Corona diaries #7

Tenho sentido saudade de tocar as coisas. De chegar com a ponta dos dedos e moldá-los paulatinamente na forma do objeto, de senti-lo ganhando peso e se acomodando entre minhas mãos. De atribuir significado, definir, explorar essas formas, observar por inteiro e buscar eventuais defeitos, conferir o preço. Essas trivialidades de passeios descompromissados, o famigerado “vou entrar só para dar uma olhadinha” que nos faz descobrir e em alguns casos expandir a lista de desejos. De transitar de um canto a outro, sentar para tomar um café, observar os passantes e especular sobre a existência de um ou outro.

Esses tempos me deixaram nostálgica de mim. Me transportei umas tantas vezes até meu apartamento em São Paulo pelos últimos dias, caminhei pelas horas em que passava jogada no sofá com minha cachorra no colo e um livro em mãos. Pude tocar a preguiça de ter vida do lado de fora, o conforto dos feriados em que todo mundo viajava e não me via obrigada a sair do meu cantinho. Pensei no quanto gostava de poder ficar confinada por opção, no quanto isso transformava as ocasionais saídas em algo tão mágico e poderoso. Foi estranho e ao mesmo tempo gostoso me revisitar. Não senti necessidade de olhar as fotos ou reler o que escrevia nessa época, mas desde a semana passada fui invadida pelas lembranças dos meus sete anos na selva de pedra. Como um filme passando pela minha cabeça, fui surpreendida pela vivacidade dos fatos. Comecei a me lembrar das coisas como se tivessem acontecido na semana passada e me choquei com a riqueza dos detalhes. Tinha certeza que tudo havia me escapado e só me restavam retalhos de memória, mas não, tudo tá aqui, povoando meu cérebro em um ritmo frenético. Meu inconsciente quer me dizer algo? Não consigo captar nenhuma mensagem, e por vezes me parece apenas uma tentativa de atribuir valor ao passado enquanto documento histórico. Reforçar a importância deste período para meu amadurecimento pessoal. Para mostrar que essa história de auto-conhecimento começou mais cedo do que eu pensava, que no fundo todo o período sozinha ajudou a me afirmar, a entender quem eu era e para o que vinha me preparando. Como se essa invasão de memórias tentasse me dizer que tenho mais força e capacidade do que imagino para construir minha nova vida.

Me senti como se estivesse tocando a outra face dos objetos, que no caso são minhas memórias, tal qual nessas saídas despretensiosas, só que direto do conforto do meu lar, e fosse moldando cada uma em minhas mãos antes de colocá-las de volta na prateleira. Curioso ver o quanto esse processo me fez enxergar o ódio por outra perspectiva. Como se não passasse daquela poeirinha acumulada sobre os livros, que podemos tirar com facilidade só de passar um pano úmido. Fiz as pazes com a Lidyanne de sete anos de São Paulo, aprendi a respeitar seus medos e inseguranças e entendi melhor o valor dessa experiência. Deixei de lado o arrependimento e o “pesar” de minhas escolhas e senti uma felicidade imensa em poder, enfim, encerrar este capítulo da minha vida com respeito e muito amor. Muito do que sou hoje se deve a esta “mulher em formação” que chamou a capital paulista de lar entre 2010 e 2017. Ainda bem que segui sendo pura teimosia, que insisti no meu pedantismo (pois um ser humano é sim cheio de defeitos e isso não é um problema!) e em tudo que me encantava naquele período.

Agora é o momento de pegar essa experiência e trazê-la para ainda mais perto. Resignificar esse cuidado e carinho pela Lidyanne do passado e entregá-lo para a versão do presente. Fui engolida pela agonia de não estar produzindo nada nestes dias de confinamento, o que me tirou as horas de sono e me fez parar todas minhas atividades em andamento.

Essa sensação súbita de nostalgia boa, que não me causou nenhum desconforto, deve ser um sinal inconsciente de que preciso de um pouco desta visão também para o presente. Parar um pouco, desacelerar do bombardeio de notícias, respirar fundo e aprender a tirar algo da dor. Sem ceder ao desespero.

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