Corona Diaries #12 – Experimentando olhares, reinventando saídas

De Edward Hopper

Como transformar o ordinário de dias tão similares em algo extraordinário? Gradualmente o movimento volta ao normal. Ou novo normal, para quem é deste time. Os bares, cafés e restaurantes agora podem acolher o público sem exigir reserva prévia, tanto no terraço quanto do lado de dentro. Os cinemas e museus abriram as portas, espero sujar o novo par de Vans em veludo verde em algum momento desta semana. Ainda tenho percepções desconfortáveis dos arredores. 

Um pouco como animais que se camuflam para se proteger de predadores e deixam só as pálpebras se moverem em ritmo lento, discreto. Um olhar aterrorizado e todavia atento, à espera de algum sinal que passe segurança para dar um passo adiante.

Faço meus desbravamentos de pouco em pouco acanhada, e noto o quanto meus devaneios já não se vestem da mesma forma. Eles perderam o traquejo social, desacostumaram a xeretar a vida alheia e perder horas configurando insanos cenários. Uma hora há de voltar, os músculos foram postos a jogo e apesar da preguiça e do mau jeito vão reaprender a se mover sem tantas amarras.

Ficar enclausurada me fez abrir os olhos para o lado de dentro e criar outro entendimento da base. As incursões ao mundo exterior também foram capturadas, cada uma à sua maneira, para serem degustadas aos poucos no conforto do meu endereço. Hoje mesmo, enquanto girava a maçaneta da porta ao voltar do supermercado, percebi a borracha da campainha desgastada e questionei quantas vezes ela foi pressionada, com que urgência, se foi por carta ou por visita. 

Desde a mudança, virou um portal de inúmeras encomendas, diversos mimos para deixar tudo com nosso toque, e umas tantas inutilidades, pois nossas fugas também ocupam o espaço de um carrinho virtual. Com muita alegria, por conseguinte, me alegrei ao ouvir a caixa de cartas devorar o envelope cujo remetente era Prefeitura – meu convite formal para tomar vacina contra COVID-19. 

Fico tal qual Matilde Campilho escreveu um dia, metade folia, metade desespero. Saber o quanto minha vez na fila estava próxima foi fonte da mais gostosa euforia. E no entanto me atropelo em angústias e despreparo, poisme parece uma possibilidade remota pensar num futuro próximo e esboçar quaisquer planos concretos.

Até lá, vou ceder mais brechas ao meu eu expectador. Deixar ver, montar quebra-cabeças e fazer misturas de dar orgulho a qualquer surrealista. 

Permitir ao mundo que venha até mim. Recuso-me a ir em sua direção, a engajar riscos. 

De mim não parte. Quero sentir como vai se achegar, de que forma vamos combinar nossos passos de dança contemporânea para dar tom extraordinário ao já nem tão ordinário assim.

No meio da viagem no tempo tinha um coelho esquisito

Passei anos resistindo ao ato de rever filmes, tudo por pura preguiça. Nada de novo sob o sol, como diria Caetano Veloso. Até juntar meus trapinhos com uma pessoa que adora rever seus filmes prediletos E ficar presa em uma pandemia eterna algum tempo mais tarde. De tanto repetir os dias me apeteceu a ideia de revisitar algumas joias da minha adolescência e olha só, quem diria, tenho achado a experiência maravilhosa. Alguns destes títulos ainda tenho em DVD, perdidos em alguma caixa na casa dos meus pais, mas como eles seguem a um oceano de distância me viro como posso com os serviços de streaming. Uma tarefa por vezes hercúlea. Um lado meu quer muito dar uma chance às novas produções, outro prefere o conforto de revisitar lugares conhecidos.

Sendo deveras sincera, dá para sentir que a prioridade do momento é financiar um monte de filmes sem alma. Neste caso fica mais fácil partir para uma obra que já assisti algumas vezes, ou que foi lançada há bastante tempo e ainda não tive ocasião de assistir. Quiçá o problema more em mim, e meu brilho nos olhos se dissipou de tanto ler notícias, minando também minha capacidade de me envolver o suficiente com obras ficcionais inéditas.

Tive também uma influência externa: o podcast Segunda Mão, de Jessica Correa e Thiago Guimarães. Me enchi de doses de nostalgia enquanto eles papeavam sobre alguns clássicos dos anos 2000, até chegar no episódio sobre Donnie Darko (2001, direção de Richard Kelly), que me arrebatou sem dó nem piedade.

Não me sinto apta a dizer do que se trata sem dar spoilers. Isso me levou a questionar o que seria um spoiler de Donnie Darko e se existe uma explicação lógica para o filme. Há muito conteúdo interessante nos textos e vídeos que buscam explicar o final, mas quando uma história gira em torno de conceitos sobre viagem no tempo e tem uma pegada de ficção científica, seria um erro se ater tanto aos detalhes. Minha expectativa ao rever Donnie Darko era embarcar na brisa do filme e deixar espaço para criar umas teorias malucas na minha cabeça.

O longa foi lançado nos anos 2000, mas se passa nos anos 80. Tem uma ambientação meio cafona, típica do período, e uma trilha sonora isenta de defeitos. Nasci em 91, então não posso dizer que vivi e tenho lembranças da década de 1980. Mas vi muitos filmes e videoclipes deste período e posso dizer que Donnie não deixa a desejar e passa muito bem como uma história que poderia ter acontecido naquele período. Até os cortes de cabelo e penteados reforçam o cenário! A sequência de abertura ao som de The Killing Moon me deixou arrepiada. Nos primeiros minutos do longa já deu para sentir que aquela seria a minha viagem no tempo, com destino final a minha pré-adolescência.

O protagonista, que dá nome ao filme, toma remédios e faz acompanhamento com uma psicóloga. Não sabemos exatamente o que ele tem, embora haja uma leve menção a uma possível esquizofrenia. Ele possui uma aura melancólica, mas é um jovem desbocado. Dando um pouco mais de contexto, ele ainda está na escola. Aquele típico cenário de high schools americanas, onde meninos e meninas tidos como esquisitos sofrem bullying e os rapazes ‘descolados’ (estou usando gírias de velhos propositalmente) se sentem os donos do pedaço (eu avisei). Os docentes parecem advir de meios conservadores, e reproduzem isso no comportamento escolar. Donnie está cagando para todos eles, e rebate adultos e adolescentes quando o convém.

Conforme a história progride, fica evidente o quanto todo mundo está, de alguma forma, perdido ou angustiado. Durante diversas passagens senti vontade de dar um abraço ou um chacoalhão em alguns personagens, esquecendo até de me questionar sobre o que raios este cara fantasiado de coelho pretende fazer. Sentir a melancolia destes seres perdidos bateu com força a ponto de não me parecer relevante questionar se o coelho era real ou uma mera projeção da cabeça afetada de Donnie. A tal velha maluca, por sinal, me deixou com o coração apertado na cena em que ela se aproxima de Donnie e anunciar que todo ser vivo neste planeta morre sozinho. Coloquei a tradução em itálico porque o print está com legenda em holandês, eu sei, faço uns esforços doidos nesta vida às vezes (mas isso é assunto para outro post).

Enquanto adolescente, devo ter falado sobre a genialidade deste filme a todos que me perguntassem, ou o quanto me impressionei com a forma como o conceito de viagem no tempo aparece tão carregado de melancolia. Revendo agora, aos 30, quase não abri os olhos para o aspecto e ficção científica do negócio. Acabei o longa triste e abatida. Por mais esquisito que Donnie seja, me apeguei e sofri junto. Por mais debochado e nem aí que ele aparente ser, ele sente demais o quanto o mundo o afeta, e reforça o quanto a transição da adolescência para a vida adulta pode doer. Dói tanto que talvez valha o sacrifício de dar fim à própria vida para não precisar ultrapassar esta passagem até o ponto final.

Donnie ainda consegue expressar muito do que lhe congestiona o peito, enquanto acompanhamos os adultos engolindo o seco e silenciando, muitas vezes, o que poderiam expressar para dar fim a diversos pequenos problemas. Dentro do núcleo adulto dá para sentir o quanto pequenos conflitos internos não resolvidos se acumulam a ponto de te deixar sem alternativas além de dar um grito alto que talvez não resolva o problema, mas ajuda a aliviar todas aquelas dores internas. Drew Barrymore, maravilhosa, eu gritei junto com você nesta sequência:

Depois de ficar em frangalhos com minha experiência Donnie Darko, precisava de um pouco de sol. Por algum motivo obscuro essa história de viajar no tempo sem um mega fundo científico me levou a De Repente 30 (2004, de Gary Winick).

Vamos voltar aos meus primeiros anos de adolescência. Até meus 13 anos assistia filmes por diversão. Tinha minhas preferências, é claro, só o dono da única locadora de Cassilândia sabe a quantidade de fitas VHS com musicais da Disney que devolvi prontamente rebobinadas. Entretanto na transição dos 13 aos 14 já morava na capital, onde o acesso a cultura era maior e passei a encarar o cinema com outros olhos. Na época, passei tardes inteiras trocando ideais e referências com os atendentes da finada MB locadora. Era bom demais estudar só pela manhã e ter tempo livre de sobra, inclusive saudades.

Graças a eles assisti a uma caralhada de filmes, digamos, conceituais. Era uma fase de descoberta, talvez tenha visto muita coisa que na época me pareceu cabeçuda demais e não entendi nada (oi, Lynch). Porém descobri o trabalho de diversos diretores que encontraram um lugar especial no meu coração e desde então não deixei de acompanhá-los. Foi uma fase importante, é fato. E se Donnie Darko entrou no hall de preciosidades cinematográficas, De Repente 30 cairia por terra nos meus critérios. Mas me encontrava em transição, e minha personalidade ainda confusa deixava passar muitos filmes considerados toscos pelos intelectuais. Coincidentemente, o longa foi lançado quando eu também tinha 13 anos como a protagonista, Jenna, e me achava madura demais para a minha idade. Passava horas confabulando sobre o meu futuro brilhante como escritora, mentalizando thirty, flirty, and thriving com a mesma veemência de Jenna.

Tantos anos mais tarde com 30 anos recém-completos, estou bem longe de qualquer prosperidade, e embora tenha encontrado um rapaz muito especial e esteja comprometida, se houve algo que quase não fiz ao longo destas três décadas de existência foi flertar. Quiçá por não ter passado nem perto desta glória pela qual Jenna tanto aspirava, me pareceu simbólico pegar o filme para rever agora, nesta última curva antes dos 30.

Ouso dizer: De repente 30 é uma explosão de amorzinho e felicidade se colocado ao lado de Donnie Darko. Porém Jenna precisa passar por um purgatório semelhante ao de Donnie durante o colégio. No alto dos meus vinte e tantos, agora consigo olhar e achar ridículo esse esforço débil que muitas pessoas como eu empreendiam para fazer parte de algo com o qual, na maior parte do tempo, tampouco nos identificávamos. Algo em minha mente dizia que se eu me desse bem e, com alguma sorte, se fizesse parte do grupo das meninas populares, ganharia uma proteção automática anti-julgamentos, ignorando por completo o fato de que eu não tinha cacife para arcar com a realidade daquelas moças. Era branca desbotada feito um palmito como elas, um senhor privilégio, porém não tinha cabelos lisos, era rechonchuda, não gostava de fazer as unhas, andava com roupas largadas (uma taurina apaixonada pelo conforto desde os primórdios) e não me sentia nada pronta para FLERTAR. Preferia esconder meu rosto atrás de um livro a encarar todos os possíveis julgamentos e testes sociais que me seriam colocados a prova.

Jenna também queria ser popular e aceita e achava um rapaz bonito só porque enfiaram em sua cabeça que ele era charmoso. Por não alcançar este patamar e de tanto se esforçar sem sucesso algum, seu escape passa a ser este sonho de ser adulta. Com 30 anos, sedutora e próspera. Tudo isso para viajar no tempo, desembarcar nos 30 e perceber o quanto as nuvens carregadas de tempestade encontram seu caminho dos 13 aos 30 sem muito esforço. Os tão sonhados 30 anos carregam suas dores e nem tudo são flores como a inocente mente imaginativa de Jenna esperava.


Impossível ignorar o fator comédia romântica da trama. Ela gira em torno da ideia de valorizar os pormenores de cada etapa das nossas vidas, de não tentar acelerar os processos e nunca fechar os olhos para quem te demonstra afeto em detrimento a um mero desejo de validação social. O final é feliz e ensolarado, diferente de Donnie Darko, mas esses tapas na cara da vida adulta doeram com mais força agora que me vejo na outra extremidade do título do filme. 

Ser adulto significa assumir uma porrada de responsabilidades, quando lá no fundo nós só queríamos sentar num cantinho e pedir para alguém resolver as coisas por nós. E este foi de longe o fator que mais mexeu comigo ao rever o filme. Embora não viaje no tempo, às vezes tenho a sensação de ter dormido com treze anos e acordado no meu corpo com trinta. Tudo isso pois em diversas ocasiões me senti uma impostora ao tentar agir como uma adulta, como se nunca tivesse estado pronta de verdade para encarar este papel. Sabe quando você assina um documento importante ou assume um novo cargo na empresa? E bate aquela sensação de “como é que fui parar aqui, eu só tenho 13 anos”? Pois então.

Sempre me emociono ao ouvir Vienna, de Billy Joel, e sem nenhuma surpresa chorei copiosamente com a sequência do filme, da qual já nem me lembrava mais. Slow down you crazy child, you’re so ambitious for a juvenile. But then if you’re so smart tell me, why are you still so afraid? A letra inteira é aquele chacoalhão delicado que nos faz mandar o pé no freio e repensar esse ritmo frenético no qual nos colocamos, em uma tentativa por vezes difícil demais de deixar certos processos se darem no seu tempo.

Com trinta anos recém-completos enfim tomei consciência deste fato, e minha meta é colocá-lo em prático. Afinal, é normal sentir medo de tomar decisões importantes e fazer as coisas por nossa própria conta. Posso dizer por experiência própria: mesmo quando era uma pessoa fitness, era difícil levantar peso sem técnica, sozinha. Completar um número x de repetições sem fazer careta? Impossível. Dói mesmo, e carregar estes pesos da vida adulta é natural. Só não pode se transformar em um freio que nos impede de avançar.

Meu reencontro com Jenna e Donnie foi um lembrete sobre a importância de respeitar – e muitas vezes desacelerar – o processo. E dar mais espaço às emoções. Pois sentir é um negócio ridículo mesmo, e a gente precisa se expor a esses papelões para conseguir se ouvir melhor. Conquistar nossos jovens interiores, fazer as pazes para criar uma estrutura resistente, forte, que usa a própria vulnerabilidade para crescer e nos tornarmos adultos funcionais (e não muito perturbados, diga-se de passagem).  

teia de aranha

Me intriga encontrar pedaços de teia de aranha no meio da parede. Como foram parar ali? Antes de aspirar me aproximo, tento olhar de perto e ver se há ligação com o solo de alguma forma ou se vem de cima. A luz amarelada me confunde, parece me mostrar a origem da teia no ponto onde as duas paredes se encontram. Mas é falso. Deve ter rolado do teto e pregado a poucos centímetros do chão, ou foi minuciosamente tecido para existir como ponto solto mesmo. Se antes morria de pavor de aranhas, agora aprendo a conviver com as espécies de apartamento, daquelas quase invisíveis e meio sorrateiras. Que amam espalhar suas teias em cada canto da casa, dessas que a gente pensa dominar e conseguir eliminar com alguma frequência e, indo na contramão do nosso desejo de organização e limpeza, seguem tomando conta e te lembrando do quão impossível é manter uma casa nos trinques.

Casas e apartamentos no térreo favorecem a proliferação de aracnídeos? Me pego às voltas com essa questão em mente pois não me lembro de ter visto uma aranha sequer no apartamento antigo, que ficava no segundo andar. Ou seria uma coisa do bairro? Fiz inúmeras mudanças ao longo dos anos, mas na maior parte do tempo foi de uma cidade para outra. Curioso observar o quanto o ‘bioma’ da casa muda tanto de um bairro para outro, com pouco menos de 2km de distância entre si.

A sensação térmica lá fora é de -5 e minha vontade é de passar alguns minutos com as mãos dentro de uma bacia com água escaldante. Sinto muito frio na ponta dos dedos e crio vontades pouco condizentes com a minha rotina, que me mantém isolada em casa e quase não me força a sair. A pele do meu rosto aos poucos se esquece da textura de uma base líquida e de um corretivo, e cada vez mais abro mão de me adornar com acessórios. Em um desses impulsos para relembrar o ato de se enfeitar tentei colocar um anel ajustável só para testar e notei meus dedos mais grossos. De tanto trajar moletom mal percebi quando meu corpo considerou por bem expandir seus horizontes. A pele foi encontrando seu jeito de existir dentro dessas novas condições, esticando cada vez mais e acomodando cada parcela de angústia em proporções físicas. Assim como as teias de aranha, preciso de tempo para aceitar transformações que tanto me impactam visualmente.

Na minha cabeça danço Ingenue, de Atoms for Peace, do jeito mais desajeitado possível. Movimento antes repetido com frequência no chão da sala do meu antigo apartamento de São Paulo. Colocava o clipe na tevê e ficava me movimentando livremente de um canto ao outro, sem nenhuma consciência do desenrolar dos meus gestos. O ritmo da cidade me cansava, este dançar desordenado era meu escape. Devo ter recusado inúmeros convites para sair só para ficar ali comigo mesma. Sem energia para colocar o nariz pra fora de casa e me expor a 30 variações de pânico, mas com disposição suficiente para me levantar do sofá e conduzir meu próprio anti-espetáculo. Quantas vezes honrei cada minuto de descanso enfiada dentro daqueles 50 m2 sem ter a menor ideia de que dali alguns anos isso se tornaria uma obrigação.

Pego meu Kindle e me acomodo no sofá de um apartamento bem maior do que aquele de São Paulo, um canto que apesar de estar repleto de confortos, não me inspira a dançar desajeitada pelos cantos. Tenho perdido tempo demais com as teias de aranha. Tento me conectar com algum vestígio do meu eu do passado, em uma busca incansável por força de vontade e meios para evitar sufocamento em condições adversas.

Atravesso os dias sem graciosidade alguma. Desordenada tanto quanto minha coreografia de Ingenue. Rabiscando folhas de papel dia após dia enquanto me pergunto se um dia vou deixar de notar e me incomodar com as teias de aranha.

A brisa do ano que (não) foi

Sem nenhuma surpresa vi as festas de fim de ano chegarem ausentes de qualquer empolgação durante os últimos suspiros de 2020. Estou longe de ser a pessoa mais cheia de expectativas com celebrações de Natal e ano novo, mas confesso que me abalou a inexistência de qualquer clima de renovação por essas bandas. E veja bem, questionei algumas tantas vezes, comemorar o que em um ano onde nada aconteceu? Ok, aconteceram coisas, a vida não ficou em suspenso durante os meses de pandemia, mas foi preciso lidar com diversas formas de adaptação e repensar nossa forma de reagir a tudo. Embora tenha parecido lento e desencadeado crises pessoais monstruosas, não vi o tempo passar. Pisquei e estávamos em dezembro, mês mais movimentado do meu humilde vinteevinte. Experimentei a sensação de que absolutamente todas as coisas possíveis acharam por bem dar as caras no mês 12, como se fosse socialmente aceito adiar os planos ao longo de meses e aparecer sem nem marcar horário com antecedência. Fui pega de surpresa e pensei que o surto viria, mas no fim das contas foi excelente ter uma oportunidade de ouro para fechar meus olhos e não precisar balancear as perdas e ganhos de 2020 no momento em que esperam que a gente o faça.

No fim de 2019 uma amiga fez uma sequência de stories falando sobre o YearCompass, uma espécie de guia que te ajuda a envelopar o ano que passou e preparar o que está para começar. Fiz o meu cheio de esperanças e sem ter uma mínima ideia da pandemia que nos observava de espreita perto dali. Foi curioso repassar por ele na hora de fazer a versão deste ano. Como perdi o clima de festividades, tomei igualmente meu tempo para planejar 2021 usando o YearCompass. Não sou tilêlê good vibes only e longe de mim fazer um textão falando sobre o quão enriquecedor foi passar por uma pandemia, mas tampouco sou ingrata. Repassei os últimos meses com um sorriso no canto do rosto ao pensar que, no fim das contas, coisas muito boas aconteceram APESAR da pandemia. As coisas ruins serviram de referência e lição, porém estou feliz em saber que agora elas representam capítulos encerrados e engavetados.

Antes do confinamento até tive a possibilidade de viajar algumas vezes e ver alguns shows! As restrições serviram de deixa para conhecer outras cidades nas imediações, o famoso “turistar sem sair de casa”. Passei mais tempo com meu parceiro, melhoramos nossas habilidades na cozinha, comecei a aprender holandês e perdi meu medo de andar de bicicleta. Os primeiros meses de pandemia esvaziaram as ruas de Haia, ocasião perfeita para as minhas poucas excursões para fora de casa fossem feitas de bike. Perdi o medo a tal ponto que já fui e voltei de outras cidades só de bicicleta. Foi uma significativa conquista pessoal.

Das minhas tradições de outros tempos, mantive apenas o apetite musical. Além de acompanhar meus artistas favoritos gosto de conhecer sons novos – o Descobertas da Semana do Spotify é meu melhor amigo – e se teve algo que fiz ano passado foi ouvir música. Magdalene, de FKA twigs foi meu álbum o ano, mas ouvi Barefoot in the park, parceria de James Blake com Rosalía, mais vezes do que poderia ser considerado saudável. Vi um campo de possibilidades para o cinema e a literatura, mas com o início da pandemia desacelerei o ritmo até parar por completo. Busquei me organizar melhor para mudar este cenário em 2021, pois sinto falta de livros povoando meu cotidiano. O nível de saudade dos filmes é o mesmo, porém já faz uns bons cinco anos que me desorganizado e nunca tiro um tempo para assistir algo em casa com a frequência que gostaria. A verdade é que ando com muita saudade de ir ao cinema. Tenho minha assinatura mensal e poderia ver até um filme por dia se quisesse, mas os cinemas seguem de portas fechadas por aqui. Um dos meus planos envolve, inclusive, aproveitar melhor este espaço para compartilhar o que tenho ouvido, lido e assistido.

Neste momento, quase um mês depois de começar um novo emprego, algumas das dores colocadas em evidência ao longo da pandemia seguem pungentes. É difícil, contudo, admitir. Conquistar confiança em si é algo que toma seu tempo e soa lento demais. É como caminhar com o diabo e o anjo dos grandes clichês, um em cada ombro, com um lado que te lembra do quanto você é batalhadora e forte, e com o outro te dizendo para baixar a bola porque você não é esse cabernet sauvignon todo (sim, eu usei vinho no lugar da coca pois odeio coca-cola). Meus contratempos são um nada perto das dores de quem foi muito impactado pela pandemia. Mas isso não é uma competição e não conseguiria fechar meus olhos para meus incômodos nascidos ou incitados pelo confinamento.

Por outro lado, tenho tentado pegar na minha mão e repetir todas as minhas vitórias – mesmo aquelas de antes da pandemia. Saí do interior e soube achar meu rumo em São Paulo, trabalhei com muita coisa legal, fiz um mestrado em outra língua, mudei de país duas vezes, tudo isso estando cada vez mais longe fisicamente de pessoas que não sei quando poderei ver outra vez. Tenho em mim muita força, embora sempre acabe fechando os olhos para ela nos momentos mais desafiadores. Depois de um período considerável sem traçar metas para o ano seguinte, quero arriscar um salto mais alto. Sei o quanto é característico se encher de esperanças e bolar mil planos a cada janeiro, mas ainda é uma boa deixa para botar a mão na massa e enfim me mover para tirar algumas ideias do papel. Deixo público para voltar aqui quantas vezes por necessário para ter algum alento quando der vontade de desistir.

De pouco em pouco quero me desligar de vez de opiniões alheias, parar de pesar e questionar tanto meu discurso antes de dar corpo ao que está aqui dentro, e dar total liberdade ao meu sentir. Deixar as coisas saírem e saber encontrar o caminho de volta para mim quando for hora para isso.

Corona Diaries #11

A arte é de Brit K Caley e você pode encomendar um print dela aqui.


A neblina me roubou toda a inspiração e está pronta a tomar conta de tudo nesta manhã. Do meu terraço é como se o New Babylon nem existisse. Uma parte dos prédios que consigo avistar do janelão de casa também sumiu de vista. O inverno começa oficialmente na última metade de dezembro, mas o fim de novembro já anuncia o que nos aguarda para a nova estação. A diferença de duas semanas para cá é significativa. Vez ou outra saio para caminhar (às vezes corro) pouco depois de acordar e minhas roupas tem parecido leves demais para aguentar a garoa fina dessas manhãs que despertam cada vez mais preguiçosas. Vai começar a temporada dos prints de temperaturas negativas ou bem próximas de zero. Cresci em um lugar quente demais para não me impressionar e printar temperaturas que eu jamais sentiria na pele caso tivesse continuado por lá. Muita gente faz igual, é aquela coisa: a gente pega o tal título de expatriado e depois de anos corridos ainda nos impressionamos com coisas ditas banais.

As temperaturas caem e o sol também não está muito aí para os mortais. Por volta das 17h o céu já está tomado pela escuridão. O boato da depressão invernal é real. A ausência de sol deprime e nos deixa enlouquecidos com qualquer oferta de dias sem nuvens carregadas no céu. No último sábado pedalamos até Scheveningen, o bairro da praia principal de Haia, que também abriga um parque enorme cheio de dunas. Queríamos buscar um pouco de vitamina D naquela tarde ensolarada. Não vou afirmar que foi o suficiente, pois estava frio demais para perdermos a noção do tempo caminhando. Mas foi um passeio gostoso, deu até para tirar o pó das nossas câmeras analógicas e nos encheu de esperança por dias menos chuvosos. Sonhamos pouco, pois a semana já começou virada no jiraia com pancadas de chuva.

(Eu disse, o dia estava lindo)

Do último Corona Diaries, datado do início de julho, pra cá, muita água rolou. Os holandeses caíram nos encantos do verão e fecharam os olhos para o vírus. Como se o Covid tivesse tirado férias. O número de infectados voltou a subir em meados de setembro e o governo precisou fazer alguma coisa. Tudo foi fechando aos poucos. No momento os restaurantes e bares estão fechados e temos um punhado de restrições a seguir como em outros tantos lugares do globo. Nós encaixamos uma mudança de apartamento neste segundo lockdown, e cá estamos vivendo as dores e delícias de buscar e comprar móveis e ver nossa morada atual ser tomada por caixas. Entre atos Nico e eu saímos no meio da tarde para andar um pouquinho quando a chuva da trégua. Durante uma de nossas caminhadas descobrimos a Free Beer Co., uma portinha entre a Prinsestraat e a Molenstraat onde dois canadenses bons de papo vendem cervejas.

Eles propõem um serviço de assinatura muito bem quisto sobretudo por quem aumentou o consumo de bebidas alcólicas nesta pandemia. Você paga 10 euros para entrar no clube do garrafão de 2 litros e 7 euros para o clube de 1 litro. Feito isso, você pode repor o conteúdo pagando 10 euros por litro. A ideia é motivar os assinantes a descobrirem diferentes tipos de cerveja a cada semana. Eles possuem três torneiras que são trocadas religiosamente uma vez por semana. Um valor honesto para se embebedar com essa curadoria maravilhosa de brejas. Para completar a dupla é ótima de vendas, então eles sempre acabam nos empurrando uma ou outra cerveja extra – pois sim, eles possuem uma seleção à parte de cervejas em lata e garrafa. A parte boa é que eles já eram uma loja “à prova de corona” – com o perdão do trocadilho barato com a marca de cerveja – visto que o local é fechado e o único contato que os clientes possuem é pelo balcão. No fundo da minha nostalgia ele me lembrou o The little coffee shop, lá no bairro de Pinheiros, em São Paulo, que também funciona neste esquema de ter apenas um balcão para servir quem está passando pela esquina da Rua Lisboa com a Artur de Azevedo. Deu saudade de quando trabalhava na mesma quadra do café e podia compartilhar um espresso ou um coado com as minhas amigas de trabalho depois do almoço. A pandemia e o desemprego mexem tanto com o meu emocional que já me peguei chorando ao me lembrar de quanta coisa legal vivi durante meus últimos meses empregada no Brasil.

Agora me encontro aqui, ainda transbordando desesperança, e fechando uma mala com minhas roupas de verão. É curioso esse processo de fechar ciclos e a forma como reagimos a ele. Cheguei em Haia no segundo dia de Dezembro de 2019 e agora, um ano depois, faço as malas outra vez rumo a um novo capítulo da minha vida na Holanda. Por vezes pergunto se minha existência por aqui começou de verdade ou se segue no limbo. Quando se dá o processo de criar raízes em um lugar? A partir de quando sentimos segurança para chamar um lugar de lar? A pandemia colocou todos os processo clássicos de adaptação em suspenso. Vivo um paradoxo constante onde oscilo entre a sensação de que acumulei diversas vivências ao longo do ano e a impressão de que nada aconteceu. Depois de passar 2020 flutuando em tantos nadas, resolvi tirar um tempo para transformar minha jornada de auto-conhecimento em um projeto. O tal emprego de project manager não aparece, então tenho visto o que posso fazer para dar criar este trabalho em um nível pessoal.

Visto que preciso esvaziar os armários e gavetas para encaixotar o que levarei para a casa nova, resolvi fazer uma triagem e rever alguns projetos pessoais. Poderia ter feito isso antes, eu sei, mas minha ambição esqueceu de fazer o plano de emergência para um ano inteiro sem emprego. Mas bem como diz o poeta, o tarde demais não existe. E se teve algo que a pandemia fez por mim foi me empurrar para dentro e me ajudar a encontrar pistas valiosas sobre o caminho para sair mais forte depois de um longo período de embate pessoal. Não sei você, mas eu estou bem curiosa para conhecer os caminhos que 2021 pretende me apresentar.

Um brinde aos meus três anos de Europa (ou quase isso)

Arte por Isabelle

Sabe aquela sequência clichê das séries onde a protagonista acorda cheia de energia, toma um banho super empolgada, se arruma, veste sua roupa favorita, e justo no momento em que sai de casa uma pomba passa e caga na cabeça dela? É uma metáfora perfeita da mudança para o exterior. Quando chegou a minha vez, me senti a mestre do planejamento depois de organizar cada detalhe e partir com o coração aberto à essas novas oportunidades oferecidas pela vida em outro país. Mas ele me recepcionou defecando na minha cara. Como boa mulher brasileira forte e que não se abala com pouca coisa, eu primeiro xinguei um sonoro desgraça, limpei a sujeira e comecei outra vez. Acontece que fui pra França, e a população de pombas é enorme e forte por lá. Tomei muita bosta na testa. Comecei a me irritar com esta ação repetitiva e levei um bom tempo até aprender a contorná-la e a não me deixar afetar. Quando me senti com o mínimo de controle da situação, certa de que estava pronta a enfrentar situações semelhantes em qualquer lugar do mundo, juntei minhas malas e fui arranjar um jeito de chamar a Holanda de casa.

E aqui quem caga na minha cabeça são as gaivotas.

É um lugar comum entre muitos brasileiros que partem ao estrangeiro: nós gostamos de fazer um texto comemorativo para celebrar mais um ano de sobrevivência longe do Brasil. Chamo de ‘sobrevivência’ pois é vitorioso e precisamos nos parabenizar por nos vermos cada vez mais fortes longe de tudo que nos é tão familiar. Faço parte deste grupo e amo o exercício de fazer uma espécie de retrospectiva do ano que passou. Reviver as memórias é como assistir a um filme e me faz bem rever as cenas dos bons momentos e lembrar que as etapas difíceis passaram e superei todas elas. É algo que gosto de fazer também a cada aniversário, mas a perspectiva aqui é um tanto diferente. Me atenho a como atravessei cada etapa do existir enquanto estrangeira em um país que não é o meu de origem. Segui na França ao me despedir de Montbéliard e ir morar em Annecy, e com isso comemorei dois anos no País dos Croissants no dia 29 de agosto de 2019. Agora preciso ajustar minha narrativa e ainda não decidi se comemorarei meu aniversário de X Anos na Europa ou X Anos Que Deixei o Brasil. Aceito sugestões. Cheguei na Holanda em dezembro do ano passado, e com isso meu terceiro ano fora do Brasil foi celebrado em território laranja. O mesmo 29 de agosto, um mês atrás, veio sem nenhuma inspiração para fazer minha crônica de mais uma ano morando no estrangeiro.

Queria um registro de qualquer forma pois é difícil deixar algo de tamanha importância para mim passar em branco. Tentei pensar em diversas formas de começar este texto e me peguei travada, sem saber qual caminho percorrer. Ainda é difícil falar sobre assuntos tão delicados, dar nome aos incômodos e assumir coisas das quais não me orgulho. Tinha muito a contar ao completar dois anos de França, tenho pouco a dizer sobre meu quase um ano de Holanda. Pode-se dizer que não houve tempo para viver a realidade deste novo país que só sei chamar de lar de um jeito meio torto.

Antes de termos a imposição do isolamento social em um contexto de pandemia, ainda nos meus primeiros seis meses de França entre 2017 e 2018, senti o quanto manter contato à distância é complicado, seja porque as pessoas gerenciam mal a ausência física, seja pelo fuso horário que nem sempre ajuda. Foi preciso velar algumas amizades. E embora tenha doído tentei me colocar no lugar destas pessoas algumas vezes. Estou longe de me encaixar nisto que as pessoas definem como mulherão da porra, não sou um exemplo a ser seguido. Levo uma vida simples e sou ordinária até demais. Mas sei também o quanto é fácil associar o “morar no exterior” a uma vida perfeita. E algumas pessoas sentem raiva ao ver as outras indo viver essa tal vida perfeita no estrangeiro. Porque sair do Brasil parece uma solução mágica. Ainda mais se você vai para um país de primeiro mundo. É mais seguro, de fato. Mas existe essa ideia de que tudo é mais cômodo nestes países: a comida é mais barata, a cultura é acessível a todos, o transporte público funciona. A lista é longa. Para muita gente essas mil vantagens são suficientes para silenciar o fato de que você se muda sem conhecer ninguém, sem saber muito bem as regras do local e longe da sua família. Em tempos de superexposição nas redes sociais é ainda mais fácil cair nesta ilusão ao ver um feed cheio de fotos de lugares bonitos. Sustentar essa narrativa é tão cômodo quanto a reação de muitos estrangeiros quando me queixava de saudade: se estou tão infeliz, porque não volto para o meu país?

Apesar de toda carga negativa e de inúmeras cagações de regra, há luz no fim do túnel. Tanto na França quanto na Holanda fui bem amparada emocionalmente. Reforcei minhas ligações com muitas pessoas (à distância!), tive e tenho apoio dos meus pais e de amigos mais próximos. Sou grata por ter uma rede de apoio tão carinhosa e sinto uma falta absurda de tê-los todos fisicamente por perto. Neste sentido tenho tanta sorte que agora também posso contar com um parceiro que me dá suporte emocional e financeiro, um cara maravilhoso que está pronto a me ajudar independente do teor das minhas crises. Este deve ter sido um dos pontos altos do ano que passou. Ter o apoio dessas pessoas foi fundamental para não largar mão de tudo e correr de volta para o Brasil.

Posso afirmar que em termos de receptividade a Holanda é mais acolhedora que a França. Pode ser uma reação ao fato deles andarem de bicicleta o tempo inteiro, o que permite manter a produção de serotonina sempre ativa, mas eles parecem mais felizes e dispostos. É tudo bem organizado e as pessoas me parecem ter um bom equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Mas vivo de suposições desde a minha chegada. Cheguei no mês mais morto do ano, no auê das preparações para Natal e Ano Novo, um período onde ninguém está muito preocupado com trabalho (tampouco em contratar gente nova), faz um frio do caramba e chove muito e ninguém quer ficar na rua. As pessoas contam os segundos para tirar férias e curtir um jantar gostoso entre família. Já sabia que minha integração só começaria a acontecer em janeiro. Assim foi. Em um primeiro momento acabei convivendo com colegas de trabalho do meu parceiro e, em paralelo, me inscrevi no Meetup e comecei a procurar eventos relacionados aos temas que eu gosto. Porque eu estava rodeada de pessoas interessantes, mas queria sair um pouco do núcleo deles, que é bem internacional, e conhecer pessoas que chegaram aqui por outros meios e motivos. Existe também o detalhe de que cheguei sem saber uma palavra sequer de holandês (eu não sabia nem pronunciar o nome da cidade onde ia morar), e meu inglês, que ficou bem adormecido ao longo de dois anos na França, estava bem enferrujado. Colocar na minha cabeça que uma língua germânica não vai achar lugar fácil no meu cérebro tão habituado a línguas latinas é outro desafio, pois nem sempre consigo aceitar a lentidão do processo. Tudo isso para dizer que tardei a sentir o impacto tomando conta, porém uns tantos pequenos elementos viraram pedra no meu sapato e ficou cada vez mais difícil caminhar com alguma destreza. Nos meus primeiros meses na Holanda não imaginei que seria tão difícil conseguir um trabalho.

Antes de sair do Brasil tinha dificuldades em entender o que levava meus amigos brasileiros a aceitarem trabalhos que não tinham nada a ver com eles no exterior. Ou porque eles preferiam manter um trabalho no Brasil enquanto moravam em outro país, mesmo sabendo que a conversão das moedas não compensaria tanto assim. Na minha cabeça a conta não fechava, me perguntava se valeria mesmo a pena abrir mão de ter uma carreira ascendente no Brasil só pelo gosto de ter um salário mínimo em euros. Naquela época eu era total sem percepção da realidade e alimentei uma ilusão na qual eu conseguiria trilhar um caminho bacana e construir uma carreira brilhante em território estrangeiro, fosse na área de comunicação ou como gerente de projetos digitais.

Você se lembra dos pombos? Como mencionei acima, eles se transformaram em gaivota e fizeram questão de cagar em todas as minhas ilusões e expectativas. O tal emprego nunca veio, tampouco as reações positivas ao meu CV. Até rolaram algumas poucas entrevistas, que inclusive renderiam um post à parte dada a surrealidade dos fatos, mas pouco avançou ao longo destes últimos 10 (!!) meses. É muito frustrante estar sem ocupação em um país que você conhece mal, sentindo teu inglês enferrujado e apanhando para pronunciar decentemente algumas cinco frases em holandês. A exaustão psicológica se transformou em algo físico e a cada dia desperto mais nervosa e mais desesperada. Porque sou uma pessoa sem habilidade alguma para ter sossego. Queria usar este tempo livre para ver umas séries e fazer uns cursos online de graça. Mas me pego tomada de culpa em estar fazendo algo não relacionado a mandar um CV ou escrever uma carta de motivação.

Senti muita frustração em diversos momentos deste terceiro ano de Europa. Como se os dois anos anteriores tivessem sido desperdiçados com um investimento que não me ajudou em nada no presente. Ainda tenho muito a aprender sobre ser gentil comigo mesma ao longo deste processo de adaptação. Quando a angústia me dói mais que de costume, me esforço para respeitar também o momento que estamos vivendo. Todo mundo está em busca de um pouco de serenidade e de meios de se reinventar e existir no contexto de uma pandemia. Comigo não seria diferente.

É fato, ando capengando e ainda não descobri um método eficaz para fugir das gaivotas. Porém este terceiro ano me fez enxergar o quanto sou forte e fui longe sim. Interrompi minha trajetória profissional por um período, é verdade. Mas aprendi muito e me vi crescer mais resistente em lugares que nunca vão me acolher como o meu país de origem, sem ter ideia de quando poderei ver minha família e amigos mais próximos outra vez e abraçando um caminho cada vez mais incerto. Carrego esse sentimento com orgulho suficiente para balancear a perspectiva pessimista e não me deixar abalar pelos obstáculos. O que é meu tá guardado, como costumam dizer sempre lá na minha terra.

Eu me peço desculpas

Dia desses estava tomando um café e me peguei num destes desconfortos existenciais. Realizei, naquele momento, que havia me perdido de mim. Minutos antes estava ouvindo um podcast sobre mentir para si mesmo. Era em clima de comédia, aquele método básico que consiste em usar o humor como saída para algo que lá no fundo te causa muito incômodo. Eu ri e me identifiquei em vários aspectos para mais tarde cair na real e experimentar uma bela crise de pânico. Foi como se eu tivesse despertado de um coma e me dado conta de quanta coisa eu fiz – mentindo para mim mesma – enquanto sufocava tudo o que realmente tinha vontade de fazer. É muito fácil se perder e acumular bagunça. Eu sou especialista, não duvido que seria capaz de criar uma instalação de arte contemporânea bem conceitual em cima disso. Porque acho bonito isso de dar a cara à tapa, de se jogar nas aventuras da vida, de se perder e ver nisso um caminho. Saber se reconstruir e até criar algo em cima disso.

Eu nunca soube fazer isso. Mas aprendi a fingir que era mestre e soube sustentar esta narrativa por anos. Convicta da minha força e capacidade para chutar bundas, mudei de país dez meses atrás. Com um diploma de Mestrado novinho em folha na bolsa e a convicção de que meu inglês estava tão perfeito quanto o francês. Neste meio tempo não tive trabalho, não estudei, não fiz na-da. Vi uns poucos filmes e li pouco mais de dez livros. Tive uma fase onde devorei séries, que logo se dissipou. Tentei começar a me exercitar um sem número de vezes, abandonei todas. Entenda, isso talvez soe como alguma coisa para você. Porém é um grande nada para mim, uma pessoa que, de base, era muito ativa.

Tive uma outra fase de desemprego lá pelos idos de 2015. Foi o período em que descobri e comecei a psicanálise, e estava tão obcecada que aquilo me fez explorar ao máximo a minha capacidade de ressurgir das cinzas. Tinha uma urgência em rebater uma das frases que mais me marcou na primeira sessão, “eu sou muito fraca”. Sambei na cara da minha frustração em nunca ter trabalhado com reportagem e produzi várias, passei a fazer conteúdo para publicações físicas e online (e ser paga para isso!), escrevi muito, participei de um projeto super querido onde escrevia sobre o que dava na telha, melhorei minha performance na corrida e comecei a fazer natação. Dei fim a um relacionamento tóxico e passei a me afirmar cada vez mais.

Essa intensidade toda me levou longe e parecia duradoura. Conquistei muita coisa, até ter um tropeço de ansiedade que veio com tudo e me fez repensar a força pela qual batalhei e me sentia tão orgulhosa por ter conquistado. Dei o braço a torcer, aceitei que precisaria cuidar da ferida. Na minha cabeça havia curado a doença, mas hoje vejo que só fiquei trocando os band-aids. E a cada band-aid novo eu adicionava uma camada, incrementava a narrativa e tentava me agarrar ao fato de que uma hora essa porra ia cicatrizar e eu poderia seguir a minha vida em paz.

O cérebro, essa cabra da peste dos infernos… ele esteve aqui o tempo inteiro. Me dando uns toques para a realidade, me pedindo para ser atenta. Eu fui achando meios de ocultar todos estes sinais. O problema, você já deve imaginar, não é tão complexo assim: se a ferida é um pouco mais profunda essa parada de ficar só trocando band-aid vira uma infecção. Tive uma. Fiquei aqui estagnada, me sentindo um ser humano horrível por chegar ao mês 09 sem ter feito nada e sentindo os efeitos físicos destes vazios.

É muito potencial perdido. Vou abrir meu coração: eu amo escrever. É onde me sinto livre, é o momento em que mais me conecto comigo mesma, onde me sinto bem de verdade. Desde pirralha a escrita é minha válvula de escape e minha salvação em momentos de angústia. É prazeroso quando tenho algo para contar, é divertido quando só quero ter um breve registro de algo que vi ou vivi. Gosto de encher cadernos, até quis fazer da escrita minha profissão quando optei pelo Jornalismo. Entretanto ainda tenho um obstáculo: eu. Passei anos encontrando todos os defeitos do mundo nos meus textos e abandonando inúmeros parágrafos por dizer “que não estava bom o suficiente”. Embora nunca tenha me questionei sobre o que era este bom, tampouco tentei definir este bom. Porém soava mediano, perante um breve bloqueio já largava mão. Até hoje tenho meus rascunhos neste blog e em outros criados antes deste, e em to-dos acumulo parágrafos sem fim. Sabe o produzir conteúdo mencionado anteriormente? Também abri mão porque deixei de acreditar que alguém fosse querer pagar pelos meus textos quando as publicações para as quais colaborei fecharam as portas. Fui adepta do “não devo transformar a escrita em trabalho pois vou perder a paixão que tenho por ela”, que evoluiu para o “eu nem teria criatividade para ser redatora, foi por isso que não dei certo como jornalista”. Até mesmo a parte de entretenimento, que sempre me foi super acessível, larguei. Não foi por falta de ideias e tampouco de vontade, tanto que comecei. Dei o pontapé inicial diversas vezes, mas faltou a tal da força para derrubar os empecilhos que eu mesma criei e seguir caminhando.

Fraude atrás de fraude. Eu menti muito. Fiz uma formação em tecnologia, me dediquei ao longo de dois anos porque queria ter uma profissão com salários mais atrativos. Não nego, ainda quero. Porque tenho essa pira de fazer um bom trabalho e ser remunerada como mereço. Me encantei pelo universo da tecnologia e sinto que minha relação com a gerência de projetos digitais ainda tem potencial e talvez seja cedo para declarar nosso término. Mas me perdi de mim. Me abandonei sem dó.

Enxerguei com muita clareza o quanto preciso ser sincera comigo e lutar pelo que condiz com a minha essência. Precisava me desculpar depois de tanto falhar comigo mesma, é fato. Escrevi esta carta para pedir perdão por ser tão cruel e exigente comigo mesma. Quero reparar este erro. Tenho este corpo cheio de agonia, não vai ser fácil, mas agora é a hora de iniciar minha batalha contra a urgência.

Desta vez vai ser no meu tempo. Seja ele qual for.

Corona diaries #10

Quando fiz o primeiro ‘Corona diaries’ tinha como objetivo registrar como seria minha experiência com o confinamento. Parecia uma tentativa de provar para mim mesma que muito poderia acontecer mesmo sem colocar os pés para fora de casa. Não deixava de ser uma boa ocasião para sentar aqui e escrever um monte de reflexões sem nexo sobre o estar em casa e as tantas abobrinhas que brotaram na minha cabeça desde então. Daí recebi a última news da Luísa e ela me fez viajar no tempo e revisitar este longíquo passado de blogs criados antes de 2008. Me falha a memória e não consigo precisar o ano, mas minha primeira aventura online foi dividida entre blogspost e livejournal (!). Era um diário online. Dei toda uma volta ao longo dos anos para cair novamente no ponto zero que me trouxe ao universo blogueiro. Cada texto era um grande resumo do que havia feito no dia e, quando estava inspirada, rolava uma reflexão sobre algo do meu cotidiano. Essa coisa de fazer post com Top 5, resenha literária, dica de projetos e afins viria bem mais tarde, quando de fato passei a ter contato com outras blogueiras e tentei me adequar ao formato de boa parte dos blogs daquela época.

E o que é o Corona Diaries senão o meu meu jeitinho de blogar antigamente? Atribuí um nome como se estivesse produzindo muito conteúdo nesta página e precisasse diferenciá-lo de outros possíveis temas, comecei empolgada e fui espaçando cada vez mais as publicações. Como todo projeto que alimentou minha alma no início e foi perdendo o brilho paulatinamente até ser deixado de lado por n motivos. Toda essa lenga-lenga não passa de um disclaimer para anunciar a continuidade do Corona Diaries. Desconheço o amanhã, vai que um dia resolvo dar um tapa neste site e falar de outras coisas? Ao menos vai ficar guardado na categoria dele. E vai continuar com o Corona no nome pois, embora a Holanda já tenha desconfinado, o vírus segue fazendo vítimas e ainda não existe uma vacina.

Fecha parênteses.

Nestes quase dois meses desde o último post presenciei o desconfinamento em duas fases da Holanda. A situação por aqui passou longe do que se passou na Itália, Espanha e França, por exemplo. O governo anunciou recomendações a serem seguidas, fechou o comércio, pediu às empresas que fizessem o possível para que os funcionários trabalhassem de casa. Não vou entrar em detalhes pois não é o foco do diário, mas foi um confinamento brando. Conforme relaxaram as medidas, também retomamos algumas atividades que foram suspendidas lá no comecinho de março. Encontramos amigos (sem beijo no rosto nem aperto de mão) e visitamos alguns museus, fomos a um restaurante. Ia dizer que a vida está voltando ao normal, porém vejamos, está daquele jeito. Será que o dito normal como conhecemos voltará a ser algo tangível? Duvido muito. Independente das mudanças e da forma como as coisas funcionarão daqui pra frente, minha desordem interna ainda é a mesma. Ela teve seus momentos entre altos e baixos, é claro. A vida sempre foi assim, mas sinto que a quarentena só colocou em evidência. É como encarar o espelho – há dias em que vejo no reflexo a mulher mais linda do mundo e me impressiono em enxergar tanta beleza apesar de; há dias em que vejo minha imagem refletida e me pergunto como consegui me destruir tanto em tão pouco tempo. Vivo nesta montanha-russa que consiste em não ter tempo de curtir a adrenalina pois a viagem é rápida e sobra pouco tempo para apreciar as variações.

O verão chegou com tudo e meu corpo reage mal ao calor. A pressão cai, quando transpiro muito meu corpo coça (e dói pra uma porra), quando não chove fica seco demais para meu sistema respiratório e a rinite ataca no capricho. Pode-se dizer que o cenário tampouco tem ajudado a me sentir minimamente bem. A vantagem de viver em um país bipolar com relação ao tempo é que já está fresquinho outra vez. Me pareceu um absurdo sofrer com 31 graus depois de uma vida numa cidade onde 36/38 graus eram uma constante, mas aconteceu. Depois do extremo mormaço veio a tempestade, as temperaturas caíram e até deu para dormir sem sentir meu corpo pregando outra vez. Vitória.

Sigo em vida me agarrando à singela expectativa de dias menos tempestuosos na minha mente. A gente vai seguir se estapeando até ela me dar sossego, eu sei, mas não é que este negócio de fazer descargas mentais por aqui ajuda?

Corona diaries #9


[Aquarela feita pelo meu amigo Caio Naressi. Ele diz que pensou em mim enquanto pintava ao som do álbum Power, corruption and lies, do New Order, em algum momento de Novembro de 2019
]

Queria escrever alguma coisa antes de completar 29 anos. Não que não o tenha feito entre um bullet journal, uma carta de motivação e umas anotações soltas online, mas queria um Corona Diaries de prefácio para o meu réveillon. Já faz mais de uma década que aprendi a conjugar o verbo se réveiller (em tradução livre: despertar). Réveillon, que nós associamos à virada do ano no Brasil, é a primeira pessoa do plural na conjugação. Quando começava a estudar francês e descobri o significado deste verbo achei bonito o conceito de ‘despertar’ como rito de passagem. Desde então adotei à minha humilde realidade. Gosto da sensação de fazer planos e me encher de perspectivas para o ano que está por vir pela perspectiva da minha data de nascimento. É até um pouco doido falar sobre a intensidade com que experimento um sentimento de renovação a cada quatorze de maio.

Aniversariar sempre foi algo muito íntimo para mim, decorrência provável deste ato simbólico de transição. Preparar-se para um novo ano e se despedir do ano que passou demanda entrega, vasculhar as memórias, analisar o que está encaminhado, checar o que precisa ficar para trás, ver o que pretendemos levar adiante, pensar nos possíveis planos futuro. Convenhamos, é um trabalho custoso. Toma tempo e exige um pouco de concentração. E bem, é minha vida, essa transição depende exclusivamente de mim. Por isso sempre gostei do toque de recolher, de voltar para minha concha e fazer todo este trabalho reflexivo no conforto dos meus pensamentos. Tive contudo meus momentos de variação. Em dados períodos senti vontade de ser lembrada, fiquei animada para comemorar, fiz festinhas, me presenteei. Nunca fui muito chegada a narrativas lineares e deixei essas manifestações falarem por si quando aconteceram.

No início do ano mudei de país e, desempregada, já sabia que não poderia ver meus pais no primeiro semestre e que não poderia trazer meus amigos mais queridos para a Holanda. Ou seja, não teria quórum suficiente para uma festa. Então veio o corona e a certeza de que seria inviável reunir as oito pessoas que conheço no país e que poderiam eventualmente se deslocar até onde moro. Todos os caminhos me levaram de volta à introspecção em 2020. Porém neste processo de contar os dias sem saber quantos dias faltam também perdi toda e qualquer noção de tempo. Um dia fui dormir e quando acordei já era 13 de maio, um dia antes do meu aniversário. Foi no susto.

Desde a última cartinha tentei ter mais cuidado comigo e conversei cada vez menos com as pessoas. Precisava de um tempo em silêncio. Foi preciso lidar com muito barulho aqui dentro, comprar algumas brigas comigo mesma, repensar todas as lições pelas quais passei desde Maio de 2019. Em alguns momentos doeu muito, em outros chorei de alegria, como diria Roberto Carlos, se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi. E bota emoção nisso! Depois de meses difíceis em Annecy tenho aprendido a me afirmar e me posicionar. Eu achava que sabia, e talvez até soubesse, mas desaprendi, desandei, e agora tenho tentado reorganizar essas pecinhas confusas que me compõem. Comemorei um ano de um dos encontros mais bonitos da minha vida, começamos uma série nova entre tantas que vimos na quarentena, desabei a chorar depois de uma chamada de vídeo com a minha mãe, comecei a anotar frases que ouvi em Rupaul’s Drag Race e que viraram pauta para minhas sessões de psicanálise. Também li os drops diários para salvar o minuto, me senti abraçada e tive ainda mais certeza do que desejo para os 29 anos: afeto e leveza. Afeto para apaziguar momentos complexos, leveza para encará-los.

Hoje cedo resolvi colocar minha playlist de músicas mais ouvidas em 2016 (!) e esbarrei em Colors, de Halsey, no meio da seleção. Senti tanto quando ela disse you’re ripped at every edge but you’re a masterpiece. Escolhi como mantra do meu ‘despertar’ dos 28 para os 29. Vou abraçar minha idade nova mentalizando que nunca serei definida pelo meu corpo e nem pelo meu trabalho. Tenho mil motivos para ter orgulho das minhas cicatrizes e tirar o melhor de todo meu aprendizado e conquistas ao longo destes (quase!) 29 anos.

A gente se irrita tanto com bobagens quando só precisa de um pouco de sossego e afeto. Vinha me sentindo despedaçada desde o início do confinamento por uns tantos motivos (muito bem mencionados no último diário), mas de tanto ouvir meu companheiro comecei a abrir meus olhos. Dei início a todo um processo para me reconquistar e parar de esquentar a cabeça com assuntos que nem deveriam mais ser colocados em pauta na minha vida.

De pouquinho em pouquinho retomo a capacidade de me sentir como uma obra prima. Tudo em sem tempo.

Corona diaries #8

People like us get so heavy and so lost sometimes
So lost and so heavy that the bottom is the only place we can find
You get dragged down, down to the same spot enough times in a row
The bottom begins to feel like the only safe place that you know


Nossa trajetória de viver três meses em um começou no aeroporto de Genebra, na Suíça, e como todo começo de história pós-apocalíptica as coisas já começaram ruins. Saímos de um pequeno paraíso em Champéry para cinco longas horas de espera pela partida do nosso voo de volta para casa. Enquanto remonto as memórias sinto a nossa confusão como se fosse hoje: estávamos ambos desajeitados e em busca de compreensão de um mínimo aspecto do que estava por vir. Enquanto ele se ocupava com questões do trabalho, vi o link do perfil de Fiona Apple na New Yorker (ele foi mencionado em um dos primeiros diários) e decidi que aquela seria minha companhia para o nosso chá de aeroporto. Tomei todo tempo necessário à leitura e passei quase toda a espera concentrada nesta longa conversa de Apple com Nussbaum. Fetch the bolt cutters foi lançado há duas semanas (!). O que poderia ser mais simbólico do que este disco sendo lançado e coroando nosso aniversário de um mês de confinamento?

Não dei continuidade ao Corona Diaries pois, como tantas pessoas, me perdi. Em meio a tantas notícias ruins, perspectivas lamentáveis e muito pessimismo, afundar me pareceu excelente como opção. É tanto esforço para ser forte, resistir e dar conta do pouco que preciso dar conta que deixei meu corpo amolecer e me entreguei. Chega de oferecer resistência. Deixei todo o peso recair sobre o meu corpo, alimentei minha raiva enquanto me informava sobre o Corona – e em particular sobre o que se passa no Brasil – vi minha imagem no espelho e chorei muito por detestar (ainda mais) minha imagem, procrastinei, vi muitos vídeos inúteis no Youtube, senti nojo do meu corpo, enalteci meus defeitos, me desprezei o quanto pude. ‘Cause I fuck with myself more than anybody else. Tudo isso na minha cabeça. Instaurei o caos e deixei assim porque ainda não me sentia pronta para fazer uma faxina.

Ainda não me sinto, por sinal.

O confinamento potencializou dois conflitos que negligenciei no último ano: meu corpo físico e meu futuro profissional. Graças à psicanálise me resolvi muito bem com meu físico e sempre tive uma relação saudável e respeitosa com ele. Até tive minha fase louca das corridas e me acalmei depois de ter uma lesão, mas isso é assunto para outro momento. Mas desde 2015 consegui, na medida do possível, viver de forma saudável. Sou taurina, comer é de longe uma das minhas atividades favoritas, então me privar nunca foi uma opção. Até o início do ano passado não tive episódios compulsivos, comia e bebia o que tinha vontade. A atividade física seguiu presente e era o que ajudava a equilibrar eventuais ‘exageros’ – embora não fosse intencional. Nunca fiz exercício para emagrecer. Minha família tem histórico de colesterol alto e diabetes e bom, sigo a mesma tendência. Manter o corpo em movimento é essencial para me manter saudável. Porém a mudança para Annecy e a transição de carreira foram amargas. A gente nunca está pronto pra nada nesta vida (embora pense que sim), mas foi um pouco mais difícil do que eu esperava. Por questões financeiras e por morar longe de tudo, ir à academia deixou de ser uma opção. Parei de me exercitar em fevereiro do ano passado e nunca mais retomei. Tentei preencher meus vazios com comida e bebida e tive, enfim, uns tantos episódios compulsivos.

Hoje, pouco mais de um ano depois, estou com 13 kg a mais e com terríveis dificuldades em me aceitar desta forma. É difícil falar sobre o assunto pois é deveras pessoal e corro o risco de decepcionar pessoas com problemas sérios de saúde ou com distúrbios de imagem. Nunca tive um ganho de peso tão significativo e como todo evento novo em nossas vidas tenho apanhado para tratar a questão. Fico nesta corda bamba entre trabalhar a aceitação ou começar a tomar medidas para contornar essa situação e voltar (de forma saudável) ao meu peso de antes. Quando penso no que implica mandar fora 13 kg me dá desespero, porque para fazê-lo da melhor forma é preciso tempo E muita paciência. Com a cabeça pilhada do jeito que está – digamos que as coisas não melhoraram muito do ano passado pra cá – e no meio de uma pandemia, como poderia pensar em regime e em me exercitar? Tenho um companheiro que me apoia nas minhas escolhas e nunca ma encheu o saco com relação a corpo e/ou alimentação, mas que também tem sofrido os efeitos do confinamento, que cedo ou tarde acabam afetando todo mundo, então impor uma dieta nos deixaria ainda mais nervosos e esgotados mentalmente. Minha alternativa, por ora, é arriscar alguns exercícios em casa. Como o vizinho reclamou dos abalos sísmicos provocados pelos meus polichinelos (gostaria muito de estar exagerando), encontrei alternativas em treinos apartment friendly da MadFit. Estou sem objetivos no momento, não tomei decisões concretas, mas mexer o corpo ajuda a aliviar o stress e já me sinto menos cansada quando preciso subir as escadas de casa ou pegar a bicicleta para ir ao mercado. Já é alguma coisa.

Foi também na tentativa de me tranquilizar que me desesperei (!!!) mais uma vez quando voltei a pensar sobre minha transição de carreira. O peso do meu corpo causa desconforto, o das minhas escolhas o sobrecarrega e tenho cada vez mais dificuldades em caminhar equilibrando tanto peso. Depois de 7 anos trabalhando como assessora de imprensa (e fazendo uns freelas de redação) fiz um mestrado em produtos e serviços multimídia, trabalhei um ano inteiro como gerente de projeto digital e gostaria de continuar atuando na área. Mas entendo bem a demanda de experiência para o cargo e não tenho o suficiente. Perdi as estribeiras procurando vagas de assistente que não exigissem fluência em holandês, mas as buscas foram infrutíferas. Em diversas ocasiões me candidatei mesmo assim pois sou grande adepta do “não custa tentar”, mas depois de tomar tantos nãos na cara deixei a frustração falar mais alto e tenho sentido cada vez mais vontade de abrir mão e tentar outra coisa. Não houve uma única vez em que ultrapassei a etapa do envio de CV. Não é como se eu tivesse passado por diversas entrevistas sem sucesso – eu nem chego a ser entrevistada. Como manter o estímulo para continuar tentando quando todas as reações são negativas?

No meio da quarentena me vi obrigada a me revisitar e questionar minha trajetória profissional de forma mais rígida. Confesso, doeu. Tenho um currículo ótimo, sinto orgulho de tudo o que fiz até agora e sei que dei o melhor de mim. Só que perante tantos nãos me vi feito um bicho acanhado tremendo de medo. É como se piscasse e me esquecesse de todos bons feitos. As falhas pipocam e preciso fazer uma força monstruosa para dar voz com segurança às minhas qualidades. Por um momento cogitei perguntar qual é a minha maior qualidade aos amigos mais próximos, ou que me dissessem algo que fiz e que os marcou positivamente. Partindo do que os mais querido veem de bom em mim, montaria uma espécie mapa que me ajudaria a explorar cada uma dessas características para me encontrar nelas. Mas me pareceu o cúmulo da carência e no fim das contas é uma tarefa que não pode ser delegada. Depende de mim. Sendo assim, meu presente de aniversário (daqui duas semanas!) vai ser este mapeamento. Tomei nota de algumas pistas que encontrei no meio do caminho destes últimos dias. Vou fazer umas colagens, voltei ao meu bullet journal, e espero ter uma luz a partir de tudo isso para refazer um bom CV e uma boa carta de motivação. E não menos importante, encontrar vagas mais adequadas ao meu perfil. O plano de ser gerente de projeto digital vai ficar para mais tarde.

É difícil descrever o nível de exaustão psicológica em que me encontro e percorri um longo caminho até voltar para este espaço e conseguir escrever com leveza. Seguindo a ordem caótica do mundo, mesmo sem sair de casa muita coisa aconteceu. Os pontos altos do último dia foram Fetch the bolt cutters, a volta da newsletter (repaginada!) de uma amiga muito querida, Sherlock (ainda não havia dado uma chance à série), Rupaul’s Drag Race (cuidado com os spoilers, estamos assistindo as temporadas antigas) e Deerskin. Ainda estou com dificuldades para ver filmes em casa. Me perco com as minhas listas, com dicas de amigos e tentando organizar as atividades do dia para tirar um momento e me concentrar em um filme. Quem sabe uma hora vai?

Quero ver como as coisas vão evoluir agora que aceitei os sentimentos ruins. Deixar sair faz parte do processo de cura. Pode até ser que nasça algo destes tantos cafés que tenho compartilhado com meus demônios pessoais. Vez ou outra cogito produzir outros tipos de conteúdo aqui no blog, de repente falar sobre coisas legais que li e vi neste meio tempo. Por enquanto vou me contentar em chegar ao fim do dia com algum pingo de sanidade. Nos vemos em breve. 🙂

[o trecho que abre este texto é de Heavy Balloon, de Fiona Apple]