Uma autoanálise de 2019

atlasofplaces
Cape Cod Morning, 1950, de Edward Hopper

[Para ler ao som de Phoebe Bridgers – Smoke Signals]

As primeiras horas de 2019 foram de ressaca. Comi uma fatia de galette des rois com uma xícara transbordando de café, precisava de algo forte e gorduroso para equilibrar a quantidade de álcool que coloquei para dentro do corpo na noite anterior. Pensei que um banho poderia me ajudar a me recuperar, mas só piorou o enjôo. Estava numa cidade do interior da Lorraine, depois de uma boa festa de virada de ano, e precisava pegar meu trem de volta para casa porque trabalharia no dia 2 de janeiro. A gente começa o ano na labuta, afinal. No caminho até a estação pedi pro casal de amigos que havia me convidado à festa para fazer uma parada no McDonalds. Eu, que odeio McDo com todas as minhas forças, precisava também de algo MUITO ruim para recuperar um cadinho da energia que restava para seguir até o fim do dia e chegar na minha casa. Devo ter repetido “nunca mais eu bebo” pelo menos 300 vezes, mandado uns sei lá quantos tweets reclamando deste ato impensado, desejado vomitar em cada hora que passei acordada daquele dia. Excelente ponto de partida para um ano que abusou do seu potencial de insanidade e me pegou por uma das pernas e saiu me chacoalhando como se eu fosse um bonequinho de Lego.

Abri mão de pouco a pouco dos filtros por uma questão de sobrevivência. Para engatar a última etapa do mestrado precisei deixar um trabalho do qual gostava muito; ao mesmo tempo tinha todo o gosto do novo pela frente para aliviar as dores da despedida. Levei tempo a estabelecer laços e me habituar ao cotidiano em um projeto de cidade (brincadeira, Montbéliard. Guardo boas lembranças de ti), e quando peguei o jeito foi preciso juntar meus muitos trapinhos e ir embora. Janeiro se resumiu a colocar a vida em malas mais uma vez, me enfiar toda torta em um trem com o que deu pra levar de bagagem e desembarcar em uma cidade totalmente desconhecida.

Annecy me vendeu um cenário dos sonhos. Era surreal estar cercada de montanhas cobertas de neve, ver a composição com o lago me fez sonhar um punhado de vezes, pois na minha cabeça inocente parecia perfeito para viver experiências tão lindas quanto o ambiente. A realidade, todavia, fez questão de dizer que a beleza pode ser traiçoeira. Derrapei com tudo. Conviver com os savoyards era um martírio, tava pra nascer gente mais chata e difícil de lidar. Dada a missão de fazer um estágio em uma empresa baseada em Annecy, trabalhar naquele lugar foi tão traumático quanto aprender a lidar com essa gente. Ser expatriado é desafiador, de fato, mas quando se é inseguro o contexto piora de forma significativa.

Ao longo dos meses que passei na agência pensei muito sobre meu futuro profissional e procurei motivações para acreditar no meu potencial. Questionei minhas escolhas e o propósito delas. Me preparei para dois anos de estudo, sem nenhuma obrigação com trabalho; e no fim das contas se passei dois meses sem trabalhar foi muito. Meu corpo criou o terrível hábito de ter um emprego, sempre foi uma de minhas melhores desculpas para ocupar a cabeça e não ficar criando abobrinha em templo pleno.

Começar o estágio envolvia muita coisa, e talvez a parte mais dolorosa consistisse no fato de mudar de área. Se carregava comigo sete anos de experiência como Assessora de Imprensa, tinha um total de 0 experiências como Gerente de Projeto Digital. Me sentia vulnerável demais para dar opinião ou mesmo fazer uma pergunta que pudesse demonstrar minha falta de conhecimento, pois apesar de tudo era mestranda e havia estudado o assunto ao longo de um ano e meio. Mesmo tendo a postura de quem conhece o ambiente corporativo, tomei muitas rasteiras. O modo de pensar europeu difere muito do brasileiro e não, eles não descartam uma possibilidade sequer de mostrar sua inferioridade. O pensamento colonizador ainda tem a sua força.

A pior característica do mercado francês (talvez europeu) é a relevância dos atos negativos. Ninguém vai te parabenizar por um trabalho bem feito ou por uma ideia que gerou um bom retorno. Mas se você cometer um erro… será lembrado até o fim do seu contrato. Eles nunca vão te deixar perder o erro de memória. Mesmo depois de tantos anos trabalhando, foi o suficiente para colocar meu profissionalismo em questão. Saí acreditando que eu deveria ser muito ruim mesmo, dada a quantidade de falhas enaltecidas e os elogios inexistentes. No fundo sei que boa parte das pessoas não era lá muito profissional, mas esses acontecimentos acabam mexendo com a gente. E ferindo a minha autoestima que já não era das melhores.

Mesmo com tantos anos de terapia nas costas não soube construir uma barreira contra o jeito de agir do mercado local. A falta de humanidade e do mínimo de relacional que se espera entre funcionários me tirou do eixo e carrego comigo as consequências deste desequilíbrio.

Em 2019 encontrei amor e alento como nunca havia experimentado antes, quiçá um presente da vida para dosar todas as outras coisas que andavam se desalinhando. Foi bom ter esses respiros e encontrar conforto de quem não acompanhou as idas e vindas desses 28 anos de existência, foi essencial ter a visão de quem veio completamente de fora e sem o mesmo referencial cultural que o meu. Mas o peso foi tanto que todo esse amor não foi suficiente: ainda sucumbi nas minhas inseguranças e paranoias e nestes últimos dias de 2018 pretendo preparar o caminho para aprender mais uma vez a lidar com elas e não deixar que me consumam a energia.

No fim de 2018 escrevi um ‘texto-retrospectiva’ no Instagram onde dizia que o ano em questão havia me quebrado em muitos pedacinhos (e sim, isso aqui é uma autoanálise, então estou me quotando):

“I broke myself in so many pieces over the last year. I tore myself open, exposing everything. I’ve felt as if I was walking around naked, feeling weird but not afraid of all the people watching me. I started off 2018 with plenty of scars and trying to mend the pieces. One day I decided to repair everything with some gold powder. I end up this year looking imperfect, but yet so precious (and no, I had no time to take the classic photo with a glass of wine, it’s a shame, we’ll go for a lazy selfie taken before Christmas). I hope you all can feel like this in 2019. Happy new year ✨”

Pois 2019 conseguiu bloquear todo tipo de remendo e me quebrar ainda mais. Pisou sem dó nem piedade e cortou meu acesso ao pó de ouro. Pois temos aquela história de ressurgir feito fênix, e talvez este acabe sendo meu objetivo único para 2020. Mesmo que me custe tempo, que eu tenha força suficiente para fazer mais do que juntar meus cacos com pó de ouro. Urge, mais do que outrora, minha necessidade de ressurgir mais forte em meio a tanta desordem.

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