Mais um conto da vida adulta

As têmporas latejam. Esses dias em que já acordo com dor de cabeça são os piores. Fica a dúvida se foi a exposição ao celular antes de me deitar, puro efeito de noite mal-dormida, ou alguma virose que se instala aos poucos. Ser adulto é este acúmulo de angústias e incertezas. Uma dor mínima descamba para algo maior sem esforço e toda forma de cansaço parece triplicar sua potência conforme a idade avança. Esses tempos até me peguei pensando se aguento até depois dos cinquenta, pois se já estou neste estado aos trinta, o corpo deve pedir recall ou se desligar por completo a qualquer momento. 

Minhas palavras soam exageradas, até sinto repulsa. Falar sobre o que nos é mais íntimo e um pouco cruel e causa desgosto, visto que só os discursos cheios de floreios ou pontuados por lições de superação são acolhidos com apreço. 

A minha verdade, todavia, é essa. Os adultos me enganaram como ninguém, vendendo uma postura de fortaleza resistente. Enquanto crescia, quase não vi pessoas mais velhas em prantos. Quando percebia alguém chorando na rua, ou no transporte público, notava o quanto a pessoa parecia constrangida. Na minha cabeça inocente a matemática era simples, e envolvia ter uma profissão formal, cumprir horário de trabalho e passar um tempo com a família nas horas livres. 

Os olhos nunca tiveram descanso, o cérebro em constante atividade tampouco, portanto nunca deixei de notar alguns pesos, sobretudo emocionais, que recaíam sobre algumas pessoas da família. No entanto, mais uma vez, os adultos pareciam tomar uma atitude revolucionária e sumir com problemas de qualquer natureza. 

Em algum momento entre os 18 e 19 anos, quando paguei meu primeiro boleto com o salário do estágio, tive meu primeiro estalo de que ser adulto tinha um gosto amargo. Um lado meu se sentiu responsável, auto-suficiente, potente. A empolgação logo esmaeceria, pois uma responsabilidade desta envergadura é carregada de culpa. Na minha cabeça, as inquietudes pipocavam. Conseguiria cobrir minhas necessidades e ainda ter uma grana para o lazer? Seria o salário suficiente? Será que eu era boa o suficiente para almejar uma promoção no futuro ou conseguir um emprego melhor? 

Após sete anos trabalhando como assessora de imprensa, um mestrado e uma carreira tão caótica quanto um temporal, essas questões não só povoam meu cotidiano como me tiram boas noites de sono. 

Será que em algum momento viramos a chave e ser adulto se torna um pouco mais leve?

Hoje não deu

Dias de outono despertam ligeira letargia. O sol preguiçoso, a impressão de que ainda é noite embora já seja mais de nove horas. Movimento fraco, bicicletas se deslocam gradualmente, algumas poucas pessoas aguardam o ônibus na parada. As ruas estão cobertas de folhas seca, é preciso prestar atenção aos passos para evitar escorregar. Mesmo os patos que povoam um dos lagos do início do trajeto decidiram ficar em outro lugar longe daqui. 

Logo compreendo o porquê. Após quase um quilômetro correndo, percebo precipitações leves. Com o corpo já aquecido e exposto além dos muros de minha residência, decido continuar. Correr mais quatro quilômetros debaixo de garoa não dói tanto assim, sobretudo ante ventania tão calma. 

Mais adiante, uma mulher e um homem se protegem da precipitação como podem debaixo das respectivas capas de chuva transparentes. Um carro freia e aguarda uma mulher, acompanhada por sete crianças, atravessarem a faixa de pedestre para então efetuar a curva à direita. Passo na frente de um prédio com um letreiro corrido, em letras vermelhas, que me conta que estamos no dia 25 de outubro, e são 9h15.

Tenho música nos fones, mas consigo ouvir o silêncio das ruas. Finalizo o trajeto no modo automático, deixando o corpo se levar sozinho na direção de volta para casa.

O dia ensolarado de ontem claramente levou consigo a inspiração para rabiscar qualquer besteira neste espaço.

Retrato de natureza serena e sem precipitações

Quando fui assistir Jojo Rabbit no Pathé Buitenhof, um de meus endereços favoritos em Den Haag, me impressionou a quantidade de pessoas nas ruas. O tempo honra a imprevisibilidade na Holanda, portanto nossa garantia de um dia ensolarado em um fevereiro invernal era quase nula. Estacionei a bicicleta na frente do cinema um pouco em cima da hora, mas ainda em tempo para comprar pipoca e me instalar na sala. Estava com um casal de amigos, e copiamos os locais ao fim da sessão. Encontramos um terraço com mesas livres e nos instalamos para tomar um café e tirar proveito desta figura tão ausente, o sol.

Foi em fevereiro de 2020, quando a pandemia ainda era uma ameaça e não parecia tão séria.

Comentei, na ocasião, que era curioso ver o quanto os holandeses se desdobram para aproveitar um dia de céu limpo. Pareceu exagero quando visitei o país sem ter a menor ideia que um dia o chamaria de lar. Porém bastou um par de meses para capturar cenas incríveis e entender como ninguém o desespero por um mínimo filete de sol.

Ao longo do inverno, independente dos termômetros marcando temperaturas nada amenas, se o sol faz uma aparição surpresa, todos correm para as ruas. As pessoas preparam lanches para comer nos parques e florestas, o pessoal dos esportes vai até as dunas pedalar com os gambitos de fora, os terraços tornam-se disputadíssimos. Em Den Haag, onde moro, há mesmo quem arrisque jogar a canga sobre a areia e curtir o sol na praia.

Vacinada e após quase dois anos apreciando as raras aparições do sol no terraço de casa, hoje faço tal qual os locais. Qualquer dia com o sol no talo é deixa para caminhar no bosque próximo daqui, ou me sentar em algum terraço para tomar café e sentir o calor solar tocar meu rosto.

Minha sorte é ter meu primeiro domingo de folga em meses justo em um dia outonal de beleza tão complexa em ser descrita.

Hoje minhas irritações também descansaram. Viajei nos delírios de Escher, quase dois depois de adiar minha visita ao museu no Het Paleis, tomei mimosa às três da tarde, caminhei nas imediações do nosso antigo endereço até os pés pedirem arrego. Observei a vida acontecer e me senti ligeiramente mais próxima dos locais por compartilhar do sentimento de coração cheio ante uma natureza tão serena e sem precipitações.

Se perdi o sono neste início de domingo, já nem me lembro mais.

Dispensa filtros ♥️

Corpo em movimento

Em uma realidade pré-pandêmica, os estudos me levaram ao interior da França em setembro de 2017. Cheguei devagar e me dei tempo para resolver burocracias e me instalar antes de começar a criar uma rotina. Não tardaria. Já havia preparado muita coisa antes da mudança, morar e estudar em uma cidade tão pequena te ajuda a criar hábitos com certa rapidez. Em dezembro já me inscrevi na academia mais próxima de casa, queria produzir endorfina o suficiente para não me sentir tão abatida pelo inverno cinza e depressivo de Montbéliard. 

Praticar atividade física faz parte da minha rotina há anos. Tive minhas fases, mas posso afirmar que foi uma constante em minha vida. Academia funcionava para mim, portanto batia o cartão no mínimo três vezes por semana e intercalava cardio com treinos de força. Já treinei desesperada para perder peso ou para compensar um dia de comilança abundante? Claro. Na maior parte do tempo, porém, o exercício físico era um aliado para cuidar da saúde e me sentir mais ativa.  

Até entrar na turma do pessoal das corridas. Peguei gosto pela atividade, pois encontrara enfim um esporte que poderia encaixar no meu cotidiano e que não dependia de equipamentos ou de gente para praticar. Talvez um bom par de tênis demande investimento maior, porém dura tanto tempo que não pesa tanto no bolso. Amava correr pelas ruas de São Paulo, mas se as condições meteorológicas não ajudassem era só substituir o asfalto pela esteira. Era uma atividade prática e acessível, embora viesse com seus contratempos. Correr mais de dois minutos seguidos sem andar não foi intuitivo, exigiu treino e perseverança – todavia isto é assunto para outro momento. 

Minha paixão extrapolou limites e ousei longas distâncias. Completei duas meias maratonas, mas um dos meus joelhos cansou mais rápido que eu e fui forçada a interromper as atividades por um tempo. Imagine uma pessoa que corria três, quatro vezes por semana obrigada a não praticar nenhuma atividade física por um tempo, e tendo como única opção a bicicleta ergométrica ao retomar. Um horror sem fim. 

Este período foi o primeiro semestre de 2017, portanto curei a agonia de não poder correr com a preparação ao mestrado. O ortopedista liberou as corridas pouco antes da minha partida, solicitando apenas que limitasse as distâncias a 10 km. 

Uma senhora quebra de rotina, digamos. Assimilar minha nova realidade não era uma tarefa fácil e a cabeça estava quente demais para cogitar voltar ao meu ritmo de outrora em São Paulo. Durante todo o período em Montbéliard, um ano e seis meses, tive constância nos treinos. Caminhava meia hora diariamente para ir até à faculdade e repetia o processo na volta, o corpo estava em movimento. Já não podemos fazer tantos elogios à minha alimentação. Usufruí com classe dos meus últimos anos de metabolismo eficaz, comendo muitas baguetes e quiches, me permitindo kebabs e docinhos de vez em sempre. 

Até me mudar para Annecy, onde realizei meu estágio, etapa final do mestrado. Morava em um apartamento de 18 m2, sem academias por perto, e deveras fragilizada emocionalmente. A paisagem me convidava a praticar exercício ao ar livre, mas minha cabeça andava tão desgraçada que não sobrava disposição. Após muitas frustrações, encontrei meu namorado, uma luz no fim do túnel. Nossos encontros foram permeados por muita bebida e comidas nadas saudáveis. Em resumo, foi um ano inteiro de puro sedentarismo e comendo sem nenhum filtro. Não limito contra nem a favor certas categorias de comida, uma de minhas atividades favoritas É comer. Entretanto, naquele período consumia com frequência tudo que até então era exceção. 

Ao me instalar na Holanda, poucos meses antes da pandemia eclodir, deixei o bonde andar. Sucumbi sem hesitar, sobretudo ante o confinamento e todas as incertezas proporcionadas pela pandemia. Levei um ano inteiro para cogitar mudar o cenário, e só após conseguir um emprego fui atrás de uma nutricionista e alguns treinos para fazer em casa. Comecei a trajetória em março, quando me comprometi a me exercitar diariamente. Queria manter o meu corpo em movimento, e para tornar minha missão possível intercalei treinos mais intensos com alongamentos. Para este segundo ano de pandemia, digo com segurança que o esporte me salvou. Se não fosse minha produção diária de endorfina, não daria conta da rotina. 

Me tornei a adulta que se levanta diariamente às 6 da manhã para fazer exercício. Só funcionou porque se tornou meu momento. São 30 – 40 minutos que tenho comigo, onde a sensação de estar me cuidando prevalece. Me provocou um bem tão absurdo que hoje em dia já acordo antes do despertador, animada pelo treino do dia. Sentimento que nunca experimentei, mesmo nos meus três anos de amor constante pela corrida. 

Nesta manhã, no entanto, foi um desses dias onde o corpo esteve muito próximo de pedir arrego. Desde o início do acompanhamento com a nutricionista dei vários furos, nada mais normal para quem experimenta um paciente período de readaptação. O exercício exigiu pausas quando recebemos visitas e tivemos imprevistos, portanto os resultados seguem preguiçosos. Agora sou uma mulher de trinta anos com metabolismo preguiçoso, e uma das maiores vantagens da idade é respeitar meu ritmo e aceitar que os resultados não surgem do dia para noite, e que isso não é — e nem deve — ser o fim do mundo. 

2021 foi um imenso salto de fé no meu cuidado físico. Amo o processo de me cuidar, reaprender sobre meus limites e o que me faz bem. Construir o entendimento de que em alguns dias só sairá na força do ódio, conforme aconteceu hoje, e em outros trocarei o tapete de exercícios pelo sofá.

Registro suado pós corrida, quando voltei a correr no meio do ano ♥️

Viagens meditativas

Acordar no meio da madrugada e perder o sono é tão ruim quanto despertar de um pesadelo. Quando acontece comigo, me encontro em um estado confuso. Uma mistura confusa de sonolência com lucidez me empurra em direção a questões perturbadoras de toda natureza. Situações mal resolvidas, problemas de trabalho, pendências que não consegui resolver em tempo. Aquela memória de dois mil e dez que ainda causa constrangimento, a angústia de querer me empenhar a aprender holandês e não conseguir me motivar. Os incômodos se encontram e debatem no meio a insônia. É como se eu me sentasse com a minha mente e começássemos a destrinchar uma série infinita de pendências. 

O estado sonolento não ajuda, pois os pensamentos são mais potentes e tomam conta de qualquer racionalidade que me ajude e relaxar e voltar a dormir. Quando morava sozinha, aproveitava o primeiro momento de lucidez para pegar meu celular e procurar alguma meditação para ajudar a pegar no sono. Usava o Headspace como guia, e os resultados quase sempre eram eficazes. Agora que divido uma cama não quero impor minhas meditações, tampouco a luz do smartphone na cara de meu parceiro, portanto foi necessário partir para métodos alternativos. 

Ainda não atingi o nirvana e passo longe da possibilidade de me tornar um ser humano de luz, portanto meditar em silêncio é um desafio. Minha dificuldade de concentração uma coisa de outro mundo. Preciso de música ou de alguém guiando. Busco, entretanto, uma forma de trazer algumas técnicas de meditação para remediar a insônia. Começo pelo gancho da imaginação. Escolho algum parque e me imagino nele, deitada na grama enquanto ouço os pássaros e observo movimentações da natureza. Quando consigo me sentir cem por cento no cenário, dobro a concentração e me volto à respiração, fazendo alguns exercícios de relaxamento. 

Inspirar e expirar prestando atenção na respiração e afastando pensamentos nocivos tem a sua relevância. A ansiedade ao menos sossega, e me ajuda a focar no que interessa, que no caso é voltar a dormir. Viajar para longe é igualmente eficaz. Às vezes substituo o parque por algum local calmo visitado no passado e me vejo por lá. Vira uma espécie de spa mental. Se você caiu neste texto buscando a solução para noites mal dormidas, vale a tentativa. Não dá para esperar um milagre e nem sempre resolve, mas pode auxiliar a abrandar as angústias e se desconectar das obrigações. 

Se o cérebro ri da cara do meu empenho meditativo, quem sou eu para insistir? Antes pegava o celular e bisbilhotava a vida alheia até perder o último fio de sono. Não recomendo. Costumava me deixar com muita dor de cabeça ao longo da manhã seguinte, possível efeito da exposição à luz fria da tela no meio do escuro.

Agora saio do quarto, pego uma manta, me aconchego no sofá e dou continuidade à minha leitura atual. Se tem algo que fiz este ano foi retomar o hábito de leitura. Engato um livro no outro que é para não dar brecha a confusões na hora de escolher o próximo título. Impossibilitada de viajar pelo método meditativo, confio a missão aos livros. A escolha do momento, por sinal, me permite viajar sem sair de casa com imenso primor. Um amigo me emprestou Less, de Andrew Sean Greer, e é uma delícia poder viajar junto ao sofrido protagonista. Agora, por exemplo, estamos em Torino, cidade que adoraria visitar outra vez.

Hoje, entretanto, a insônia deu trégua e me antecipou só 15 minutos do planejado despertador. Atendi ao chamado, mas desta vez estendi o tapete de exercício e levantei alguns pesos. É preciso começar a produção de endorfina bem cedo caso queira ter energia suficiente para responder um monte de clientes reclamões das nove às dezessete.

Meu companheiro de leitura do momento

Biografia de minhas chuvas


Existe uma aura poética na sequência onde Gene Kelly, com um sorriso no rosto, pula de um canto ao outro cantarolando Singing in the rain. Trajando terno e com um guarda-chuva preto a tiracolo, ele dispensa o táxi e usa o objeto como parte de sua performance. Ele parece genuinamente feliz, celebrando uma alegria gloriosa e quase tirando sarro da chuva. A cena é tão famosa que muita gente a conhece sem nunca ter assistido ao filme homônimo. Gostando de musicais ou não, é difícil não se contagiar com tamanha felicidade. Dá vontade de fazer igual.

Hoje, ao me lembrar desta cena, penso no quanto só estando muito chapado de endorfina para conseguir mandar a chuva às cucuias e se curtir tanto. Chuva, para mim, é sinônimo de incômodo. Detesto a sensação de caminhar com as roupas encharcadas e me enerva ainda mais não poder usar óculos por conta da invasão de pequenas gotículas de água. Se tem ventania e frio, o nervoso aumenta. 

Penso muito na biografia de minhas chuvas. Quando ainda morava em Campo Grande, cidade natal e berço dos meus anos jovens, havia certo teor poético. Já cheguei a pegar chuva de propósito, pois queria sentir o êxtase que lia nos livros ou observava nos filmes. Nenhum xodó veio me beijar ao som de Hear you me, portanto embora vivesse uma ficção impecável em minha mente, o cenário se limitava a uma adolescente portando uniforme escolar e toda desgastada pela chuva. Ser carregada pelos meus pais e poder usar carro para tudo em uma cidade pequena garantia certos privilégios.

Já em São Paulo, ganharam um novo tom melancólico. Ficava pensativa, se coubesse ao momento preparava um chá e curtia o som da chuva enquanto escrevia ou lia. Na capital paulista, todavia, o carro deixou de compor a paisagem pessoal, o que me expunha a eventuais tempestades no caminho de volta da faculdade ou do trabalho. Tomei cada banho! Sem contar no número de vezes em que um trajeto de meia hora de ônibus se transformava em quase duas horas parada no trânsito.

Na França a experiência era tal qual a paulistana. O romantismo morrera anos antes desta mudança, e não seria o cheiro de baguete recém-saída do forno que melhoraria as condições. Chegava a ser pior, pois no inverno a chuva também se transformava em tempestade de neve e tudo ficava ainda mais escorregadio. 

A temporada atual é ambientada na Holanda, onde mais chove do que faz sol. Enquanto cobria a cabeça com o capuz da capa de chuva esta manhã, examinei brevemente a vida acontecendo inundada de preguiça à minha frente. A chuva é intrínseca ao país e os locais nascem sabendo disso. Um aguaceiro não impede o holandês de sair de casa. Afinal, as crianças precisam ir à escola, os pais ao trabalho, e mesmo um eventual restaurante entre amigos não será cancelado por conta das condições climáticas. O número de pessoas que vejo diariamente pedalando, ou mesmo pedalando e carregando sacolas debaixo de chuva não tá na história. 

Quiçá sinto uma ponta de inveja de tamanha indiferença. Para mim, é preciso estar feliz demais da conta, tal qual o personagem de Gene Kelly em Singing in the rain, para ficar embasbacado e curtir como se fosse algo tão digno de apreciação. 

Atingir esta familiaridade talvez até ajudaria a rever a chuva com bons olhos. Assim como fiz esta manhã, ao ser surpreendida por Irene, de Rodrigo Amarante, que tocava em uma de minhas livrarias favoritas. Tomei meu café revivendo memórias enquanto espreitando o vento e a chuva causando na calçada. Fico me perguntando se em algum momento a chave há de virar e minha trajetória com as chuvas seguirá seu caminho rumo a um final feliz. Será que uma hora deixarei de me importar e a encararei como mero detalhe? 

Enquanto a bandeira branca entre a chuva e mim não chega, encaro o turno noturno do trabalho pensando no quanto gostaria de estar em um cenário confortável agora. Algo digno de pinterest, debaixo de uma coberta quentinha, com um livro, tomando um chá, e podendo até ter um som de tempestade de trilha sonora.

Imagem meramente ilustrativa de um passeio acompanhado pela dita cuja em Brugges, na Bélgica

Fazer da escrita hábito

Em uma manhã chuvosa de quarta-feira, é inevitável seguir o fluxo. Não sobra espaço para raciocínio lógico ou tomar uma decisão própria. Quando as portas do metrô se abrem, segue-se o fluxo de pessoas que se distribuem espontaneamente entre a escada rolante e a tradicional. Num balé nada sincronizado os cartões dançam pelos leitores e as portas mal se fecham. Mais alguns passos e outro lance de escadas nos coloca para fora das paredes da estação Beurs, onde as imediações do Maritime Museum nos acolhe com ventania e chuva intensas tão típicas de cidades portuárias. Jeito nada sutil de afastar o estado de sonolência de qualquer proletariado. 

Observo o céu carregado, transitando do azul-escuro para cinza. São quase nove horas da manhã, porém estamos em outubro e o outono já deixa o sol mais preguiçoso. Fecho o zíper da capa de chuva até a altura do pescoço e abro meu guarda-chuva antes de atravessar parte de Westblaak em direção ao escritório. Nesta caminhada me peguei pensando: e se todo dia abrisse a plataforma do blog e escrevesse qualquer besteira, e repetisse a ação por vinte e um dias seguidos? 

Pensei na proposta compartilhada por Dani Arrais no início de julho, sugerindo escrever uma página por dia durante vinte e um dias. Combinado com os inúmeros empurrões das oficinas promovidas por Tayná Saez, que nos motiva a escrever sem amarras, pensei ser este um bom ponto de partida para trazer vida ao Lidy com isso outra vez. 

Entretanto, para tornar o projeto possível, flexibilizei a sugestão. Não haverá um mínimo de caracteres ou parágrafos. A ideia é abrir o editor de textos diariamente e agrupar as palavras com o que me vier à mente. Poderá ser uma crônica, ficção, desabafo breve. Sem grandes edições, tampouco ambições O intuito é me motivar a fazer da escrita hábito, deixar o processo um pouco mais fluido. Se no futuro algum destes rabiscos me inspirar a escrever algo mais elaborado, melhor ainda.

Instalada no escritório há algumas horas e após digerir esta proposta, observei o céu clarear enquanto escrevia estas linhas entre um respiro e outro das obrigações do trabalho.  A playlist de gosto duvidoso do meu chefe está modo aleatório e acaba de mandar um lovin’ you, de Minnie Riperton. Minha nostalgia ficou abalada e fui forte o suficiente para conter o riso, pois mentalmente parti sem escala para este vídeo.

Enquanto não viro um fungo perante a ausência de sol e o excesso de chuva, preciso balancear o estoque de energia para ter alguma força até o fim do expediente. Por hora, embora tente pensar em qualquer coisa motivadora, só consigo contar as horas para me deitar e dormir novamente. 

Devo culpar o clima ou é só uma onda depressiva de maior impacto?

Corona Diaries #12 – Experimentando olhares, reinventando saídas

De Edward Hopper

Como transformar o ordinário de dias tão similares em algo extraordinário? Gradualmente o movimento volta ao normal. Ou novo normal, para quem é deste time. Os bares, cafés e restaurantes agora podem acolher o público sem exigir reserva prévia, tanto no terraço quanto do lado de dentro. Os cinemas e museus abriram as portas, espero sujar o novo par de Vans em veludo verde em algum momento desta semana. Ainda tenho percepções desconfortáveis dos arredores. 

Um pouco como animais que se camuflam para se proteger de predadores e deixam só as pálpebras se moverem em ritmo lento, discreto. Um olhar aterrorizado e todavia atento, à espera de algum sinal que passe segurança para dar um passo adiante.

Faço meus desbravamentos de pouco em pouco acanhada, e noto o quanto meus devaneios já não se vestem da mesma forma. Eles perderam o traquejo social, desacostumaram a xeretar a vida alheia e perder horas configurando insanos cenários. Uma hora há de voltar, os músculos foram postos a jogo e apesar da preguiça e do mau jeito vão reaprender a se mover sem tantas amarras.

Ficar enclausurada me fez abrir os olhos para o lado de dentro e criar outro entendimento da base. As incursões ao mundo exterior também foram capturadas, cada uma à sua maneira, para serem degustadas aos poucos no conforto do meu endereço. Hoje mesmo, enquanto girava a maçaneta da porta ao voltar do supermercado, percebi a borracha da campainha desgastada e questionei quantas vezes ela foi pressionada, com que urgência, se foi por carta ou por visita. 

Desde a mudança, virou um portal de inúmeras encomendas, diversos mimos para deixar tudo com nosso toque, e umas tantas inutilidades, pois nossas fugas também ocupam o espaço de um carrinho virtual. Com muita alegria, por conseguinte, me alegrei ao ouvir a caixa de cartas devorar o envelope cujo remetente era Prefeitura – meu convite formal para tomar vacina contra COVID-19. 

Fico tal qual Matilde Campilho escreveu um dia, metade folia, metade desespero. Saber o quanto minha vez na fila estava próxima foi fonte da mais gostosa euforia. E no entanto me atropelo em angústias e despreparo, poisme parece uma possibilidade remota pensar num futuro próximo e esboçar quaisquer planos concretos.

Até lá, vou ceder mais brechas ao meu eu expectador. Deixar ver, montar quebra-cabeças e fazer misturas de dar orgulho a qualquer surrealista. 

Permitir ao mundo que venha até mim. Recuso-me a ir em sua direção, a engajar riscos. 

De mim não parte. Quero sentir como vai se achegar, de que forma vamos combinar nossos passos de dança contemporânea para dar tom extraordinário ao já nem tão ordinário assim.

No meio da viagem no tempo tinha um coelho esquisito

Passei anos resistindo ao ato de rever filmes, tudo por pura preguiça. Nada de novo sob o sol, como diria Caetano Veloso. Até juntar meus trapinhos com uma pessoa que adora rever seus filmes prediletos E ficar presa em uma pandemia eterna algum tempo mais tarde. De tanto repetir os dias me apeteceu a ideia de revisitar algumas joias da minha adolescência e olha só, quem diria, tenho achado a experiência maravilhosa. Alguns destes títulos ainda tenho em DVD, perdidos em alguma caixa na casa dos meus pais, mas como eles seguem a um oceano de distância me viro como posso com os serviços de streaming. Uma tarefa por vezes hercúlea. Um lado meu quer muito dar uma chance às novas produções, outro prefere o conforto de revisitar lugares conhecidos.

Sendo deveras sincera, dá para sentir que a prioridade do momento é financiar um monte de filmes sem alma. Neste caso fica mais fácil partir para uma obra que já assisti algumas vezes, ou que foi lançada há bastante tempo e ainda não tive ocasião de assistir. Quiçá o problema more em mim, e meu brilho nos olhos se dissipou de tanto ler notícias, minando também minha capacidade de me envolver o suficiente com obras ficcionais inéditas.

Tive também uma influência externa: o podcast Segunda Mão, de Jessica Correa e Thiago Guimarães. Me enchi de doses de nostalgia enquanto eles papeavam sobre alguns clássicos dos anos 2000, até chegar no episódio sobre Donnie Darko (2001, direção de Richard Kelly), que me arrebatou sem dó nem piedade.

Não me sinto apta a dizer do que se trata sem dar spoilers. Isso me levou a questionar o que seria um spoiler de Donnie Darko e se existe uma explicação lógica para o filme. Há muito conteúdo interessante nos textos e vídeos que buscam explicar o final, mas quando uma história gira em torno de conceitos sobre viagem no tempo e tem uma pegada de ficção científica, seria um erro se ater tanto aos detalhes. Minha expectativa ao rever Donnie Darko era embarcar na brisa do filme e deixar espaço para criar umas teorias malucas na minha cabeça.

O longa foi lançado nos anos 2000, mas se passa nos anos 80. Tem uma ambientação meio cafona, típica do período, e uma trilha sonora isenta de defeitos. Nasci em 91, então não posso dizer que vivi e tenho lembranças da década de 1980. Mas vi muitos filmes e videoclipes deste período e posso dizer que Donnie não deixa a desejar e passa muito bem como uma história que poderia ter acontecido naquele período. Até os cortes de cabelo e penteados reforçam o cenário! A sequência de abertura ao som de The Killing Moon me deixou arrepiada. Nos primeiros minutos do longa já deu para sentir que aquela seria a minha viagem no tempo, com destino final a minha pré-adolescência.

O protagonista, que dá nome ao filme, toma remédios e faz acompanhamento com uma psicóloga. Não sabemos exatamente o que ele tem, embora haja uma leve menção a uma possível esquizofrenia. Ele possui uma aura melancólica, mas é um jovem desbocado. Dando um pouco mais de contexto, ele ainda está na escola. Aquele típico cenário de high schools americanas, onde meninos e meninas tidos como esquisitos sofrem bullying e os rapazes ‘descolados’ (estou usando gírias de velhos propositalmente) se sentem os donos do pedaço (eu avisei). Os docentes parecem advir de meios conservadores, e reproduzem isso no comportamento escolar. Donnie está cagando para todos eles, e rebate adultos e adolescentes quando o convém.

Conforme a história progride, fica evidente o quanto todo mundo está, de alguma forma, perdido ou angustiado. Durante diversas passagens senti vontade de dar um abraço ou um chacoalhão em alguns personagens, esquecendo até de me questionar sobre o que raios este cara fantasiado de coelho pretende fazer. Sentir a melancolia destes seres perdidos bateu com força a ponto de não me parecer relevante questionar se o coelho era real ou uma mera projeção da cabeça afetada de Donnie. A tal velha maluca, por sinal, me deixou com o coração apertado na cena em que ela se aproxima de Donnie e anunciar que todo ser vivo neste planeta morre sozinho. Coloquei a tradução em itálico porque o print está com legenda em holandês, eu sei, faço uns esforços doidos nesta vida às vezes (mas isso é assunto para outro post).

Enquanto adolescente, devo ter falado sobre a genialidade deste filme a todos que me perguntassem, ou o quanto me impressionei com a forma como o conceito de viagem no tempo aparece tão carregado de melancolia. Revendo agora, aos 30, quase não abri os olhos para o aspecto e ficção científica do negócio. Acabei o longa triste e abatida. Por mais esquisito que Donnie seja, me apeguei e sofri junto. Por mais debochado e nem aí que ele aparente ser, ele sente demais o quanto o mundo o afeta, e reforça o quanto a transição da adolescência para a vida adulta pode doer. Dói tanto que talvez valha o sacrifício de dar fim à própria vida para não precisar ultrapassar esta passagem até o ponto final.

Donnie ainda consegue expressar muito do que lhe congestiona o peito, enquanto acompanhamos os adultos engolindo o seco e silenciando, muitas vezes, o que poderiam expressar para dar fim a diversos pequenos problemas. Dentro do núcleo adulto dá para sentir o quanto pequenos conflitos internos não resolvidos se acumulam a ponto de te deixar sem alternativas além de dar um grito alto que talvez não resolva o problema, mas ajuda a aliviar todas aquelas dores internas. Drew Barrymore, maravilhosa, eu gritei junto com você nesta sequência:

Depois de ficar em frangalhos com minha experiência Donnie Darko, precisava de um pouco de sol. Por algum motivo obscuro essa história de viajar no tempo sem um mega fundo científico me levou a De Repente 30 (2004, de Gary Winick).

Vamos voltar aos meus primeiros anos de adolescência. Até meus 13 anos assistia filmes por diversão. Tinha minhas preferências, é claro, só o dono da única locadora de Cassilândia sabe a quantidade de fitas VHS com musicais da Disney que devolvi prontamente rebobinadas. Entretanto na transição dos 13 aos 14 já morava na capital, onde o acesso a cultura era maior e passei a encarar o cinema com outros olhos. Na época, passei tardes inteiras trocando ideais e referências com os atendentes da finada MB locadora. Era bom demais estudar só pela manhã e ter tempo livre de sobra, inclusive saudades.

Graças a eles assisti a uma caralhada de filmes, digamos, conceituais. Era uma fase de descoberta, talvez tenha visto muita coisa que na época me pareceu cabeçuda demais e não entendi nada (oi, Lynch). Porém descobri o trabalho de diversos diretores que encontraram um lugar especial no meu coração e desde então não deixei de acompanhá-los. Foi uma fase importante, é fato. E se Donnie Darko entrou no hall de preciosidades cinematográficas, De Repente 30 cairia por terra nos meus critérios. Mas me encontrava em transição, e minha personalidade ainda confusa deixava passar muitos filmes considerados toscos pelos intelectuais. Coincidentemente, o longa foi lançado quando eu também tinha 13 anos como a protagonista, Jenna, e me achava madura demais para a minha idade. Passava horas confabulando sobre o meu futuro brilhante como escritora, mentalizando thirty, flirty, and thriving com a mesma veemência de Jenna.

Tantos anos mais tarde com 30 anos recém-completos, estou bem longe de qualquer prosperidade, e embora tenha encontrado um rapaz muito especial e esteja comprometida, se houve algo que quase não fiz ao longo destas três décadas de existência foi flertar. Quiçá por não ter passado nem perto desta glória pela qual Jenna tanto aspirava, me pareceu simbólico pegar o filme para rever agora, nesta última curva antes dos 30.

Ouso dizer: De repente 30 é uma explosão de amorzinho e felicidade se colocado ao lado de Donnie Darko. Porém Jenna precisa passar por um purgatório semelhante ao de Donnie durante o colégio. No alto dos meus vinte e tantos, agora consigo olhar e achar ridículo esse esforço débil que muitas pessoas como eu empreendiam para fazer parte de algo com o qual, na maior parte do tempo, tampouco nos identificávamos. Algo em minha mente dizia que se eu me desse bem e, com alguma sorte, se fizesse parte do grupo das meninas populares, ganharia uma proteção automática anti-julgamentos, ignorando por completo o fato de que eu não tinha cacife para arcar com a realidade daquelas moças. Era branca desbotada feito um palmito como elas, um senhor privilégio, porém não tinha cabelos lisos, era rechonchuda, não gostava de fazer as unhas, andava com roupas largadas (uma taurina apaixonada pelo conforto desde os primórdios) e não me sentia nada pronta para FLERTAR. Preferia esconder meu rosto atrás de um livro a encarar todos os possíveis julgamentos e testes sociais que me seriam colocados a prova.

Jenna também queria ser popular e aceita e achava um rapaz bonito só porque enfiaram em sua cabeça que ele era charmoso. Por não alcançar este patamar e de tanto se esforçar sem sucesso algum, seu escape passa a ser este sonho de ser adulta. Com 30 anos, sedutora e próspera. Tudo isso para viajar no tempo, desembarcar nos 30 e perceber o quanto as nuvens carregadas de tempestade encontram seu caminho dos 13 aos 30 sem muito esforço. Os tão sonhados 30 anos carregam suas dores e nem tudo são flores como a inocente mente imaginativa de Jenna esperava.


Impossível ignorar o fator comédia romântica da trama. Ela gira em torno da ideia de valorizar os pormenores de cada etapa das nossas vidas, de não tentar acelerar os processos e nunca fechar os olhos para quem te demonstra afeto em detrimento a um mero desejo de validação social. O final é feliz e ensolarado, diferente de Donnie Darko, mas esses tapas na cara da vida adulta doeram com mais força agora que me vejo na outra extremidade do título do filme. 

Ser adulto significa assumir uma porrada de responsabilidades, quando lá no fundo nós só queríamos sentar num cantinho e pedir para alguém resolver as coisas por nós. E este foi de longe o fator que mais mexeu comigo ao rever o filme. Embora não viaje no tempo, às vezes tenho a sensação de ter dormido com treze anos e acordado no meu corpo com trinta. Tudo isso pois em diversas ocasiões me senti uma impostora ao tentar agir como uma adulta, como se nunca tivesse estado pronta de verdade para encarar este papel. Sabe quando você assina um documento importante ou assume um novo cargo na empresa? E bate aquela sensação de “como é que fui parar aqui, eu só tenho 13 anos”? Pois então.

Sempre me emociono ao ouvir Vienna, de Billy Joel, e sem nenhuma surpresa chorei copiosamente com a sequência do filme, da qual já nem me lembrava mais. Slow down you crazy child, you’re so ambitious for a juvenile. But then if you’re so smart tell me, why are you still so afraid? A letra inteira é aquele chacoalhão delicado que nos faz mandar o pé no freio e repensar esse ritmo frenético no qual nos colocamos, em uma tentativa por vezes difícil demais de deixar certos processos se darem no seu tempo.

Com trinta anos recém-completos enfim tomei consciência deste fato, e minha meta é colocá-lo em prático. Afinal, é normal sentir medo de tomar decisões importantes e fazer as coisas por nossa própria conta. Posso dizer por experiência própria: mesmo quando era uma pessoa fitness, era difícil levantar peso sem técnica, sozinha. Completar um número x de repetições sem fazer careta? Impossível. Dói mesmo, e carregar estes pesos da vida adulta é natural. Só não pode se transformar em um freio que nos impede de avançar.

Meu reencontro com Jenna e Donnie foi um lembrete sobre a importância de respeitar – e muitas vezes desacelerar – o processo. E dar mais espaço às emoções. Pois sentir é um negócio ridículo mesmo, e a gente precisa se expor a esses papelões para conseguir se ouvir melhor. Conquistar nossos jovens interiores, fazer as pazes para criar uma estrutura resistente, forte, que usa a própria vulnerabilidade para crescer e nos tornarmos adultos funcionais (e não muito perturbados, diga-se de passagem).  

Desalinho mental e todas aquelas coisas das quais não gosto de falar publicamente

Arte de Victoria Rivero

Desde muito jovem desenvolvi o hábito de rir da própria desgraça. Algumas linhas da psicologia chamam isso de chiste, e podemos traduzir como o famoso risos nervosos. Se eu estava angustiada ou com medo, soltava uma gostosa gargalhada. Lembro-me de uma vez em que estava viajando de avião com a minha mãe e, em meio a uma turbulência, a nave perdeu um pouco da pressurização. Tive uma crise de risos. Não é algo controlável, simplesmente acontece. Nunca vou me esquecer da cara da moça na fileira ao lado da nossa, que esmagava um terço com entre as duas mãos, chorava e olhava horrorizada para esta mulher doida do riso incontrolável. Me senti muito mal durante este episódio, pois não queria soar desrespeituosa. O máximo que consegui fazer com o mínimo de sucesso foi tapar a minha boca.

Este incidente diz muito sobre o meu jeito de levar a vida. Assumo o riso descontrolado como uma bomba relógio, até chegar o momento a explosão, quando baixo a guarda e tenho aquela crise de choro que me deixa com as pálpebras doloridas. Estes são meus escapes mais fortes. Já tive minhas fases de comer e beber para acalmar as mágoas, porém na maior parte do tempo oscilo entre os risos nervosos e a choradeira ilimitada.

Afinal, cada pessoa encontra a saída mais fácil e conveniente para suas necessidades do momento. Porém vejo o receio em falar sobre saúde mental como um traço compartilhado comum entre muitas pessoas neuroatípicas. Pois não é fácil expor algo tão sensível. Minha intenção não é reduzir o peso de outras doenças, tampouco de colocar diferentes níveis de dor em uma balança. Porém é curioso notar o quanto costuma ser mais fácil anunciar o diagnóstico de uma doença “clássica” do que assumir o tratamento de um problema psicológico.

Comecei a fazer psicanálise em 2015 e isso aflorou muita coisa que passou anos entalada na garganta. Começou com um processo muito doloroso, mas sentia aos poucos o quanto progredia e me reconstruía mais forte. Até ter uma recaída ainda no primeiro semestre de 2016, quando comecei a ter alguns sintomas de ansiedade. Minha primeira lembrança remete a um dia normal de trabalho quando, sem nenhum gatilho aparente, comecei a suar frio e ter taquicardia. Pensei ser algo pontual, porém além de se repetir incontáveis vezes, o quadro só piorou ao longo das semanas. Passei umas boas sessões mapeando estes sintomas com minha analista, até ela manifestar que talvez fosse o caso de consultar com um psiquiatra. Aquele não seria meu primeiro encontro com a psiquiatria. No meu primeiro contato, em 2014, o acompanhamento médico deixou um legado digamos traumático. As circunstâncias pouco ajudaram, pois na época não houve nenhuma assistência psicológica e eu só queria uma solução prática para conseguir sair da minha cama e seguir com as obrigações de vida adulta que, naquele ponto, tomavam proporções cada vez mais sérias.

Ouvir de minha analista que precisaria consultar um psiquiatra foi difícil, mas acabei cedendo. Busquei especialistas, li uma caralhada de avaliações antes de marcar a primeira consulta. Por sorte o santo bateu de imediato, facilitando minha vida e me poupando de sair em busca de um psiquiatra minimamente coerente. Depois de um ano sendo acompanhada por ele, recebi alta ainda no primeiro semestre de 2017. Mais uma vez, as circunstâncias eram favoráveis até demais. Começava a preparar minha mudança para França, havia concluído minha inscrição no mestrado e só aguardava o famigerado visto. Essa sensação boa de realizar um sonho me anestesiaria por muitos meses. De qualquer forma, eu havia me preparado para aquilo. Depois de meses de terapia e de acompanhamento psiquiátrico foi difícil me derrubar. Passei um bom tempo lidando muito bem com meus demônios, a ponto de convidá-los para um café com bolo no meio da tarde.

Até a pandemia me proporcionar uma viagem no tempo e começar a sentir todos aqueles sintomas outra vez. Em certa medida, deu pra sentir o retorno paulatino. Meus anos de estudante na França camuflaram a minha condição de imigrante. Como se tivesse usado o mecanismo de defesa de certos bichos para fingir naturalidade e agir como se fizesse parte daquele universo. Funcionou bem pois em teoria é muito fácil ser estudante e se adaptar aos moldes da academia em qualquer lugar do mundo. O mesmo serve para um estágio – eu era considerada uma estudante inexperiente independente da minha idade e experiência profissional prévia, e fui tratada como tal.

Embora a mudança para a Holanda tenha sido embalada de muita felicidade e acolhimento, não tardei a cair na real. Desaprendi muito sobre o ato de me camuflar pois até então nunca havia sido uma extensão de alguém, tampouco havia precisado viver num local onde não dominava a língua. Estar desempregada e ter dificuldades para me conectar com os residentes deste novo país provocou danos pesados ao meu estoque de energia. Adicione nesta conta este tempo indefinido e cada vez mais fluido da pandemia, a incerteza de quando poderia ver meus pais ou meus amigos outra vez. Não tardaria a dar um pane no sistema.

Consegui um emprego depois de um ano inteiro que se arrastou, um band-aid temporário que serviu para apaziguar alguns dos meus anseios. Porém a pandemia não acabou, e todas as incertezas e seguranças que já vinha carregando desde a minha mudança pra Holanda continuaram pairando por ali. Quando minha analista mencionou a possibilidade de consultar meu psiquiatra outra vez, houve resistência, pois na minha cabeça nunca mais precisaria de medicação outra vez. E embora estejamos de saco cheio de fazer tudo online, confesso ter sido um alívio conseguir entrar em contato com meu médico que segue atendendo em São Paulo e fazer minha consulta normalmente, podendo colocá-lo em contato com meu clínico geral daqui para fazer um bem bolado e acelerar o início do meu tratamento.

O remédio não vai apagar os meus problemas e transformar minha vida num parque de diversões. Meu psiquiatra é bem pé no chão e antes de falar sobre a medicação me passou mil recomendações sobre cuidados a serem levados em conta. As dicas são as mesmas de 2016 e envolvem cuidar da alimentação, reduzir a cafeína e o álcool e praticar atividade física diariamente. Como ele bem disse, de nada adianta tapar os buracos com uma medicação sem cuidar de toda a engrenagem que ajuda tua máquina a rodar. Sempre me doei muito e estou pronta a me desdobrar para ajudar os outros, mas me colocar como prioridade ainda é um desafio.

Se você caiu neste post por um acaso e sente necessidade de conversar com alguém sobre saúde mental, pode me mandar um e-mail. Conversaremos de forma anônima. Não sou especialista em saúde mental, tampouco tenho soluções mágicas, mas é sabido que dialogar sobre nos ajuda a ter um pouco mais de clareza e conquistar segurança na hora de buscar ajuda. Meu médico reforçou o quanto neste momento, mais do que nunca, é preciso unir forças e cuidar dos nossos, mesmo com as limitações de encontros físicos. Da minha parte, posso afirmar: enquanto estava prestes a me desintegrar de tanto passar nervoso nesta pandemia, poder desabafar com pessoas próximas foi um grande respiro. A dor não desaparece, mas fica menos latente. Dadas as proporções, este texto é uma forma de deixar um espaço de diálogo aberto a quem quiser conversar sobre – como fiz em algum momento do passado ao narrar minha experiência com o DIU mirena.

Já escrevi muito sobre saúde mental tanto aqui quanto na minha falecida newsletter, mas se não me falha a memória nunca abordei a questão da medicação de forma tão aberta. Decidi escrever algumas linhas sobre o tema pois vai ser uma forma de acompanhar meu progresso e observar se estou, de fato, progredindo e cuidando de mim de alguma forma.

Tenho rascunhado este texto há um tempo, pois, mais uma vez, ainda é delicado falar sobre o tema. Mas estou curiosa para observar a evolução do meu tratamento. Vem comigo?