Corona diaries #1

A arte é de Marianna Tomaselli

O Spotify me indicou You already know mais uma vez. Ele parece adorar a versão com Kathryn Williams. Embora figure em algumas das minhas playlists e já seja uma velha conhecida, vez ou outra ele a joga nas Descobertas da Semana. Deixei para ouvir a seleção da vez na quarta-feira, meu primeiro dia oficial de ‘confinamento’, quando me encontrei enfim dentro de casa após um retorno deveras turbulento aos Países Baixos. Teve Suíça, França, um voo perdido, alguns tantos imprevistos em meio a uma pandemia que se confirmou.

Moro com meu companheiro há alguns meses, ele trabalha, eu não. Ele nunca fez home office, eu fui adepta da modalidade quando era freelancer. Tenho pensado em meios de ajudá-lo a se adaptar, visto que estamos distantes da estrutura que ele possui no escritório. E a logística, é claro, é outra: quando se trabalha fora de casa você acaba por criar uma rotina, organizar teus horários em função da sua produtividade… É mais fácil estabelecer um cotidiano de trabalho quando você possui horários impostos e metas, por exemplo.

Para uma pessoa desempregada pouca coisa vai mudar. Desde a mudança fiquei muito em casa, saindo apenas para fazer mercado ou correr. Vez ou outra rolava um cinema. Essa situação não me causa desconforto e estranhamento. Gosto da sensação de estar no meu lar, de organizar minhas coisas, de ter um tempo tranquila sentada no sofá enquanto leio, respondo uma mensagem ou escrevo textos como este. Ser expatriado pode ser bem solitário. Meus quase três anos morando na Europa foram repletos de isolamento, sobretudo no início, quando não conhecia muita gente e tateava os vazios em tentativas frustradas de construir um pequeno círculo de amizades. Em função do local onde me encontrava, as opções culturais não eram numerosas. Passei dias completos sem sair, sobretudo em períodos de aulas canceladas e quando não estava escalada para trabalhar. Conviver comigo mesma não tardou a ser uma realidade.

Enquanto muitos dos meus colegas do mestrado viajavam aos fins de semana para a casa dos pais, eu ficava em Montbéliard, onde revisava o conteúdo das aulas e/ou ia trabalhar. Enquanto agente do museu só precisava vigiar as salas e me certificar que tudo estava certo com o nosso espaço físico e os meus expedientes variavam de um mês para o outro. Era o que me permitia ter algum contato com pessoas, fossem estes meus colegas ou visitantes. Como todo centro cultural de cidades do nos confins do mundo há dias tumultuados, outros nem tanto. E no período pré e pós expediente eu ficava no meu apartamento, dialogando com os meus pensamentos e eventualmente conversando com família e amigos por chamada de vídeo.

Quando me mudei para realizar um estágio, comecei um novo ciclo de isolamento. Se em Montbéliard tive ocasião de estabelecer alguns laços graças ao meu trabalho, em Annecy me encontrei entre pessoas que não faziam a menor questão de estabelecer o mínimo de interação. Redescobri minha companhia, adotando longas caminhadas às margens do lago, muitas idas ao cinema, um bom conhecimento dos cafés da região e até mesmo uma peculiar habilidade para me exercitar nos 18m² da minha kitnet. Todavia não gerenciei bem minha tentativa de manter uma boa rotina de atividades físicas usando aplicativos, mas isso é assunto para outro texto.

Por sinal resolvi dar uma nova chance a um desses aplicativos, fiz uma série de exercícios hoje cedo sem grandes dificuldades. Ontem saí de bicicleta pela primeira vez desde a mudança e fiquei orgulhosa desta conquista. É um grande passo para quem não é a melhor das ciclistas e que, para piorar, sente muito medo de pedalar na cidade. Confesso que o fato da cidade estar vazia me motivou. Em certa medida não deixa de ser uma boa saída: você passa menos tempo exposto fora de casa e ainda resolve o que precisa resolver mais rápido.

Meu companheiro precisou sair de casa para recuperar seu material de trabalho e poder fazer home-office, então digamos que ele ainda não começou a trabalhar verdadeiramente de casa. Mas tudo está no jeito. Tivemos uma tentativa frustrada de participar da nossa aula de holandês usando Skype. Junte conexão e som ruim e a uma língua complexa e de sons guturais e você terá a receita perfeita para um cenário de caos. Aprender holandês – ou melhor, tentar aprender – tem sido pior do que “ser obrigado” a ficar fechado dentro de casa.

Há pior nessa vida. Fechamos nosso primeiro dia de “quarentena” com Downsizing, um filme horrível de Alexander Payne. Simbólico o suficiente para nos lembrar que há coisas muito piores do que ser obrigado a ficar dentro de casa: a existência deste filme é prova disso.

2 comentários em “Corona diaries #1

  1. pra quem não tá habituado a ficar em casa contemplando a própria existência tem sido uma experiência, pra não dizer desafio, e tanto né? aqui a gente já era beeeem caseiro, mesmo saindo pra trabalhar/estudar. mas no fim acho que o fato de poder trabalhar de casa pe que tá ajudando a equilibrar a sanidade por não poder sair de casa haha

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    1. Pois então! Sempre fui muito caseira também, mas é diferente pode ficar em casa e não ter outra opção. Sem contar que a situação toda nos deixa mal, não tem outro jeito. O fato de não saber até quando vai durar tudo isso, o receio de pegar o vírus ou que alguém próximo pegue… enfim, tenhamos paciência e força para lidar com tudo isso!

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