autora de Lute como uma garota: 60 feministas que mudaram o mundo. Enquanto nossa colaboração não vai ao ar, você pode conferir os três primeiros episódios. Para podcasts chamamos de “episódio” também? Fica a questão. Foi uma delícia participar e aproveitar a ocasião para conversar com pessoas que possuem um cantinho reservado no meu coração e que não vejo há tanto tempo.

Em contrapartida à essa troca rica e animadora de experiências, tenho uma amiga francesa com sérias dificuldades para superar o término de seu namoro. Antes de conhecer meu companheiro, fui solteira por dez anos. Isso mesmo, você não leu errado: uma década aprendendo a conviver de forma harmoniosa com a minha própria companhia e sem grandes perspectivas de encontrar alguém para compartilhar minhas loucuras. Gosto de brincar que Nicolas foi meu presente por ter tirado o melhor que pude dessa experiência de tantos anos fazendo tudo sozinha. Tive meus encontrinhos e tentativas de me relacionar com outros caras no meio do caminho, levei tanto pé na bunda… cada término me deixou mais forte. Ser rejeitada não é fácil, a gente sofre mesmo. Porém tenho sérias dificuldades em aconselhar a amiga em questão pois do que acompanhei do relacionamento o cara nunca foi essa coca-cola toda. A moça escreveu uma carta de “despedida oficial” para o ex, e a resposta dele veio nesta linda tarde de sábado – e claro, não foi como ela esperava. Passamos uma hora ao telefone enquanto eu tentava consolá-la. Estou há quase dois meses tentando ajudar, embora tudo que eu diga pareça passar batido. Em certa medida acabo por exercitar um bocado de empatia: como não sofrer com o coração partido em tempos de confinamento, ainda mais quando você não tem um emprego ou um mestrado para ocupar sua cabeça? (Aceito sugestões)

Vi uma notícia sobre um grupo de elefantes que « invadiu » uma província e se empanturrou de milho e vinho (!). Estranhei, dada a descrição dos fatos, e fui atrás de mais informações. As fotos são de fato adoráveis, mas a verdade é que a quarentena alimentou o potencial criativo de muitas pessoas e temos aí grandes ficcionistas em ação.

Vamos fechar nosso sábado com uma versão em Anime de Altered Carbon que acabamos de encontrar na Netflix. Terminamos a segunda temporada há pouco tempo, que por sinal não é tão boa quanto a primeira, mas gosto bastante da série. Não é tão ruim assim ficar confinada quando consigo encontrar escapismos na ficção ❤

Corona diaries #3

[Para ler ao som de Burning, de Maggie Rogers]

Para uma pessoa muito sensitiva, é curioso não ter sido assombrada pelo Corona Vírus em sonhos. Quando estou paranoica com algo eles povoam meu inconsciente com muita facilidade enquanto durmo. Pois de ontem para hoje a angústia e as sensações ruins de uma ameaça invisível apareceram vagamente. Sonhei que perdia uma viagem num cruzeiro (????) porque me enrolava finalizando a mala. Tive tempo para arrumá-la no sonho, mas decidi fazê-lo em cima da hora e perdi várias coisas no meio da arrumação. Senti cada olhada no relógio e cada consulta ao Google Maps para checar a estimativa de tempo do percurso até o ponto de saída do cruzeiro como se estivesse de fato acontecendo. Meu inconsciente é maluco. Vamos ver como ele responde pelos próximos dias.

Me sinto um tanto incomodada com a obrigação de estar informada e ter que participar do movimento da vida mesmo confinada. É preciso ler as notícias e manter-se atualizado, entendo, mas precisa ser o tempo inteiro? É assim tão urgente perguntar às pessoas se elas estão à par do fato x ou y? Precisamos mesmo fazer olhar todos catálogos de cursos online gratuitos que nos são oferecidos no momento? Se a gente não dá conta de todas as séries dos serviços de streaming, imagine o tempo perdido a filtrar todas essas oportunidades. E será que a gente quer mesmo se sufocar de conteúdos diversos no momento que vivemos?

São muitas perguntas, tempo transbordando para buscar respostas, vontade de continuar quieta e tocar a vida como já vinha fazendo antes da pandemia. Com leves adaptações, claro, como se eu saísse até então. Começo a sentir saudades de ir ao cinema às 11 da manhã (estar desempregada tem seus deleites), de ir tomar um café na rua enquanto leio no meio da semana, de se permitir uma cerveja no pub com Nicolas depois da aula de holandês. Nada imprescindível, ainda posso ver filmes, fazer um lanchinho da tarde e dividir um drink com ele em casa, e isso me faz pensar no quão fácil é se fechar em casa quando você PODE fazê-lo e ainda pode assistir ao fim do mundo enchendo alguém de abraços e beijos. Vantagem que pode virar perigo à produtividade de quem trabalha, visto que um carinho inocente pode ser brecha para uma atividade sexual inusitada no meio do expediente.

Leio alguns textos e crio uma pasta com imagens que posso usar para ilustrar os diários enquanto meu companheiro cuida da janta. Não saímos de casa hoje, mas ele vai nos proporcionar uma rápida viagem – gastronômica – à região de Haute-Savoie, onde morávamos quando nos encontramos. Por sinal, temos aqui uma saída deliciosa para quem sente vontade de viajar no momento e não pode: que tal testar uma receita típica de outro país? Cozinhar é um ato de amor, seja para si mesmo ou para outras pessoas, e é preciso dedicar um momento ao preparo, o que faz passar o tempo e ocupar-se.

Ele preparou um Diot, uma salsicha típica de Haute-Savoie. Na receita dele, ela cozinha em um molho maravilhosa que leva manteiga e leite no preparo. Para acompanhar, ele fez um purê de batatas. Ficou delicioso, e é provável que o dia de hoje acabe tranquilo assim – com comida boa, um bom vinho, pois ninguém precisa acordar cedo amanhã, e a serenidade de quem está saudável e (por hora!) protegido.

Corona Diaries #2

A arte é de Rafaela Mascaro

Foi preciso uma crise que esvazia as ruas da cidade para enfim ter coragem de pegar minha bicicleta e sair sem medo. Triste constatar que uma circunstância extrema foi a única capaz de paralisar minha insegurança por algumas horas, mas essas coisas acontecem. Circunstâncias da vida. Como mencionei no último diário, este hábito saudável da população holandesa pode ser um grande aliado desta crise: você passa menos tempo exposto do que se fosse à pé. Mesmo tendo meu objetivo traçado antes de abrir a porta – comprar pão (moro com um francês e digamos que o pão é um item essencial para eles) na padaria e sal no mercado mais próximo – não restringi meu passeio à obrigação. Aproveitei o trajeto do ponto a ao b para observar as ruas e tentar entender esse organismo vivo que é a cidade. Como ela se molda e como continua dando seus passos neste novo contexto.

Fiz um caminho conhecido com a atenção de sempre, embora a movimentação seja mínima. Entre a ida e a volta cruzei pelo menos 6 bicicletas e dois carros. Na rua da padaria duas pessoas fumavam a conversavam na calçada. Não muito longe um homem saía de casa com seu cachorro, despertando minha curiosidade em saber como os donos de bichinhos vão gerenciar os passeios. Mas bom, não era ocasião para papear com desconhecidos nas ruas. Estava frio, ventava pouco para os padrões holandeses, mas os trabalhos continuam. Embora pouco numerosos e sem uma grande concentração de pessoas, há trabalhadores sujando as mãos nos pavimentos de Haia. Passei por três “caminhões” de obra e um pequeno amontoado de gente trabalhando nas imediações destes veículos.

O mercado estava vazio. Passei por duas pessoas que trabalham no local e dois clientes. Na entrada e nos corredores colaram avisos pedindo às pessoas que mantenham 1,5m de distância umas das outras. Não percebi nenhuma limitação nos estoques. Tudo estava bem abastecido. Peguei o sal, um pote de sorvete (quarentena pede milkshake), paguei, peguei minha bicicleta e voltei para casa.

Nosso segundo dia de “confinamento” não teve nada de extraordinário. Minha leitura de Half of a yellow sun, de Chimamanda Ngozi Adichie, enfim deu uma guinada significativa e passei boas horas acompanhando as desventuras dos personagens espalhada no sofá. Fiz pausas para escrever e tomar um café com Nico e, no fim da tarde, deixei tudo no jeito para poder fazer os exercícios propostos pelo aplicativo. Tenho tentado seguir à risca, me exercitar ajuda a manter a mente sã.

Acabei por começar a segunda temporada de Formula 1: Drive to survive com meu companheiro. Ele queria assistir, eu estava curiosa. No fim das contas me peguei envolvida. A série é bem produzida e estruturada, interessante o suficiente para atrair uma pessoa como eu, que não entende nada e nem dá a mínima para carros. Nosso segundo dia de confinamento deve acabar com o penúltimo episódio.

Para quem só possui o trabalho em ambientes externos como opção – sobretudo os autônomos, como fotógrafos, por exemplo, não deve ser fácil. Passei um momento pensando em opções que poderia propor a profissionais da categoria para obter alguma renda neste período. Para quem foi “obrigado” a trabalhar de casa e está surtando, ainda vejo graça. Coisa de quem sempre gostou muito de ficar quietinha em casa. Foi curioso ver a publicação de Fiona Apple’s Art of Radical Sensitivity, um perfil gigante e maravilhoso de uma das minhas cantoras favoritas, escrito por Emily Nussbaum, justo em meio aos anúncios de quarentena. A artista vive isolada em sua casa já há algum tempo, saindo apenas para passear com sua cachorra. A leitura me acompanhou durante minhas horas presa no aeroporto enquanto tentava voltar para casa, recomendo mesmo para quem não acompanha o trabalho dela – Nussbaum nos ambienta com perfeição.

Para criar um relativo dinamismo nos diários, vou compartilhar dicas possíveis de se fazer em casa em tempos de isolamento. É uma forma de ter um registro de atividades que funcionaram para mim e podem ajudar quem por ventura cair nestas páginas.

É provável que eu deixe também dicas de leitura e filmes no fim do diário do dia – claro que elas podem aparecer soltas no meio dos textos, mas deixarei um espaço dedicado no finalzinho também caso sinta vontade.

Até a próxima ❤

Formiguinhas de plantão, deu vontade de doce? Que tal fazer um Smoothie? 🙂 Nos meus tempos de mulher fitness sempre congelava bananas para não perder. Vocês sabem, essa preciosa fruta apodrece com muita facilidade, e bom, ninguém gosta de jogar comida fora. A banana congelada batida com um pouquinho de gelo vira um sorbet fácil e super gostosinho, mas tenho essa receitinha de smoothie prática que sempre foi uma mão na roda, sobretudo quando precisava de um pré ou pós treino mais leve. Dá para adaptar caso você seja vegan. Anote aí!

Ingredientes:

  • 1 banana congelada
  • 1 xícara de leite gelado (normal ou vegetal – recomendo o de amêndoas)
  • 1 colher de sopa de pasta de amendoim (de preferência pura <3)
  • Um pouquinho de mel (ou melado/agave) para adoçar caso sinta necessidade.

Preparo: Bata tudo no liquidificador e seja feliz x)

Corona diaries #1

A arte é de Marianna Tomaselli

O Spotify me indicou You already know mais uma vez. Ele parece adorar a versão com Kathryn Williams. Embora figure em algumas das minhas playlists e já seja uma velha conhecida, vez ou outra ele a joga nas Descobertas da Semana. Deixei para ouvir a seleção da vez na quarta-feira, meu primeiro dia oficial de ‘confinamento’, quando me encontrei enfim dentro de casa após um retorno deveras turbulento aos Países Baixos. Teve Suíça, França, um voo perdido, alguns tantos imprevistos em meio a uma pandemia que se confirmou.

Moro com meu companheiro há alguns meses, ele trabalha, eu não. Ele nunca fez home office, eu fui adepta da modalidade quando era freelancer. Tenho pensado em meios de ajudá-lo a se adaptar, visto que estamos distantes da estrutura que ele possui no escritório. E a logística, é claro, é outra: quando se trabalha fora de casa você acaba por criar uma rotina, organizar teus horários em função da sua produtividade… É mais fácil estabelecer um cotidiano de trabalho quando você possui horários impostos e metas, por exemplo.

Para uma pessoa desempregada pouca coisa vai mudar. Desde a mudança fiquei muito em casa, saindo apenas para fazer mercado ou correr. Vez ou outra rolava um cinema. Essa situação não me causa desconforto e estranhamento. Gosto da sensação de estar no meu lar, de organizar minhas coisas, de ter um tempo tranquila sentada no sofá enquanto leio, respondo uma mensagem ou escrevo textos como este. Ser expatriado pode ser bem solitário. Meus quase três anos morando na Europa foram repletos de isolamento, sobretudo no início, quando não conhecia muita gente e tateava os vazios em tentativas frustradas de construir um pequeno círculo de amizades. Em função do local onde me encontrava, as opções culturais não eram numerosas. Passei dias completos sem sair, sobretudo em períodos de aulas canceladas e quando não estava escalada para trabalhar. Conviver comigo mesma não tardou a ser uma realidade.

Enquanto muitos dos meus colegas do mestrado viajavam aos fins de semana para a casa dos pais, eu ficava em Montbéliard, onde revisava o conteúdo das aulas e/ou ia trabalhar. Enquanto agente do museu só precisava vigiar as salas e me certificar que tudo estava certo com o nosso espaço físico e os meus expedientes variavam de um mês para o outro. Era o que me permitia ter algum contato com pessoas, fossem estes meus colegas ou visitantes. Como todo centro cultural de cidades do nos confins do mundo há dias tumultuados, outros nem tanto. E no período pré e pós expediente eu ficava no meu apartamento, dialogando com os meus pensamentos e eventualmente conversando com família e amigos por chamada de vídeo.

Quando me mudei para realizar um estágio, comecei um novo ciclo de isolamento. Se em Montbéliard tive ocasião de estabelecer alguns laços graças ao meu trabalho, em Annecy me encontrei entre pessoas que não faziam a menor questão de estabelecer o mínimo de interação. Redescobri minha companhia, adotando longas caminhadas às margens do lago, muitas idas ao cinema, um bom conhecimento dos cafés da região e até mesmo uma peculiar habilidade para me exercitar nos 18m² da minha kitnet. Todavia não gerenciei bem minha tentativa de manter uma boa rotina de atividades físicas usando aplicativos, mas isso é assunto para outro texto.

Por sinal resolvi dar uma nova chance a um desses aplicativos, fiz uma série de exercícios hoje cedo sem grandes dificuldades. Ontem saí de bicicleta pela primeira vez desde a mudança e fiquei orgulhosa desta conquista. É um grande passo para quem não é a melhor das ciclistas e que, para piorar, sente muito medo de pedalar na cidade. Confesso que o fato da cidade estar vazia me motivou. Em certa medida não deixa de ser uma boa saída: você passa menos tempo exposto fora de casa e ainda resolve o que precisa resolver mais rápido.

Meu companheiro precisou sair de casa para recuperar seu material de trabalho e poder fazer home-office, então digamos que ele ainda não começou a trabalhar verdadeiramente de casa. Mas tudo está no jeito. Tivemos uma tentativa frustrada de participar da nossa aula de holandês usando Skype. Junte conexão e som ruim e a uma língua complexa e de sons guturais e você terá a receita perfeita para um cenário de caos. Aprender holandês – ou melhor, tentar aprender – tem sido pior do que “ser obrigado” a ficar fechado dentro de casa.

Há pior nessa vida. Fechamos nosso primeiro dia de “quarentena” com Downsizing, um filme horrível de Alexander Payne. Simbólico o suficiente para nos lembrar que há coisas muito piores do que ser obrigado a ficar dentro de casa: a existência deste filme é prova disso.

Desacelerar

a7c147642d1fd115bbb6b30ee2a4ff8e

Entra ano, sai ano, e sigo no processo inconsciente de me pilhar cada vez mais. Aquela mania de arranjar mil compromissos, sentir culpa ao recusar convites, e terminar reclamando da falta de tempo. Muito bonito ser responsável pela própria desgraça, não é mesmo? Culpei São Paulo por muito tempo pois se enganar é outra arte que domino com muita habilidade. O nome disso é simples: vida adulta. Às vezes releio uns textos antigos do meu outro blog e penso naquela inocência de não ter noção do que me esperava no pós-20 anos. O mecanismo parecia tão simples em teoria: terminar a faculdade, arranjar um trabalho ou continuar onde já estava, sair vez outra e pagar as contas. Mais ou menos como comprar passagens aéreas sem pensar em hotel e no dinheiro a ser gasto no destino.

Desconstruí o mecanismo dentro das minhas possibilidades e descobri o quão difícil é parar e respirar quando nos jogamos no meio do furacão. É como se até nosso corpo relutasse em aceitar que por vezes é preciso desacelerar. Ele teima muito e quando aceita e entende o quão problemático pode ser para você, se manifesta. Assim nascem a gastrite, a enxaqueca, ou qualquer outro tipo de mal-estar físico. Teu corpo te força a dar um tempo. Comigo aconteceu na forma de um joelho com diagnóstico de condromalacia patelar, mas já perdi a conta de quantas vezes tive crises pesadas de gastrite e rinite ao ser confrontada por problemas cotidianos. Foi importante dedicar meu tempo ao autoconhecimento porque hoje consigo pegar muitos desses sintomas antes de se manifestarem.

Quando entramos na vida adulta, muita coisa foge do nosso controle. Uma recomendação que sempre faço às amigas à beira de um ataque de nervos como eu é tirar um tempo para refletir e, se possível, pegar um papel e anotar todas as coisas que estão te incomodando no momento. Analise uma a uma. Escrever ajuda a observar com mais clareza. Você vai notar que muita coisa da lista pode ser resolvida com medidas simples – e dá até pra montar um cronograma em cima disso, colocando os itens mais “resolvíveis” no topo e deixando coisas a longo prazo para o fim da lista. Às coisas mais impossíveis, cabe refletir sobre alternativas para lidar com cada uma.

E claro, essa é a parte do choque de realidade. Pensamos em alternativas e as mais viáveis nem sempre são as que gostaríamos. Parte do processo de autoconhecimento consiste, aliás, em entender quais são os seus limites e respeitá-los.

Eu, por exemplo, me encontrei na escrita. Nada elaborado e com o intuito de ser publicado. De costume pego a agenda e escrevo uma frase mesmo, simples, curta e direta. Colocar no papel é como transferir um sentimento do corpo para outra instância. Na minha cabeça isso traz um pouco de conforto ao momento, mesmo que seja uma coisa rápida. Tem gente que vai colorir, correr, pintar, desenhar. Comigo funciona escrevendo.

Este primeiro post de 2017 é um convite às velocidades reduzidas, ao “dar tempo ao tempo”, respeitar o nosso ritmo – que nunca vai se adequar ao considerado certo pelos outros. Permitir-se parar antes que o corpo resolva pedir bandeira branca.