Viagens meditativas

Acordar no meio da madrugada e perder o sono é tão ruim quanto despertar de um pesadelo. Quando acontece comigo, me encontro em um estado confuso. Uma mistura confusa de sonolência com lucidez me empurra em direção a questões perturbadoras de toda natureza. Situações mal resolvidas, problemas de trabalho, pendências que não consegui resolver em tempo. Aquela memória de dois mil e dez que ainda causa constrangimento, a angústia de querer me empenhar a aprender holandês e não conseguir me motivar. Os incômodos se encontram e debatem no meio a insônia. É como se eu me sentasse com a minha mente e começássemos a destrinchar uma série infinita de pendências. 

O estado sonolento não ajuda, pois os pensamentos são mais potentes e tomam conta de qualquer racionalidade que me ajude e relaxar e voltar a dormir. Quando morava sozinha, aproveitava o primeiro momento de lucidez para pegar meu celular e procurar alguma meditação para ajudar a pegar no sono. Usava o Headspace como guia, e os resultados quase sempre eram eficazes. Agora que divido uma cama não quero impor minhas meditações, tampouco a luz do smartphone na cara de meu parceiro, portanto foi necessário partir para métodos alternativos. 

Ainda não atingi o nirvana e passo longe da possibilidade de me tornar um ser humano de luz, portanto meditar em silêncio é um desafio. Minha dificuldade de concentração uma coisa de outro mundo. Preciso de música ou de alguém guiando. Busco, entretanto, uma forma de trazer algumas técnicas de meditação para remediar a insônia. Começo pelo gancho da imaginação. Escolho algum parque e me imagino nele, deitada na grama enquanto ouço os pássaros e observo movimentações da natureza. Quando consigo me sentir cem por cento no cenário, dobro a concentração e me volto à respiração, fazendo alguns exercícios de relaxamento. 

Inspirar e expirar prestando atenção na respiração e afastando pensamentos nocivos tem a sua relevância. A ansiedade ao menos sossega, e me ajuda a focar no que interessa, que no caso é voltar a dormir. Viajar para longe é igualmente eficaz. Às vezes substituo o parque por algum local calmo visitado no passado e me vejo por lá. Vira uma espécie de spa mental. Se você caiu neste texto buscando a solução para noites mal dormidas, vale a tentativa. Não dá para esperar um milagre e nem sempre resolve, mas pode auxiliar a abrandar as angústias e se desconectar das obrigações. 

Se o cérebro ri da cara do meu empenho meditativo, quem sou eu para insistir? Antes pegava o celular e bisbilhotava a vida alheia até perder o último fio de sono. Não recomendo. Costumava me deixar com muita dor de cabeça ao longo da manhã seguinte, possível efeito da exposição à luz fria da tela no meio do escuro.

Agora saio do quarto, pego uma manta, me aconchego no sofá e dou continuidade à minha leitura atual. Se tem algo que fiz este ano foi retomar o hábito de leitura. Engato um livro no outro que é para não dar brecha a confusões na hora de escolher o próximo título. Impossibilitada de viajar pelo método meditativo, confio a missão aos livros. A escolha do momento, por sinal, me permite viajar sem sair de casa com imenso primor. Um amigo me emprestou Less, de Andrew Sean Greer, e é uma delícia poder viajar junto ao sofrido protagonista. Agora, por exemplo, estamos em Torino, cidade que adoraria visitar outra vez.

Hoje, entretanto, a insônia deu trégua e me antecipou só 15 minutos do planejado despertador. Atendi ao chamado, mas desta vez estendi o tapete de exercício e levantei alguns pesos. É preciso começar a produção de endorfina bem cedo caso queira ter energia suficiente para responder um monte de clientes reclamões das nove às dezessete.

Meu companheiro de leitura do momento

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