Corona Diaries #11

A arte é de Brit K Caley e você pode encomendar um print dela aqui.


A neblina me roubou toda a inspiração e está pronta a tomar conta de tudo nesta manhã. Do meu terraço é como se o New Babylon nem existisse. Uma parte dos prédios que consigo avistar do janelão de casa também sumiu de vista. O inverno começa oficialmente na última metade de dezembro, mas o fim de novembro já anuncia o que nos aguarda para a nova estação. A diferença de duas semanas para cá é significativa. Vez ou outra saio para caminhar (às vezes corro) pouco depois de acordar e minhas roupas tem parecido leves demais para aguentar a garoa fina dessas manhãs que despertam cada vez mais preguiçosas. Vai começar a temporada dos prints de temperaturas negativas ou bem próximas de zero. Cresci em um lugar quente demais para não me impressionar e printar temperaturas que eu jamais sentiria na pele caso tivesse continuado por lá. Muita gente faz igual, é aquela coisa: a gente pega o tal título de expatriado e depois de anos corridos ainda nos impressionamos com coisas ditas banais.

As temperaturas caem e o sol também não está muito aí para os mortais. Por volta das 17h o céu já está tomado pela escuridão. O boato da depressão invernal é real. A ausência de sol deprime e nos deixa enlouquecidos com qualquer oferta de dias sem nuvens carregadas no céu. No último sábado pedalamos até Scheveningen, o bairro da praia principal de Haia, que também abriga um parque enorme cheio de dunas. Queríamos buscar um pouco de vitamina D naquela tarde ensolarada. Não vou afirmar que foi o suficiente, pois estava frio demais para perdermos a noção do tempo caminhando. Mas foi um passeio gostoso, deu até para tirar o pó das nossas câmeras analógicas e nos encheu de esperança por dias menos chuvosos. Sonhamos pouco, pois a semana já começou virada no jiraia com pancadas de chuva.

(Eu disse, o dia estava lindo)

Do último Corona Diaries, datado do início de julho, pra cá, muita água rolou. Os holandeses caíram nos encantos do verão e fecharam os olhos para o vírus. Como se o Covid tivesse tirado férias. O número de infectados voltou a subir em meados de setembro e o governo precisou fazer alguma coisa. Tudo foi fechando aos poucos. No momento os restaurantes e bares estão fechados e temos um punhado de restrições a seguir como em outros tantos lugares do globo. Nós encaixamos uma mudança de apartamento neste segundo lockdown, e cá estamos vivendo as dores e delícias de buscar e comprar móveis e ver nossa morada atual ser tomada por caixas. Entre atos Nico e eu saímos no meio da tarde para andar um pouquinho quando a chuva da trégua. Durante uma de nossas caminhadas descobrimos a Free Beer Co., uma portinha entre a Prinsestraat e a Molenstraat onde dois canadenses bons de papo vendem cervejas.

Eles propõem um serviço de assinatura muito bem quisto sobretudo por quem aumentou o consumo de bebidas alcólicas nesta pandemia. Você paga 10 euros para entrar no clube do garrafão de 2 litros e 7 euros para o clube de 1 litro. Feito isso, você pode repor o conteúdo pagando 10 euros por litro. A ideia é motivar os assinantes a descobrirem diferentes tipos de cerveja a cada semana. Eles possuem três torneiras que são trocadas religiosamente uma vez por semana. Um valor honesto para se embebedar com essa curadoria maravilhosa de brejas. Para completar a dupla é ótima de vendas, então eles sempre acabam nos empurrando uma ou outra cerveja extra – pois sim, eles possuem uma seleção à parte de cervejas em lata e garrafa. A parte boa é que eles já eram uma loja “à prova de corona” – com o perdão do trocadilho barato com a marca de cerveja – visto que o local é fechado e o único contato que os clientes possuem é pelo balcão. No fundo da minha nostalgia ele me lembrou o The little coffee shop, lá no bairro de Pinheiros, em São Paulo, que também funciona neste esquema de ter apenas um balcão para servir quem está passando pela esquina da Rua Lisboa com a Artur de Azevedo. Deu saudade de quando trabalhava na mesma quadra do café e podia compartilhar um espresso ou um coado com as minhas amigas de trabalho depois do almoço. A pandemia e o desemprego mexem tanto com o meu emocional que já me peguei chorando ao me lembrar de quanta coisa legal vivi durante meus últimos meses empregada no Brasil.

Agora me encontro aqui, ainda transbordando desesperança, e fechando uma mala com minhas roupas de verão. É curioso esse processo de fechar ciclos e a forma como reagimos a ele. Cheguei em Haia no segundo dia de Dezembro de 2019 e agora, um ano depois, faço as malas outra vez rumo a um novo capítulo da minha vida na Holanda. Por vezes pergunto se minha existência por aqui começou de verdade ou se segue no limbo. Quando se dá o processo de criar raízes em um lugar? A partir de quando sentimos segurança para chamar um lugar de lar? A pandemia colocou todos os processo clássicos de adaptação em suspenso. Vivo um paradoxo constante onde oscilo entre a sensação de que acumulei diversas vivências ao longo do ano e a impressão de que nada aconteceu. Depois de passar 2020 flutuando em tantos nadas, resolvi tirar um tempo para transformar minha jornada de auto-conhecimento em um projeto. O tal emprego de project manager não aparece, então tenho visto o que posso fazer para dar criar este trabalho em um nível pessoal.

Visto que preciso esvaziar os armários e gavetas para encaixotar o que levarei para a casa nova, resolvi fazer uma triagem e rever alguns projetos pessoais. Poderia ter feito isso antes, eu sei, mas minha ambição esqueceu de fazer o plano de emergência para um ano inteiro sem emprego. Mas bem como diz o poeta, o tarde demais não existe. E se teve algo que a pandemia fez por mim foi me empurrar para dentro e me ajudar a encontrar pistas valiosas sobre o caminho para sair mais forte depois de um longo período de embate pessoal. Não sei você, mas eu estou bem curiosa para conhecer os caminhos que 2021 pretende me apresentar.

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