No meio da viagem no tempo tinha um coelho esquisito

Passei anos resistindo ao ato de rever filmes, tudo por pura preguiça. Nada de novo sob o sol, como diria Caetano Veloso. Até juntar meus trapinhos com uma pessoa que adora rever seus filmes prediletos E ficar presa em uma pandemia eterna algum tempo mais tarde. De tanto repetir os dias me apeteceu a ideia de revisitar algumas joias da minha adolescência e olha só, quem diria, tenho achado a experiência maravilhosa. Alguns destes títulos ainda tenho em DVD, perdidos em alguma caixa na casa dos meus pais, mas como eles seguem a um oceano de distância me viro como posso com os serviços de streaming. Uma tarefa por vezes hercúlea. Um lado meu quer muito dar uma chance às novas produções, outro prefere o conforto de revisitar lugares conhecidos.

Sendo deveras sincera, dá para sentir que a prioridade do momento é financiar um monte de filmes sem alma. Neste caso fica mais fácil partir para uma obra que já assisti algumas vezes, ou que foi lançada há bastante tempo e ainda não tive ocasião de assistir. Quiçá o problema more em mim, e meu brilho nos olhos se dissipou de tanto ler notícias, minando também minha capacidade de me envolver o suficiente com obras ficcionais inéditas.

Tive também uma influência externa: o podcast Segunda Mão, de Jessica Correa e Thiago Guimarães. Me enchi de doses de nostalgia enquanto eles papeavam sobre alguns clássicos dos anos 2000, até chegar no episódio sobre Donnie Darko (2001, direção de Richard Kelly), que me arrebatou sem dó nem piedade.

Não me sinto apta a dizer do que se trata sem dar spoilers. Isso me levou a questionar o que seria um spoiler de Donnie Darko e se existe uma explicação lógica para o filme. Há muito conteúdo interessante nos textos e vídeos que buscam explicar o final, mas quando uma história gira em torno de conceitos sobre viagem no tempo e tem uma pegada de ficção científica, seria um erro se ater tanto aos detalhes. Minha expectativa ao rever Donnie Darko era embarcar na brisa do filme e deixar espaço para criar umas teorias malucas na minha cabeça.

O longa foi lançado nos anos 2000, mas se passa nos anos 80. Tem uma ambientação meio cafona, típica do período, e uma trilha sonora isenta de defeitos. Nasci em 91, então não posso dizer que vivi e tenho lembranças da década de 1980. Mas vi muitos filmes e videoclipes deste período e posso dizer que Donnie não deixa a desejar e passa muito bem como uma história que poderia ter acontecido naquele período. Até os cortes de cabelo e penteados reforçam o cenário! A sequência de abertura ao som de The Killing Moon me deixou arrepiada. Nos primeiros minutos do longa já deu para sentir que aquela seria a minha viagem no tempo, com destino final a minha pré-adolescência.

O protagonista, que dá nome ao filme, toma remédios e faz acompanhamento com uma psicóloga. Não sabemos exatamente o que ele tem, embora haja uma leve menção a uma possível esquizofrenia. Ele possui uma aura melancólica, mas é um jovem desbocado. Dando um pouco mais de contexto, ele ainda está na escola. Aquele típico cenário de high schools americanas, onde meninos e meninas tidos como esquisitos sofrem bullying e os rapazes ‘descolados’ (estou usando gírias de velhos propositalmente) se sentem os donos do pedaço (eu avisei). Os docentes parecem advir de meios conservadores, e reproduzem isso no comportamento escolar. Donnie está cagando para todos eles, e rebate adultos e adolescentes quando o convém.

Conforme a história progride, fica evidente o quanto todo mundo está, de alguma forma, perdido ou angustiado. Durante diversas passagens senti vontade de dar um abraço ou um chacoalhão em alguns personagens, esquecendo até de me questionar sobre o que raios este cara fantasiado de coelho pretende fazer. Sentir a melancolia destes seres perdidos bateu com força a ponto de não me parecer relevante questionar se o coelho era real ou uma mera projeção da cabeça afetada de Donnie. A tal velha maluca, por sinal, me deixou com o coração apertado na cena em que ela se aproxima de Donnie e anunciar que todo ser vivo neste planeta morre sozinho. Coloquei a tradução em itálico porque o print está com legenda em holandês, eu sei, faço uns esforços doidos nesta vida às vezes (mas isso é assunto para outro post).

Enquanto adolescente, devo ter falado sobre a genialidade deste filme a todos que me perguntassem, ou o quanto me impressionei com a forma como o conceito de viagem no tempo aparece tão carregado de melancolia. Revendo agora, aos 30, quase não abri os olhos para o aspecto e ficção científica do negócio. Acabei o longa triste e abatida. Por mais esquisito que Donnie seja, me apeguei e sofri junto. Por mais debochado e nem aí que ele aparente ser, ele sente demais o quanto o mundo o afeta, e reforça o quanto a transição da adolescência para a vida adulta pode doer. Dói tanto que talvez valha o sacrifício de dar fim à própria vida para não precisar ultrapassar esta passagem até o ponto final.

Donnie ainda consegue expressar muito do que lhe congestiona o peito, enquanto acompanhamos os adultos engolindo o seco e silenciando, muitas vezes, o que poderiam expressar para dar fim a diversos pequenos problemas. Dentro do núcleo adulto dá para sentir o quanto pequenos conflitos internos não resolvidos se acumulam a ponto de te deixar sem alternativas além de dar um grito alto que talvez não resolva o problema, mas ajuda a aliviar todas aquelas dores internas. Drew Barrymore, maravilhosa, eu gritei junto com você nesta sequência:

Depois de ficar em frangalhos com minha experiência Donnie Darko, precisava de um pouco de sol. Por algum motivo obscuro essa história de viajar no tempo sem um mega fundo científico me levou a De Repente 30 (2004, de Gary Winick).

Vamos voltar aos meus primeiros anos de adolescência. Até meus 13 anos assistia filmes por diversão. Tinha minhas preferências, é claro, só o dono da única locadora de Cassilândia sabe a quantidade de fitas VHS com musicais da Disney que devolvi prontamente rebobinadas. Entretanto na transição dos 13 aos 14 já morava na capital, onde o acesso a cultura era maior e passei a encarar o cinema com outros olhos. Na época, passei tardes inteiras trocando ideais e referências com os atendentes da finada MB locadora. Era bom demais estudar só pela manhã e ter tempo livre de sobra, inclusive saudades.

Graças a eles assisti a uma caralhada de filmes, digamos, conceituais. Era uma fase de descoberta, talvez tenha visto muita coisa que na época me pareceu cabeçuda demais e não entendi nada (oi, Lynch). Porém descobri o trabalho de diversos diretores que encontraram um lugar especial no meu coração e desde então não deixei de acompanhá-los. Foi uma fase importante, é fato. E se Donnie Darko entrou no hall de preciosidades cinematográficas, De Repente 30 cairia por terra nos meus critérios. Mas me encontrava em transição, e minha personalidade ainda confusa deixava passar muitos filmes considerados toscos pelos intelectuais. Coincidentemente, o longa foi lançado quando eu também tinha 13 anos como a protagonista, Jenna, e me achava madura demais para a minha idade. Passava horas confabulando sobre o meu futuro brilhante como escritora, mentalizando thirty, flirty, and thriving com a mesma veemência de Jenna.

Tantos anos mais tarde com 30 anos recém-completos, estou bem longe de qualquer prosperidade, e embora tenha encontrado um rapaz muito especial e esteja comprometida, se houve algo que quase não fiz ao longo destas três décadas de existência foi flertar. Quiçá por não ter passado nem perto desta glória pela qual Jenna tanto aspirava, me pareceu simbólico pegar o filme para rever agora, nesta última curva antes dos 30.

Ouso dizer: De repente 30 é uma explosão de amorzinho e felicidade se colocado ao lado de Donnie Darko. Porém Jenna precisa passar por um purgatório semelhante ao de Donnie durante o colégio. No alto dos meus vinte e tantos, agora consigo olhar e achar ridículo esse esforço débil que muitas pessoas como eu empreendiam para fazer parte de algo com o qual, na maior parte do tempo, tampouco nos identificávamos. Algo em minha mente dizia que se eu me desse bem e, com alguma sorte, se fizesse parte do grupo das meninas populares, ganharia uma proteção automática anti-julgamentos, ignorando por completo o fato de que eu não tinha cacife para arcar com a realidade daquelas moças. Era branca desbotada feito um palmito como elas, um senhor privilégio, porém não tinha cabelos lisos, era rechonchuda, não gostava de fazer as unhas, andava com roupas largadas (uma taurina apaixonada pelo conforto desde os primórdios) e não me sentia nada pronta para FLERTAR. Preferia esconder meu rosto atrás de um livro a encarar todos os possíveis julgamentos e testes sociais que me seriam colocados a prova.

Jenna também queria ser popular e aceita e achava um rapaz bonito só porque enfiaram em sua cabeça que ele era charmoso. Por não alcançar este patamar e de tanto se esforçar sem sucesso algum, seu escape passa a ser este sonho de ser adulta. Com 30 anos, sedutora e próspera. Tudo isso para viajar no tempo, desembarcar nos 30 e perceber o quanto as nuvens carregadas de tempestade encontram seu caminho dos 13 aos 30 sem muito esforço. Os tão sonhados 30 anos carregam suas dores e nem tudo são flores como a inocente mente imaginativa de Jenna esperava.


Impossível ignorar o fator comédia romântica da trama. Ela gira em torno da ideia de valorizar os pormenores de cada etapa das nossas vidas, de não tentar acelerar os processos e nunca fechar os olhos para quem te demonstra afeto em detrimento a um mero desejo de validação social. O final é feliz e ensolarado, diferente de Donnie Darko, mas esses tapas na cara da vida adulta doeram com mais força agora que me vejo na outra extremidade do título do filme. 

Ser adulto significa assumir uma porrada de responsabilidades, quando lá no fundo nós só queríamos sentar num cantinho e pedir para alguém resolver as coisas por nós. E este foi de longe o fator que mais mexeu comigo ao rever o filme. Embora não viaje no tempo, às vezes tenho a sensação de ter dormido com treze anos e acordado no meu corpo com trinta. Tudo isso pois em diversas ocasiões me senti uma impostora ao tentar agir como uma adulta, como se nunca tivesse estado pronta de verdade para encarar este papel. Sabe quando você assina um documento importante ou assume um novo cargo na empresa? E bate aquela sensação de “como é que fui parar aqui, eu só tenho 13 anos”? Pois então.

Sempre me emociono ao ouvir Vienna, de Billy Joel, e sem nenhuma surpresa chorei copiosamente com a sequência do filme, da qual já nem me lembrava mais. Slow down you crazy child, you’re so ambitious for a juvenile. But then if you’re so smart tell me, why are you still so afraid? A letra inteira é aquele chacoalhão delicado que nos faz mandar o pé no freio e repensar esse ritmo frenético no qual nos colocamos, em uma tentativa por vezes difícil demais de deixar certos processos se darem no seu tempo.

Com trinta anos recém-completos enfim tomei consciência deste fato, e minha meta é colocá-lo em prático. Afinal, é normal sentir medo de tomar decisões importantes e fazer as coisas por nossa própria conta. Posso dizer por experiência própria: mesmo quando era uma pessoa fitness, era difícil levantar peso sem técnica, sozinha. Completar um número x de repetições sem fazer careta? Impossível. Dói mesmo, e carregar estes pesos da vida adulta é natural. Só não pode se transformar em um freio que nos impede de avançar.

Meu reencontro com Jenna e Donnie foi um lembrete sobre a importância de respeitar – e muitas vezes desacelerar – o processo. E dar mais espaço às emoções. Pois sentir é um negócio ridículo mesmo, e a gente precisa se expor a esses papelões para conseguir se ouvir melhor. Conquistar nossos jovens interiores, fazer as pazes para criar uma estrutura resistente, forte, que usa a própria vulnerabilidade para crescer e nos tornarmos adultos funcionais (e não muito perturbados, diga-se de passagem).  

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