Corona diaries #3

[Para ler ao som de Burning, de Maggie Rogers]

Para uma pessoa muito sensitiva, é curioso não ter sido assombrada pelo Corona Vírus em sonhos. Quando estou paranoica com algo eles povoam meu inconsciente com muita facilidade enquanto durmo. Pois de ontem para hoje a angústia e as sensações ruins de uma ameaça invisível apareceram vagamente. Sonhei que perdia uma viagem num cruzeiro (????) porque me enrolava finalizando a mala. Tive tempo para arrumá-la no sonho, mas decidi fazê-lo em cima da hora e perdi várias coisas no meio da arrumação. Senti cada olhada no relógio e cada consulta ao Google Maps para checar a estimativa de tempo do percurso até o ponto de saída do cruzeiro como se estivesse de fato acontecendo. Meu inconsciente é maluco. Vamos ver como ele responde pelos próximos dias.

Me sinto um tanto incomodada com a obrigação de estar informada e ter que participar do movimento da vida mesmo confinada. É preciso ler as notícias e manter-se atualizado, entendo, mas precisa ser o tempo inteiro? É assim tão urgente perguntar às pessoas se elas estão à par do fato x ou y? Precisamos mesmo fazer olhar todos catálogos de cursos online gratuitos que nos são oferecidos no momento? Se a gente não dá conta de todas as séries dos serviços de streaming, imagine o tempo perdido a filtrar todas essas oportunidades. E será que a gente quer mesmo se sufocar de conteúdos diversos no momento que vivemos?

São muitas perguntas, tempo transbordando para buscar respostas, vontade de continuar quieta e tocar a vida como já vinha fazendo antes da pandemia. Com leves adaptações, claro, como se eu saísse até então. Começo a sentir saudades de ir ao cinema às 11 da manhã (estar desempregada tem seus deleites), de ir tomar um café na rua enquanto leio no meio da semana, de se permitir uma cerveja no pub com Nicolas depois da aula de holandês. Nada imprescindível, ainda posso ver filmes, fazer um lanchinho da tarde e dividir um drink com ele em casa, e isso me faz pensar no quão fácil é se fechar em casa quando você PODE fazê-lo e ainda pode assistir ao fim do mundo enchendo alguém de abraços e beijos. Vantagem que pode virar perigo à produtividade de quem trabalha, visto que um carinho inocente pode ser brecha para uma atividade sexual inusitada no meio do expediente.

Leio alguns textos e crio uma pasta com imagens que posso usar para ilustrar os diários enquanto meu companheiro cuida da janta. Não saímos de casa hoje, mas ele vai nos proporcionar uma rápida viagem – gastronômica – à região de Haute-Savoie, onde morávamos quando nos encontramos. Por sinal, temos aqui uma saída deliciosa para quem sente vontade de viajar no momento e não pode: que tal testar uma receita típica de outro país? Cozinhar é um ato de amor, seja para si mesmo ou para outras pessoas, e é preciso dedicar um momento ao preparo, o que faz passar o tempo e ocupar-se.

Ele preparou um Diot, uma salsicha típica de Haute-Savoie. Na receita dele, ela cozinha em um molho maravilhosa que leva manteiga e leite no preparo. Para acompanhar, ele fez um purê de batatas. Ficou delicioso, e é provável que o dia de hoje acabe tranquilo assim – com comida boa, um bom vinho, pois ninguém precisa acordar cedo amanhã, e a serenidade de quem está saudável e (por hora!) protegido.

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