Como não ser atropelada a cada esquina

ou ‘os cinco maiores clichês da Holanda’

Den Haag (a cidade onde moro) em uma manhã de inverno

Sou uma pessoa que carece de concentração nas primeiras horas do dia. Até consigo fazer um milhão de coisas, mas é tudo executado no modo automático, não penso, tampouco raciocino ou produzo efeito sobre minhas atividades. Isso tem um total zero de impacto na vida de uma pessoa desempregada e ainda em vida no meio de uma pandemia. Estou presa em casa, o pior que pode acontecer é deixar algo cair no chão ou esquecer a roupa recém-lavada dentro da máquina por algumas horas. Porém Outubro chegou, o mundo segue em desordem e não vou mais viajar, tampouco sair do país pelos próximos três meses, achei por bem me inscrever em uma academia pois ando insatisfeita com a minha forma física. Nessa vida me falta cada vez mais estímulo, sabe como é, essa vontade de existir que anda definhando mais e mais. A academia pareceu uma boa solução pra colocar meu corpo em movimento e não deprimir com a chegada do inverno. Se não sair de casa nas tais primeiras horas do dia sei que vou procrastinar até o fim dos tempos e terminar jogando a mensalidade no lixo. Enfim. Foi numa dessas que, munida de toda desconcentração do mundo, coloquei um podcast pra tocar e parti rumo aos meus 15 minutos de caminhada até a tal da academia, para quase morrer atropelada durante 5 segundos de distração. Porque na Holanda você pode estar parado, olhar para sua esquerda, direita, suas costas, o céu e adiante, e ainda assim ser atropelado por uma bicicleta, um carro, um ônibus, ou até mesmo por um outro transeunte.

Será que as regras de trânsito daqui são diferentes? Ou só eu que sou tonta demais e não deveria me distrair por um segundo sequer? Fiquei às voltas com esta pergunta em mente, no dia em que tiver um salário vou investir em um curso de atualização das condutas de trânsito para ver se me sinto um pouco mais segura.

Foi durante uma dessas reflexões que veio a vontade de falar sobre os clichês da Holanda pela minha perspectiva. Sem querer cair naquele “clichês que são reais”, mas já caindo, resolvi listar alguns dos lugares comuns que tanto me anunciaram e que foram se confirmando com a passagem dos primeiros meses aqui. Frisando que essas impressões são de uma pessoa que passou a vida toda no Brasil e que, depois de dois anos morando na França, certamente vai fazer algumas comparações inspiradas no que vivi no país das baguettes oui oui oui.

Sim, você pode ser atropelado a qualquer momento.

Passei a vida achando que a calçada era um lugar relativamente seguro para quem precisa parar. Que seja para amarrar o cadarço solto, checar o Google Maps ou mudar de playlist, se você quer parar no meio de uma caminhada, provavelmente vai fazê-lo na calçada. Só que a Holanda é freestyle e o céu é o limite. A cena que descrevi no início deste texto foi real, e o CAMINHÃO que quase me atropelou era de lixo. Porque sim, todo tipo de veículo pode subir na calçada quando você menos espera, todo cuidado é pouco. É difícil me ver saindo de casa sem fones de ouvido, mas desde a mudança pra Holanda foi preciso baixar o volume para ouvir eventuais invasões de calçada. Já teve dia em que fui surpreendida por três caminhões desses gigantes de mudança num curto trajeto de quinze minutos. A rua onde moro é muito estreita, só tem espaço para um carro passar por vez. então quando precisamos descarregar as compras do mercado…subimos gentilmente na calçada. Porque senão os outros carros não conseguem passar. Será que é isso? As limitações físicas das cidades impulsionaram os holandeses a subir nas calçadas quando fosse preciso, sem checar se há um pedestre ou ciclista no caminho? Me parece que achei uma das respostas. Caminhar pelas ruas perdeu todo o tom de flâneur urbana que um dia tive na França, pois nunca é tranquilo. Confesso que vez ou outra me pego contando a quantidade de vezes em que fui surpreendida por carros ou caminhões nas calçadas durante um trajeto.

Tem bicicleta pra mais de metro mesmo

Ainda no tópico atropelamentos, temos aqui a maior provocadora de acidentes de toda natureza: a bicicleta. Ela merece demais o seu lugar nos cartões postais do país. Já que a circulação de carros é um tanto dificultosa, é natural que tenham considerado mais fácil se deslocar de bicicleta. Em termos de manutenção sai muito mais em conta. Até porque ter um carro custa bem caro por aqui. E não há tempo ruim para os holandeses. Eles passam boa parte da vida deles debaixo de chuva, então nada pode abalá-los. Faça chuva ou faça sol, a circulação de bicicletas é sempre intensa. E você vai ver de um tudo. Tem gente que carrega três crianças num carrinho anexo, tem gente que fala ao telefone enquanto carrega a sacola de compras do mercado (PEDALANDO, você não leu errado), tem gente que carrega um móvel desmontado. Aqui é fácil encontrar estacionamentos exclusivos para bicicletas! E você pode ir de uma cidade para a outra pedalando pois existe faixa de pedestre em tudo que é canto mesmo. A Holanda leva essa história de mobilidade urbana muito a sério e eu adoro.

Um sábado ensolarado em Leiden

Eles amam fritura. E pão com granulado de chocolate

Poderia listar inúmeras coisas que adoro por aqui, mas o intuito deste post é falar sobre as peculiaridades, aquelas coisas que me surpreenderam ou me chamaram atenção de alguma forma. Nem tudo são flores, e a Holanda é tipo os Estados Unidos da Europa (roubei esta frase do meu vizinho argentino, obrigada, Alejandro). Para começar, todo mundo fala um inglês tão impecável que por vezes fico confusa quando vejo as placas em holandês. A mentalidade e a cultura americana possuem forte influência, e isso se reflete bastante na alimentação. Holandeses valorizam a pausa para o almoço, mas não gostam de desperdiçar o precioso tempo que possuem. É conhecido que muitos deles comem só um sanduíche ou um pão com pasta de amendoim ao meio-dia. Eles deixam para preparar algo quentinho à noite, na hora do jantar. Bom, eles jantam cedo, por volta das 18h – o que para mim é reflexo da fome provocada pelo almoço simples. É um lance cultural, não quero ser ofensiva com os holandeses, mas vim de um país onde temos o costume de comer bem no almoço. E eu gosto de comer algo que me dê sustança para dar conta do resto do dia. Hábito que levei comigo pra França (só foi preciso reduzir a quantidade).

Mas o lance é: como bons americanos, os holandeses adoram uma fritura. Tudo que eles puderem tacar no óleo, vão tacar. E isso é mágico pra quem curte uma junkie food vez ou outra, não nego. Se alguém me pergunta o que há de comida típica na Holanda, respondo, sem pestanejar, Bitterballen. É basicamente uma bolinha de carne (quer dizer, eu acho que tem carne. Nunca pergunte a um local do que é feito, é um grande mistério, uma lenda do país) frita, servida com mostarda em porções de 6 ou 8 bolinhas. Estrelinha do happy hour e do apéro (aquela saudade de um bom apéro francês). Em qualquer bar e restaurante você pode encontrar uma boa variedade de salgadinhos fritos para petiscar, por sinal. Estamos colados na Bélgica, e a tradição de consumir boas batatas fritas foi apreciada e adotada pelos holandeses.

Agora um lance que ainda não entendi muito bem e tenho dificuldades em aceitar é o Hagelslag. Você entende porquê tenho apanhado tanto para aprender holandês? Este é o lindo nome usado para designar granulado. Os mercados possuem uma prateleira inteira só com variedades de hagelslag. De chocolate ao leite, chocolate branco, colorido, com grãos mais grossos, raspas de chocolate… tirei uma foto para ilustrar. Daí eles pegam uma fatia de pão de fôrma, passam manteiga (pra dar liga), jogam o granulado por cima e mandam pra dentro. Por isso as crianças daqui são tão felizes. É o açúcar no sangue.

Uma prateleira inteira de Hagelslag!

A cerveja no cinema é real

Curiosidade inútil do dia: Quentin Tarantino escreveu boa parte do roteiro de Pulp Fiction em Amsterdam. Ele fez questão de deixar singelas homenagens aos Países Baixos no texto. Durante um dos diálogos entre Vincent (John Travolta) e Jules (Samuel L Jackson), Vincent comenta que em Amsterdam você pode pedir uma cerveja no cinema. E que ela é servida na garrafa mesmo, como em um bar. O barulho da garrafa de Grolsch (pois nem só de Heineken vive este país) abrindo em sequência na sala de cinema é um clássico e foi uma das coisas que mais me marcou quando chegou aqui. Sou rata de cinema, como dá para perceber em uma breve folheada neste blog. No Brasil só as grandes redes servem pipoca, guloseimas e refrigerantes. O mesmo vale pra França, mas muitos dos cinemas ‘de rua’ não servem nenhum tipo de comida. Na Holanda vale tudo em todos os cinemas. Se você estiver tomando um vinho no bar do cinema e sua sessão for começar em 5 minutos, você pode ir ver o seu filme com a tacinha em mãos, sem problemas. Nas minhas muitas idas ao cinema, sobretudo em tempos pré-Covid, nunca vi ninguém derrubar ou quebrar um copo. Galera treinada.

Você pode encontrar sua encomenda na casa do vizinho

Assim como a bike, o serviço dos correios também é freestyle. Foi difícil entender a dinâmica deles quando cheguei por aqui. Assim como na França (e imagino que em muitos países da Europa), você tem uma caixinha de correio na entrada do seu prédio ou na frente da sua casa. O jeito mais fácil de acertar a caixa de correio, caso o número do apartamento não esteja claro, é pelo nome. Quando você faz uma encomenda, caso ela caiba na caixa de correio, eles nem interfonam. Mas se for algo grande ou que demanda assinatura, eles tocam a campainha. Se ninguém estiver em casa – e juro que um dia esse conceito de casa vazia existiu – eles deixam na casa do primeiro vizinho que responder. Já aconteceu de receber encomendas pra gente que nunca vi na vida, já precisei bater na porta de gente que nunca vi na vida para retirar minha encomenda. Altas emoções. No Brasil isso instauraria o caos absoluto, mas aqui funciona bem.

Peço desculpas a você que leu este texto até o fim na expectativa de descobrir como não morrer atropelado, mas a verdade é que eu ainda não descobri. Se alguém tiver um insight, aceito de bom grado. Caso encontre respostas, volto aqui para contar minha experiência. Na real foi só uma desculpa para falar sobre a Holanda e as impressões que tive desde a minha chegada por aqui. Escrever sobre minhas vivências foi ótima, nenhum texto foi escrito tão rápido quanto este nos últimos dois meses. Revisitar esses clichês ajuda a gente a aproveitar melhorar a experiência de um país que não é o teu de origem. E até a rever certos costumes com outros olhos.

Encerro aqui, pois agora é hora de ir fazer minha contagem (quase) diária de veículos que sobem na calçada.

Um brinde aos meus três anos de Europa (ou quase isso)

Arte por Isabelle

Sabe aquela sequência clichê das séries onde a protagonista acorda cheia de energia, toma um banho super empolgada, se arruma, veste sua roupa favorita, e justo no momento em que sai de casa uma pomba passa e caga na cabeça dela? É uma metáfora perfeita da mudança para o exterior. Quando chegou a minha vez, me senti a mestre do planejamento depois de organizar cada detalhe e partir com o coração aberto à essas novas oportunidades oferecidas pela vida em outro país. Mas ele me recepcionou defecando na minha cara. Como boa mulher brasileira forte e que não se abala com pouca coisa, eu primeiro xinguei um sonoro desgraça, limpei a sujeira e comecei outra vez. Acontece que fui pra França, e a população de pombas é enorme e forte por lá. Tomei muita bosta na testa. Comecei a me irritar com esta ação repetitiva e levei um bom tempo até aprender a contorná-la e a não me deixar afetar. Quando me senti com o mínimo de controle da situação, certa de que estava pronta a enfrentar situações semelhantes em qualquer lugar do mundo, juntei minhas malas e fui arranjar um jeito de chamar a Holanda de casa.

E aqui quem caga na minha cabeça são as gaivotas.

É um lugar comum entre muitos brasileiros que partem ao estrangeiro: nós gostamos de fazer um texto comemorativo para celebrar mais um ano de sobrevivência longe do Brasil. Chamo de ‘sobrevivência’ pois é vitorioso e precisamos nos parabenizar por nos vermos cada vez mais fortes longe de tudo que nos é tão familiar. Faço parte deste grupo e amo o exercício de fazer uma espécie de retrospectiva do ano que passou. Reviver as memórias é como assistir a um filme e me faz bem rever as cenas dos bons momentos e lembrar que as etapas difíceis passaram e superei todas elas. É algo que gosto de fazer também a cada aniversário, mas a perspectiva aqui é um tanto diferente. Me atenho a como atravessei cada etapa do existir enquanto estrangeira em um país que não é o meu de origem. Segui na França ao me despedir de Montbéliard e ir morar em Annecy, e com isso comemorei dois anos no País dos Croissants no dia 29 de agosto de 2019. Agora preciso ajustar minha narrativa e ainda não decidi se comemorarei meu aniversário de X Anos na Europa ou X Anos Que Deixei o Brasil. Aceito sugestões. Cheguei na Holanda em dezembro do ano passado, e com isso meu terceiro ano fora do Brasil foi celebrado em território laranja. O mesmo 29 de agosto, um mês atrás, veio sem nenhuma inspiração para fazer minha crônica de mais uma ano morando no estrangeiro.

Queria um registro de qualquer forma pois é difícil deixar algo de tamanha importância para mim passar em branco. Tentei pensar em diversas formas de começar este texto e me peguei travada, sem saber qual caminho percorrer. Ainda é difícil falar sobre assuntos tão delicados, dar nome aos incômodos e assumir coisas das quais não me orgulho. Tinha muito a contar ao completar dois anos de França, tenho pouco a dizer sobre meu quase um ano de Holanda. Pode-se dizer que não houve tempo para viver a realidade deste novo país que só sei chamar de lar de um jeito meio torto.

Antes de termos a imposição do isolamento social em um contexto de pandemia, ainda nos meus primeiros seis meses de França entre 2017 e 2018, senti o quanto manter contato à distância é complicado, seja porque as pessoas gerenciam mal a ausência física, seja pelo fuso horário que nem sempre ajuda. Foi preciso velar algumas amizades. E embora tenha doído tentei me colocar no lugar destas pessoas algumas vezes. Estou longe de me encaixar nisto que as pessoas definem como mulherão da porra, não sou um exemplo a ser seguido. Levo uma vida simples e sou ordinária até demais. Mas sei também o quanto é fácil associar o “morar no exterior” a uma vida perfeita. E algumas pessoas sentem raiva ao ver as outras indo viver essa tal vida perfeita no estrangeiro. Porque sair do Brasil parece uma solução mágica. Ainda mais se você vai para um país de primeiro mundo. É mais seguro, de fato. Mas existe essa ideia de que tudo é mais cômodo nestes países: a comida é mais barata, a cultura é acessível a todos, o transporte público funciona. A lista é longa. Para muita gente essas mil vantagens são suficientes para silenciar o fato de que você se muda sem conhecer ninguém, sem saber muito bem as regras do local e longe da sua família. Em tempos de superexposição nas redes sociais é ainda mais fácil cair nesta ilusão ao ver um feed cheio de fotos de lugares bonitos. Sustentar essa narrativa é tão cômodo quanto a reação de muitos estrangeiros quando me queixava de saudade: se estou tão infeliz, porque não volto para o meu país?

Apesar de toda carga negativa e de inúmeras cagações de regra, há luz no fim do túnel. Tanto na França quanto na Holanda fui bem amparada emocionalmente. Reforcei minhas ligações com muitas pessoas (à distância!), tive e tenho apoio dos meus pais e de amigos mais próximos. Sou grata por ter uma rede de apoio tão carinhosa e sinto uma falta absurda de tê-los todos fisicamente por perto. Neste sentido tenho tanta sorte que agora também posso contar com um parceiro que me dá suporte emocional e financeiro, um cara maravilhoso que está pronto a me ajudar independente do teor das minhas crises. Este deve ter sido um dos pontos altos do ano que passou. Ter o apoio dessas pessoas foi fundamental para não largar mão de tudo e correr de volta para o Brasil.

Posso afirmar que em termos de receptividade a Holanda é mais acolhedora que a França. Pode ser uma reação ao fato deles andarem de bicicleta o tempo inteiro, o que permite manter a produção de serotonina sempre ativa, mas eles parecem mais felizes e dispostos. É tudo bem organizado e as pessoas me parecem ter um bom equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Mas vivo de suposições desde a minha chegada. Cheguei no mês mais morto do ano, no auê das preparações para Natal e Ano Novo, um período onde ninguém está muito preocupado com trabalho (tampouco em contratar gente nova), faz um frio do caramba e chove muito e ninguém quer ficar na rua. As pessoas contam os segundos para tirar férias e curtir um jantar gostoso entre família. Já sabia que minha integração só começaria a acontecer em janeiro. Assim foi. Em um primeiro momento acabei convivendo com colegas de trabalho do meu parceiro e, em paralelo, me inscrevi no Meetup e comecei a procurar eventos relacionados aos temas que eu gosto. Porque eu estava rodeada de pessoas interessantes, mas queria sair um pouco do núcleo deles, que é bem internacional, e conhecer pessoas que chegaram aqui por outros meios e motivos. Existe também o detalhe de que cheguei sem saber uma palavra sequer de holandês (eu não sabia nem pronunciar o nome da cidade onde ia morar), e meu inglês, que ficou bem adormecido ao longo de dois anos na França, estava bem enferrujado. Colocar na minha cabeça que uma língua germânica não vai achar lugar fácil no meu cérebro tão habituado a línguas latinas é outro desafio, pois nem sempre consigo aceitar a lentidão do processo. Tudo isso para dizer que tardei a sentir o impacto tomando conta, porém uns tantos pequenos elementos viraram pedra no meu sapato e ficou cada vez mais difícil caminhar com alguma destreza. Nos meus primeiros meses na Holanda não imaginei que seria tão difícil conseguir um trabalho.

Antes de sair do Brasil tinha dificuldades em entender o que levava meus amigos brasileiros a aceitarem trabalhos que não tinham nada a ver com eles no exterior. Ou porque eles preferiam manter um trabalho no Brasil enquanto moravam em outro país, mesmo sabendo que a conversão das moedas não compensaria tanto assim. Na minha cabeça a conta não fechava, me perguntava se valeria mesmo a pena abrir mão de ter uma carreira ascendente no Brasil só pelo gosto de ter um salário mínimo em euros. Naquela época eu era total sem percepção da realidade e alimentei uma ilusão na qual eu conseguiria trilhar um caminho bacana e construir uma carreira brilhante em território estrangeiro, fosse na área de comunicação ou como gerente de projetos digitais.

Você se lembra dos pombos? Como mencionei acima, eles se transformaram em gaivota e fizeram questão de cagar em todas as minhas ilusões e expectativas. O tal emprego nunca veio, tampouco as reações positivas ao meu CV. Até rolaram algumas poucas entrevistas, que inclusive renderiam um post à parte dada a surrealidade dos fatos, mas pouco avançou ao longo destes últimos 10 (!!) meses. É muito frustrante estar sem ocupação em um país que você conhece mal, sentindo teu inglês enferrujado e apanhando para pronunciar decentemente algumas cinco frases em holandês. A exaustão psicológica se transformou em algo físico e a cada dia desperto mais nervosa e mais desesperada. Porque sou uma pessoa sem habilidade alguma para ter sossego. Queria usar este tempo livre para ver umas séries e fazer uns cursos online de graça. Mas me pego tomada de culpa em estar fazendo algo não relacionado a mandar um CV ou escrever uma carta de motivação.

Senti muita frustração em diversos momentos deste terceiro ano de Europa. Como se os dois anos anteriores tivessem sido desperdiçados com um investimento que não me ajudou em nada no presente. Ainda tenho muito a aprender sobre ser gentil comigo mesma ao longo deste processo de adaptação. Quando a angústia me dói mais que de costume, me esforço para respeitar também o momento que estamos vivendo. Todo mundo está em busca de um pouco de serenidade e de meios de se reinventar e existir no contexto de uma pandemia. Comigo não seria diferente.

É fato, ando capengando e ainda não descobri um método eficaz para fugir das gaivotas. Porém este terceiro ano me fez enxergar o quanto sou forte e fui longe sim. Interrompi minha trajetória profissional por um período, é verdade. Mas aprendi muito e me vi crescer mais resistente em lugares que nunca vão me acolher como o meu país de origem, sem ter ideia de quando poderei ver minha família e amigos mais próximos outra vez e abraçando um caminho cada vez mais incerto. Carrego esse sentimento com orgulho suficiente para balancear a perspectiva pessimista e não me deixar abalar pelos obstáculos. O que é meu tá guardado, como costumam dizer sempre lá na minha terra.

Desacelerar

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Entra ano, sai ano, e sigo no processo inconsciente de me pilhar cada vez mais. Aquela mania de arranjar mil compromissos, sentir culpa ao recusar convites, e terminar reclamando da falta de tempo. Muito bonito ser responsável pela própria desgraça, não é mesmo? Culpei São Paulo por muito tempo pois se enganar é outra arte que domino com muita habilidade. O nome disso é simples: vida adulta. Às vezes releio uns textos antigos do meu outro blog e penso naquela inocência de não ter noção do que me esperava no pós-20 anos. O mecanismo parecia tão simples em teoria: terminar a faculdade, arranjar um trabalho ou continuar onde já estava, sair vez outra e pagar as contas. Mais ou menos como comprar passagens aéreas sem pensar em hotel e no dinheiro a ser gasto no destino.

Desconstruí o mecanismo dentro das minhas possibilidades e descobri o quão difícil é parar e respirar quando nos jogamos no meio do furacão. É como se até nosso corpo relutasse em aceitar que por vezes é preciso desacelerar. Ele teima muito e quando aceita e entende o quão problemático pode ser para você, se manifesta. Assim nascem a gastrite, a enxaqueca, ou qualquer outro tipo de mal-estar físico. Teu corpo te força a dar um tempo. Comigo aconteceu na forma de um joelho com diagnóstico de condromalacia patelar, mas já perdi a conta de quantas vezes tive crises pesadas de gastrite e rinite ao ser confrontada por problemas cotidianos. Foi importante dedicar meu tempo ao autoconhecimento porque hoje consigo pegar muitos desses sintomas antes de se manifestarem.

Quando entramos na vida adulta, muita coisa foge do nosso controle. Uma recomendação que sempre faço às amigas à beira de um ataque de nervos como eu é tirar um tempo para refletir e, se possível, pegar um papel e anotar todas as coisas que estão te incomodando no momento. Analise uma a uma. Escrever ajuda a observar com mais clareza. Você vai notar que muita coisa da lista pode ser resolvida com medidas simples – e dá até pra montar um cronograma em cima disso, colocando os itens mais “resolvíveis” no topo e deixando coisas a longo prazo para o fim da lista. Às coisas mais impossíveis, cabe refletir sobre alternativas para lidar com cada uma.

E claro, essa é a parte do choque de realidade. Pensamos em alternativas e as mais viáveis nem sempre são as que gostaríamos. Parte do processo de autoconhecimento consiste, aliás, em entender quais são os seus limites e respeitá-los.

Eu, por exemplo, me encontrei na escrita. Nada elaborado e com o intuito de ser publicado. De costume pego a agenda e escrevo uma frase mesmo, simples, curta e direta. Colocar no papel é como transferir um sentimento do corpo para outra instância. Na minha cabeça isso traz um pouco de conforto ao momento, mesmo que seja uma coisa rápida. Tem gente que vai colorir, correr, pintar, desenhar. Comigo funciona escrevendo.

Este primeiro post de 2017 é um convite às velocidades reduzidas, ao “dar tempo ao tempo”, respeitar o nosso ritmo – que nunca vai se adequar ao considerado certo pelos outros. Permitir-se parar antes que o corpo resolva pedir bandeira branca.

Ser vista

Já fui como uma boneca para minha irmã. Quando era pequena, ela me montava. Arrumava cabelo, maquiava, e fazia ensaios completos. Lembro pouco da minha versão pequena, tão desinibida e espontânea nos registros. Houve algum impacto na transição infância – adolescência, pois peguei horror de câmeras. Talvez fosse o efeito dos hormônios, eu não tinha mais a graça de uma boneca, fiquei disforme, meus cabelos entraram em uma longa crise de identidade, calças não me serviam, até a fala virou fiapo. Era assustadora a possibilidade de ter registros físicos daquela fase. Me esquivei ao máximo, como toda adolescente habilidosa. Até arrisquei ficar atrás das câmeras por um tempo e encontrei na atividade muito amor. Me dediquei por um bom tempo e nem me dei conta do momento em que a abandonei.

Ser fotografada outra vez – ainda mais agora, adulta, não passou pela minha cabeça. Até conhecer o trabalho da Pryscilla. Ela é de Brasília, um ano mais nova que eu, e de um talento sem igual. Vi em seu olhar muita delicadeza para fotografar o feminino. Cada foto transparecia poesia e melancolia. De imediato me identifiquei com essas características e arrisquei mandar uma inbox manifestando interesse em fazer um ensaio.

Pensei em minhas vivências e em quanta coisa me machucou ao longo de 2016. Foi um ano pesado para todo mundo, claro, e em meio a tantas desgraças tive algumas lições de amor próprio. Dei abertura para trocas, ouvi muita gente, opinei, e aprendi a aceitar elogios. Foram anos brigando com o corpo, me sentindo feia e, se não bastasse, apareceram pessoas pelo caminho que faziam questão de se aproveitar disso para me diminuir ainda mais. Aqueles comentários inocentes que enaltecem o quão magra, bonita e desejada você é podem tocar em questões sensíveis para quem possui baixa autoestima, fica a dica. A sociedade como um todo é bem doente da cabeça também, com esse anseio maluco de esfregar padrões na nossa cara. Sabe, ninguém se ajuda, ninguém vai TE ajudar. Aprender a gostar da imagem refletida no espelho depende apenas de você.

Entendi, a muito custo, que não era gorda, nem feia e que oras, essa obsessão por padrões não precisa fazer parte da minha vida. Passei a reconstruir minha imagem – e para mim, a quem isso de fato importa. Não foi um advento milagroso e nem passei a me achar a pessoa mais linda do mundo, mas agora respeito minhas particularidades e estou na luta para visualizar meus defeitos com mais carinho, deixar de lado essa coisa de ser tão agressiva comigo mesma. Deu vontade de guardar uma lembrança desta aceitação. De um dos pontos mais significativos deste ano, por sinal. Depois de tanto tempo batendo boca com a minha imagem e autoestima, consegui até abrir mão do tal estigma do egoísmo.

Queria alguém capaz de colocar minha essência nas imagens – não só essa beleza em vias de descoberta, mas também minha sensibilidade e todas as outras questões psicológicas que seguem aqui dentro e, em certa medida, despontam no meu corpo. A Pryscilla parecia a pessoa ideal para isso, e naquela época não conseguia mensurar o acerto da minha decisão.

Depois de acompanhar tanta gente descrente das perspectivas profissionais (me incluo neste time), ver alguém tão apaixonada pelo que faz foi algo bem próximo à experiência de entrar no mar pra renovar as energias. A Pry é dedicada a ponto de “investigar” o fotografado antes mesmo de agendar a data do ensaio. Trocamos muitos áudios no whatsapp. Nunca fui fotografada e desconhecia essa troca prévia, não tenho ideia de como funciona normalmente, mas não imaginava que ela pediria mais do que fotos de referência. De repente me deparei com uma pessoa preocupada de verdade em colocar nos retratos muito mais do que minha imagem. No dia do ensaio não foi diferente – conversamos muito antes de dar início à sessão. Ela foi cuidadosa o tempo inteiro, a ponto de conseguir me tranquilizar com essa ideia – até então muito maluca para mim – de ser fotografada.

Estar em evidência foi diferente e inesperado – no fim das contas gostei da experiência. Não senti vontade de olhar as fotos no visor ao longo da sessão, queria me deixar surpreender. E olha, o visor apresenta uma versão compacta, não dá para mensurar. Fiquei em choque quando recebi o arquivo com o ensaio completo. No primeiro momento não me reconheci. Era difícil acreditar que poderia transmitir tanta força no olhar e me achar bonita de verdade. Reconheci em cada retrato o melhor de mim. Foi como visualizar a Lidyanne de agora dando uma surra na Lidyanne que entrou na primeira sessão de análise repetindo a frase “eu sou muito fraca”.

Por isso digo: nunca subestime o poder positivo da imagem. Use a seu favor. Se você precisa de um empurrão para dar início a essa saga em busca de amor próprio, faça um ensaio – vale demais o investimento. E se for para fotografar com a Pryscilla, incentivo ainda mais a ideia.

Ela me enviou as fotos em um momento fundamental. Ao observá-las me senti segura para tomar algumas decisões, consegui acreditar na minha força e no meu potencial. Iniciei um trabalho diário para encontrar cada característica positiva vista nos retratos. Entrei em contato com a minha reflexão pós-meia maratona. Em todo o percurso, em especial após os 16k, comecei a proferir mensagens motivacionais capazes de ofuscar a dor nos pés. Foi uma sequência de “você não tem dimensão da sua capacidade”, “é mais forte que imagina”, “vai, você é valente e já aguentou tanta coisa, o que é uma corrida de 21k?”, e variações de tudo isso. Precisei daquilo para dar conta dos mini-saltos da corrida ao longo de duas horas e vinte minutos. Se eu conseguia acreditar nas minhas palavras para me levar ao pórtico no fim do percurso, por que era tão difícil me aceitar e dizer palavras positivas para mim no dia a dia?

As fotos deram corpo a essas frases. Agora basta me sentir para baixo para abrir essas fotos, olhar uma a uma, e não me deixar levar por pensamentos pesados e negativos. Amor próprio é construção, e para se colocar no mundo essa edificação precisa se sustentar. Ter essa segurança te ajuda a encarar o mundo com mais leveza, a se sentir mais humana perto de outras pessoas e aliviar a carga das cobranças sociais.

A condição de ser sozinha

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Ser sozinha é difícil, por vezes chega a doer, mas a gente se adapta depois de muitos anos fazendo parte dessa brincadeira. Já passou da questão de estado, não é sobre estar só, nunca foi algo temporário: é permanente. Já me incomodou bastante, mas depois de certa idade a gente deixa de achar um absurdo e entende que esse pesado “sozinha” pode ser tranquilamente uma condição humana. Via tanta beleza na solidão, achava até graça, conseguia fazer piada de tudo isso. Hoje em dia não desgosto, só me sinto mais conformada do que confortável.

A parte mais complicada desta condição é aquele nosso clássico tentar mudar de quadro, porque tem mudança que é favorável e possível, mas outras simplesmente não vão acontecer. A vida tem dessas, ela segue o seu curso, e esse caminho nem sempre condiz com a tua vontade mais íntima. Em muitas dessas tentativas eu quis me doar, ser amparo do outro, aquele lance meio masoquista de esmagar a sua felicidade e doar o que sobra pra quem não está bem. Me sentia muito útil, embora seguisse, a cada dia, mais esgotada. Era aquela equação furada do não tenho energia = pelo menos deixei alguém melhor. Nunca esperei nada do outro. Sou sozinha. Ajudava de bom grado. Até o momento em que comecei a sentir aquela coceira de poxa, poderia ser recíproco? Aceitei que precisava da troca com outra perspectiva – tem que haver reciprocidade, mas sabendo que nunca vai ser à altura. Outra conta que não fecha, mas sou o tipo de pessoa que nem percebe o quanto se engana o tempo inteiro.

Se brincar de tanto entalar, o saco ficou cheio. E uma hora esse saco estoura e não tem santo que dê conta da sujeira.

Dei um basta dessa espera que só servia pra me sugar energia e no momento me esforço pra transformar o “ser sozinha” em um estado permanente de amor próprio. E digo estado, porque condição é uma coisa que a gente adquire a longo prazo e com passos bem curtos – ou simplesmente nasce assim (não foi o meu caso).

Disso tudo aprendi que o egoísmo não é, necessariamente, uma coisa ruim. Se é para ser sozinha, que seja tendo um pouco mais de cuidado comigo. Então, se por ventura eu abrir mão de oferecer o bom e velho ombro amigo, não se ofenda: tô tentando me preocupar um pouco mais comigo do que com os outros, dado que nunca tive habilidade para isso. Quero pelo menos saber como funciona para decidir se quero mesmo seguir meu caminho como um ser humano pelo menos uns 70% altruísta. Porque ser 100% é um negócio que demanda muito desprendimento e, sinceramente, não vale a pena se esgotar tanto assim. Pode soar até um pouco arrogante, mas a ingratidão humana é um negócio tão insuportável que não consigo mais olhar e pensar que ok, um dia vou me adaptar e lidar de uma forma neutra com isso. Como toda transição, o corpo deve estar preparado para escoriações – e me desprender por completo daquele antigo perfil doador e receptivo tem doído até fisicamente. Essas coisas bem com tempo, e como já dizia Bowie, time may change me, but I can’t trace time. Quem diria, olha lá a máxima do vida que segue fazendo muito sentido.

Ser sozinha pode seguir sendo um conformismo, só espero que em algum momento possa abraçar minha condição pela perspectiva de alguém que se ama. Vamos ver se dou conta.

 

(este post faz um total zero de sentido e pode ser deletado no futuro, mas precisava desabafar)

Gaiola aberta

Você sabe que abraçou de vez a vida adulta quando para de se importar com pequenas picuinhas possíveis, como gostar de uma música da Sia, para exemplificar. E gostei porque vi o clipe e fiquei envolvida sem entender o motivo exato. Um Shia LaBeouf que no geral só me faz rir sendo levado a sério, uma Maddie Ziegler até então desconhecida (perdão, tinha pulado o Chandelier). Pode ser algo na movimentação dos corpos, pode ser a tentativa de emitir sons e gestos de dentro de uma gaiola, ou de ter uma gaiola larga o suficiente para poder atravessar suas grades mas ter medo de validar esse fato. Tinha aquela disputa, tão parecida com as duas vozes que guardo dentro de mim. Uma tentando aproximação, dar o braço a torcer, ceder por um momento. E a outra arredia, arisca, pronta para dar o bote. Thick skin, elastic heart. But your blade it might be too sharp. A gente se crê assim, de uma resistência incomum, de coração elástico, forte, mas sempre vai existir uma lâmina forte o suficiente para romper suas barreiras.

Foram anos pensando que curtir o silêncio e estar sozinha fosse um problema. Com a obrigação de ser “social”, estar rodeada de gente e ser amada. E acontece de não respeitarmos nosso ritmo: às vezes o isolamento é essencial. Não é definitivo, não significa abrir mão de companhias. Deixar-se ferir para aprender a se reerguer sozinha, sem essa necessidade urgente de se apoiar em quem estiver por perto.

Minha dor foi testada de todas as formas imagináveis. Inclusive provocadas por mim, na minha própria pele. Desde minha volta ao intercâmbio, quando aceitei melhor toda minha turbulência mental, passei a me sentir mais forte. Pois sim, passei por muita coisa, carreguei escoriações pelo corpo, e continuo aqui. Nem tão firme assim, mas viva. Oh, I’m still alive. Não por acaso resolvi criar a cicatriz justo na costela, na região mais sensível. Para provar a mim mesma que podem me atacar onde dói mais, que vou resistir e sair mais forte. Porque em 24 anos fui aprendendo a ser meio fênix.

Tardei a entender a necessidade de manter meu ponto de isolamento. Porque não adianta jogar a gaiola fora e ter e se colocar no mundo de forma tão ampla e constante. Quero ter sempre para onde voltar, e por isso tomei a liberdade de deixar a gaiola aberta. Existem os passarinhos livres, voando. Uns tantos deles. Ou a gaiola aberta de um lado e o passarinho voando em seguida. E oras, há quem precise de um espaço vazado de portas abertas, onde dê para transitar à vontade. Se isolar e se libertar conforme a conveniência.

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A arte é da Julia Bicudo. E sim, doeu muito, doeu pra caralho.

Como lidar com: Análise

The Hesitation Waltz, de René Magritte
The Hesitation Waltz, de René Magritte

Vocês podem perguntar o por quê de tanto auê com relação a análise. Por que raios tanta propaganda e insistência? A resposta parece simples: saúde mental é uma delícia. Vão por mim. Nunca entendi quem vê glamour em tomar antidepressivo, mas pela minha experiência vejo remédio como paliativo. Em casos extremos é necessário para dar aquele empurrãozinho para a pessoa. Pois sim, há quem nem consiga ir ao trabalho devido ao estado emocional. Então ajuda! Mas se não houver acompanhamento do analista é tudo meio em vão. Porque problema é aquela coisa que desponta quando você menos espera.

Na análise você vai descobrir um monte de coisas óbvias sobre si mesmo. Gosto de comparar com a leitura de um livro, quando ficamos intrigados com o título e ele magicamente aparece no meio do enredo. E nós ficamos com aquela cara de wow, aqui, no meio da história, esse título faz ainda mais sentido! Nas primeiras sessões você vive isso o tempo inteiro, batendo com a cara na parede por conta muuita coisa que estava clara o tempo todo sobre sua personalidade, mas você sempre ignorou ou nunca parou para reparar com calma.

A partir disso você passa por todo uma fase de autoconhecimento. Afinal, precisamos de uma base, um ponto de partida. Isso não se desenvolve de um modo linear – segue seu fluxo de pensamento. Você pode passar cinco sessões falando sobre seus conflitos atuais e, do nada, surgir uma lembrança da infância. Também é impressionante o modo como as coisas vão se conectando com o passar do tempo.

Nossa, muito sedutor isso aí. Mas tão caro, não é?

Amigos, como vocês se sentem quando alguém te pede um orçamento, você manda e a pessoa responde: “tá caro, será que não rola um descontinho, rs?”. Psicólogo/psicoterapeuta, como todos nós, estudou, fez especializações. Ele investiu tempo e esse dinheiro que o belíssimo pão duro tem tanto apego serve para pagar por todos esses anos de formação. O seu vestido novo, celular de última geração, tênis para corrida, todos foram caros também. Me dá um pavorzinho toda vez que alguém diz que não faz porque custa muito dinheiro.

Vai por mim: dá para encontrar bons profissionais por preços acessíveis às suas condições financeiras. Gente, sou jornalista, atualmente trabalhando como freelancer. Dinheiro não é abundante nessa vida, muito menos nessa área, e consegui dar um jeito. Você também consegue, vai por mim. Tudo é negociável. Existe a opção de fazer um número menor de sessões também. Enfim, conversem! Sempre dá para encontrar um jeito.

Meus amigos vão me zoar quando eu disser que tô na terapia, e agora?

Olha, vem cá, chega mais: em alguns momentos da vida é preciso mandar o amiguinho para o inferno. Isso mesmo. Maravilhoso ter amigos, mas antes de qualquer coisa: a vida é toda sua. Ninguém precisa meter bedelho e julgar suas escolhas. Tá aí outro negócio incrível que aprendemos com a análise: nós somos donos de nossas vidas e precisamos aprender a lidar com nossas escolhas por conta própria.

Já tive esse defeito. Pensava tanto nas possibilidades de julgamento que demorei 24 anos para dar um jeito nessa vida e agora estou aí tentando correr atrás do prejuízo. Se a pessoa acha absurdo você investir em análise pode ser o caso de repensar sua amizade, só uma dica.

Legal, estou convencido. Como proceder?

Minha sugestão é procurar contatos com amigos. Converse, tente conhecer qual linha o analista segue, dê uma pesquisada. Eu sou fãzoka assumida de Jacques Lacan e não consigo me imaginar fazendo análise com uma linha diferente. Mas isso TAMBÉM é bem pessoal, se vocês quiserem posso até fazer um post geralzão explicando os princípios de cada linha. Pesquisar é fundamental! Conhecer um pouco da análise dos seus amigos que querem te passar uma indicação também.

Peça sugestões sem medo! Porque escolher meio a esmo é complicado. Você pode dar sorte e se identificar logo de cara, ou ser meio decepcionante e você não querer voltar nunca mais. Ah, vale dizer: se for decepcionante e a análise for um fardo para você, troque. Troque até achar um analista com o qual se sinta à vontade para desabafar.

Lidy, mas eu morro de vergonha de falar sobre coisas pessoais ):

Migos, nem todo mundo tem facilidade, fiquem tranquilos! Isso é algo, por vezes, que leva tempo. Por isso é tão importante achar um analista que te deixe à vontade. Lembrando que o profissional não faz milagres. Ele está ali para te orientar. Ele vai te guiar a partir do que você conta. Por isso é tão importante não omitir nada e ir perdendo o receito aos poucos. Acima de qualquer coisa, é um profissional. Ele não vai te zoar (se fizer isso, estranhe), não vai fazer nenhum tipo de julgamento. Ele quer te conhecer justamente para encontrar a melhor forma de te ajudar a mandar essa angústia para longe.

E se serve de incentivo, ele não é da tua roda de amiguinhos. Pode contar seus causos mais escabrosos, não vai sair de lá DE VERDADE. Confia ❤