On the rocks, de Sofia Coppola

Envelhecer dificultou o processo de remontar minhas memórias com precisão. Me situar na passagem do tempo passou a ser um tanto desafiador, sobretudo agora, estando bem próxima dos 30. Apesar das imprecisões, tenho lembranças de ter adentrado em uma das fases mais chatas críticas da minha adolescência na época em que assisti Lost in Translation. Foi meu primeiro filme de Sofia Coppola e, enquanto adolescente deslumbrada que descobre a existência do cinema para além dos filmes da Disney e das comédias pastelão, foi um marco significativo. Fiquei encantada com o jeito de filmar de Sofia, os enquadramentos, a delicadeza da amizade estabelecida pelos protagonistas, o quão mágico o Japão me pareceu, o quanto a diretora exprimia sem precisar dizer muito. Aquilo me fascinou e logo fui atrás de The Virgin Suicides e Marie Antoinette, que havia estreado há pouco. Na minha perspectiva jovem dava para sentir o quanto ela se colocava implicitamente no enredo. Transformou-se em uma grande referência para mim. Achava potente esse jeito de deixar escapar tanto sobre si ao contar uma história alheia. Hoje, quase quinze anos mais tarde, fui assistir a nova produção da Sofia, On the rocks, e saí do cinema com uma impressão diferente. Ficou uma sensação de pressa, algo tão atípico para quem se criou na contemplação Coppoliana (sim, eu inventei este termo agora).

A trama é simples: Laura (Rashida Jones) vive em Nova Iorque com o marido, Dean (Marlon Wayans), e as duas filhas pequenas. Ela é escritora e trabalha de casa, enquanto ele mantém uma agenda cheia trabalhando para uma start-up em ascensão. Laura começa a suspeitar que ele tem um caso com uma de suas colegas de trabalho e essa desconfiança aflora no momento em que seu pai – descrito inclusive pela diretora como um playboy, Felix (Bill Murray), reaparece depois de uma temporada ausente.

Aviso aos navegantes – embora não discorra sobre o desfecho, devo comentar detalhes do enredo que podem ser entendidos como spoilers.

Diferente de tudo realizado por Sofia até agora, On the rocks é um filme mais “ágil”, sem aquelas longas sequências contemplativas que são sua marca registrada. Não há momentos icônicos e memoráveis, nada que te marque e te faça repensar por horas depois. Não é a intenção. Para mim ele foi como um desses drinks leves que a gente pode apreciar com moderação e que nos deixa meio alegrinha quando acaba. É descompromissado, feito para você se desconectar por alguns momentos da realidade e rir um pouco dos absurdos ditos por Felix e para eventualmente se identificar com as nóias de Laura.

Depois de apontar defeitos e dizer que não há nada de memorável neste filme, você deve estar perguntando se eu gostei mesmo (ou porquê raios resolvi escrever sobre). Vou te poupar de enrolações desnecessárias. A resposta é sim. Em momentos de tanto caos e incertitude, a verdade é que eu precisava de um filme assim. Os desgraçamentos mentais que a Sofia me propôs no passado foram violentos, então confesso que gostei da possibilidade de ser poupada e ter um breve afago vindo dela.

Em contraste com a carreira bem sucedida de Dean, Laura está no meio de um bloqueio criativo. Enquanto pessoa que escreve posso afirmar o quanto este bloqueio alimenta toda sorte de paranoia. Incapaz de sentar a bunda na cadeira e escrever uma mínima frase que faça sentido, começo a pensar nos problemas que tenho enfrentado e em todas as coisas que preciso resolver ainda esta semana. Sinto a concentração flutuar para bem longe, potencializando meu jeito desastrado de lidar com a vida. Essa sensação é muito bem retratada por Rashida Jones. Diferente de mim, ela vive esse conflito enquanto cuida das duas filhas pequenas. A estafa mental com o cuidado com as meninas recebe certos alívios cômicos em especial nas sequências onde sua ‘amiga’ Vanessa (Jenny Slate) conta suas aventuras nos corredores da escola. Ou em uma das sequências em que Laura encontra seu pai ensinando as meninas a blefar. Neste contexto é fácil imaginar como Laura alimenta desconfianças sobre a fidelidade do marido. Seu pai, com tempo livre de sobra, embarca nesta suspeita e os dois passam a vigiar as ações de Dean.

Adoro Murray no papel de tiozão, cheio de tiradas ridículas e baratas e colocações machistas daquelas que nos fazem virar os olhos de tanta vergonha alheia. Cá entre nós, em diversos momentos me fez pensar no meu pai e em todas suas colocações inapropriadas. Embora seja algo que dê nos nossos nervos na vida real, no filme soa engraçado e traz um certo alívio cômico, graças à química e à leveza da interação dele com Jones. É como se eles de fato fossem pai e filha. Esta é, por sinal, a proposta do filme: construir uma narrativa sobre a paternidade. Essa intenção é anunciada logo no início, quando ouvimos uma voz masculina dizer, no escuro “and remember: don’t give your heart to any boys. You’re mine, until you get married. Then you’re still mine”. É sobre essa proteção paternal que pode até ser doentia, mas aqui é encarada com leveza e em tom de comédia. Sofia explora um pouquinho sobre como essa relação evolui ao longo dos anos e o que podemos fazer para manter um laço afetivo de forma saudável.

Existe muito da Sofia das antigas por aqui. Temos mulheres solitárias em seus conflitos internos, uma Nova Iorque cinza e melancólica que contrasta com o tom de comédia do filme e personagens que levamos conosco por um tempo após o fim da projeção. Embora o foco seja a relação entre pai e filha, existe uma vibe meio Lost in Translation, e este foi um dos fatos que me fez ter tanto afeto pelo filme. Me deixou nostálgica da filmografia de Sofia e com saudade do meu pai, que graças a este micróbio desgraçado já não vejo há mais de um ano.

É isso. Não há nenhuma reflexão, tampouco uma lição de moral. Isso pode soar frustrante para quem gosta da Sofia das antigas, mas minha dica é não se levar tão a sério. Ela segue presente em cada frame, porém com certo distanciamento e com uma nova roupagem. Como se anunciasse que agora tem maturidade cinematográfica suficiente pra fazer o que me entender, inclusive um trabalho que destoa de toda sua filmografia. A realidade anda difícil demais de digerir, nós merecemos um pouco de alívio cômico para apertar o botão off da realidade durante uma hora e meia de projeção.

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