Acomodada no desconforto

A vida me empurrou a uma semana de mínimos.

“Fazer apenas o necessário para sobreviver”, a dita lei do menor esforço.

Como julgar o necessário? As horas de sono contam algo, deitar-se na cama antes da meia noite e conseguir manter os olhos fechados e o corpo sereno deve ter suas vantagens. Faz pouca diferença se tomo banho e lavo os dentes, se me penteio ou mantenho os cabelos presos num rabo de cabelo. A camiseta está amassada, a calça com respingos de molho, porém não importa. Ninguém vai me ver, tampouco me cheirar.

O alimento desaparece do prato, tenho a sensação de que não mastiguei direito. O corpo físico se espalha pelo mundo sem gracejo, o interno, já meio em frangalhos, acionou o botão automático para comportar o peso destes mínimos.

Este modo permite ligar aparelhos eletrônicos e responder mensagens que não requerem uso excessivo de massa cefálica. Sem necessidade de qualquer raciocínio lógico, a mente se resigna sem fazer perguntas. Forço o físico a se movimentar pelo menos trinta e cinco minutos todos os dias, repetindo mecanicamente cada exercício com o pouco de energia restante.

No fim do dia me pergunto me pergunto se um copo de chá que trará alguma paz. Se consigo contar cinco respirações contínuas sem sentir vontade de atropelá-las. Se as histórias alheias nas páginas dos livros vão me ajudar a me desconectar da minha realidade. Se alguém vai perder uma noite de sono porque a semana de descontos acabou ou porque não forneci uma informação que a pessoa queria muito, mas eu não tinha.

Na semana de mínimos me cerquei de silêncios para anuviar a travessia. As palavras me ferem a pele, doem mais do que transpirar após meia hora de corrida contínua. Todo o processo de dar forma as construções internas e expeli-las para o lado de fora dói o triplo, e preciso estocar um tanto de energia para conseguir, enfim, avançar.

Os passos ganham forma lentamente, mas a trilha, tortuosa e íngreme, é desestabilizadora.

Dentro do menor esforço a mensagem de resiliência e força é balela, devidamente empurrada do penhasco. Quero sobreviver e encontrar coragem para encarar e rir de caminhos ainda mais desafiadores, mas por hoje prefiro achar uma pedra, sentar-me e observar o caminho como se com ele não restasse nenhuma responsabilidade.

Hoje abrirei mão da vista panorâmica para me acomodar no desconforto.

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