Corona diaries #9


[Aquarela feita pelo meu amigo Caio Naressi. Ele diz que pensou em mim enquanto pintava ao som do álbum Power, corruption and lies, do New Order, em algum momento de Novembro de 2019
]

Queria escrever alguma coisa antes de completar 29 anos. Não que não o tenha feito entre um bullet journal, uma carta de motivação e umas anotações soltas online, mas queria um Corona Diaries de prefácio para o meu réveillon. Já faz mais de uma década que aprendi a conjugar o verbo se réveiller (em tradução livre: despertar). Réveillon, que nós associamos à virada do ano no Brasil, é a primeira pessoa do plural na conjugação. Quando começava a estudar francês e descobri o significado deste verbo achei bonito o conceito de ‘despertar’ como rito de passagem. Desde então adotei à minha humilde realidade. Gosto da sensação de fazer planos e me encher de perspectivas para o ano que está por vir pela perspectiva da minha data de nascimento. É até um pouco doido falar sobre a intensidade com que experimento um sentimento de renovação a cada quatorze de maio.

Aniversariar sempre foi algo muito íntimo para mim, decorrência provável deste ato simbólico de transição. Preparar-se para um novo ano e se despedir do ano que passou demanda entrega, vasculhar as memórias, analisar o que está encaminhado, checar o que precisa ficar para trás, ver o que pretendemos levar adiante, pensar nos possíveis planos futuro. Convenhamos, é um trabalho custoso. Toma tempo e exige um pouco de concentração. E bem, é minha vida, essa transição depende exclusivamente de mim. Por isso sempre gostei do toque de recolher, de voltar para minha concha e fazer todo este trabalho reflexivo no conforto dos meus pensamentos. Tive contudo meus momentos de variação. Em dados períodos senti vontade de ser lembrada, fiquei animada para comemorar, fiz festinhas, me presenteei. Nunca fui muito chegada a narrativas lineares e deixei essas manifestações falarem por si quando aconteceram.

No início do ano mudei de país e, desempregada, já sabia que não poderia ver meus pais no primeiro semestre e que não poderia trazer meus amigos mais queridos para a Holanda. Ou seja, não teria quórum suficiente para uma festa. Então veio o corona e a certeza de que seria inviável reunir as oito pessoas que conheço no país e que poderiam eventualmente se deslocar até onde moro. Todos os caminhos me levaram de volta à introspecção em 2020. Porém neste processo de contar os dias sem saber quantos dias faltam também perdi toda e qualquer noção de tempo. Um dia fui dormir e quando acordei já era 13 de maio, um dia antes do meu aniversário. Foi no susto.

Desde a última cartinha tentei ter mais cuidado comigo e conversei cada vez menos com as pessoas. Precisava de um tempo em silêncio. Foi preciso lidar com muito barulho aqui dentro, comprar algumas brigas comigo mesma, repensar todas as lições pelas quais passei desde Maio de 2019. Em alguns momentos doeu muito, em outros chorei de alegria, como diria Roberto Carlos, se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi. E bota emoção nisso! Depois de meses difíceis em Annecy tenho aprendido a me afirmar e me posicionar. Eu achava que sabia, e talvez até soubesse, mas desaprendi, desandei, e agora tenho tentado reorganizar essas pecinhas confusas que me compõem. Comemorei um ano de um dos encontros mais bonitos da minha vida, começamos uma série nova entre tantas que vimos na quarentena, desabei a chorar depois de uma chamada de vídeo com a minha mãe, comecei a anotar frases que ouvi em Rupaul’s Drag Race e que viraram pauta para minhas sessões de psicanálise. Também li os drops diários para salvar o minuto, me senti abraçada e tive ainda mais certeza do que desejo para os 29 anos: afeto e leveza. Afeto para apaziguar momentos complexos, leveza para encará-los.

Hoje cedo resolvi colocar minha playlist de músicas mais ouvidas em 2016 (!) e esbarrei em Colors, de Halsey, no meio da seleção. Senti tanto quando ela disse you’re ripped at every edge but you’re a masterpiece. Escolhi como mantra do meu ‘despertar’ dos 28 para os 29. Vou abraçar minha idade nova mentalizando que nunca serei definida pelo meu corpo e nem pelo meu trabalho. Tenho mil motivos para ter orgulho das minhas cicatrizes e tirar o melhor de todo meu aprendizado e conquistas ao longo destes (quase!) 29 anos.

A gente se irrita tanto com bobagens quando só precisa de um pouco de sossego e afeto. Vinha me sentindo despedaçada desde o início do confinamento por uns tantos motivos (muito bem mencionados no último diário), mas de tanto ouvir meu companheiro comecei a abrir meus olhos. Dei início a todo um processo para me reconquistar e parar de esquentar a cabeça com assuntos que nem deveriam mais ser colocados em pauta na minha vida.

De pouquinho em pouquinho retomo a capacidade de me sentir como uma obra prima. Tudo em sem tempo.

Corona diaries #8

People like us get so heavy and so lost sometimes
So lost and so heavy that the bottom is the only place we can find
You get dragged down, down to the same spot enough times in a row
The bottom begins to feel like the only safe place that you know


Nossa trajetória de viver três meses em um começou no aeroporto de Genebra, na Suíça, e como todo começo de história pós-apocalíptica as coisas já começaram ruins. Saímos de um pequeno paraíso em Champéry para cinco longas horas de espera pela partida do nosso voo de volta para casa. Enquanto remonto as memórias sinto a nossa confusão como se fosse hoje: estávamos ambos desajeitados e em busca de compreensão de um mínimo aspecto do que estava por vir. Enquanto ele se ocupava com questões do trabalho, vi o link do perfil de Fiona Apple na New Yorker (ele foi mencionado em um dos primeiros diários) e decidi que aquela seria minha companhia para o nosso chá de aeroporto. Tomei todo tempo necessário à leitura e passei quase toda a espera concentrada nesta longa conversa de Apple com Nussbaum. Fetch the bolt cutters foi lançado há duas semanas (!). O que poderia ser mais simbólico do que este disco sendo lançado e coroando nosso aniversário de um mês de confinamento?

Não dei continuidade ao Corona Diaries pois, como tantas pessoas, me perdi. Em meio a tantas notícias ruins, perspectivas lamentáveis e muito pessimismo, afundar me pareceu excelente como opção. É tanto esforço para ser forte, resistir e dar conta do pouco que preciso dar conta que deixei meu corpo amolecer e me entreguei. Chega de oferecer resistência. Deixei todo o peso recair sobre o meu corpo, alimentei minha raiva enquanto me informava sobre o Corona – e em particular sobre o que se passa no Brasil – vi minha imagem no espelho e chorei muito por detestar (ainda mais) minha imagem, procrastinei, vi muitos vídeos inúteis no Youtube, senti nojo do meu corpo, enalteci meus defeitos, me desprezei o quanto pude. ‘Cause I fuck with myself more than anybody else. Tudo isso na minha cabeça. Instaurei o caos e deixei assim porque ainda não me sentia pronta para fazer uma faxina.

Ainda não me sinto, por sinal.

O confinamento potencializou dois conflitos que negligenciei no último ano: meu corpo físico e meu futuro profissional. Graças à psicanálise me resolvi muito bem com meu físico e sempre tive uma relação saudável e respeitosa com ele. Até tive minha fase louca das corridas e me acalmei depois de ter uma lesão, mas isso é assunto para outro momento. Mas desde 2015 consegui, na medida do possível, viver de forma saudável. Sou taurina, comer é de longe uma das minhas atividades favoritas, então me privar nunca foi uma opção. Até o início do ano passado não tive episódios compulsivos, comia e bebia o que tinha vontade. A atividade física seguiu presente e era o que ajudava a equilibrar eventuais ‘exageros’ – embora não fosse intencional. Nunca fiz exercício para emagrecer. Minha família tem histórico de colesterol alto e diabetes e bom, sigo a mesma tendência. Manter o corpo em movimento é essencial para me manter saudável. Porém a mudança para Annecy e a transição de carreira foram amargas. A gente nunca está pronto pra nada nesta vida (embora pense que sim), mas foi um pouco mais difícil do que eu esperava. Por questões financeiras e por morar longe de tudo, ir à academia deixou de ser uma opção. Parei de me exercitar em fevereiro do ano passado e nunca mais retomei. Tentei preencher meus vazios com comida e bebida e tive, enfim, uns tantos episódios compulsivos.

Hoje, pouco mais de um ano depois, estou com 13 kg a mais e com terríveis dificuldades em me aceitar desta forma. É difícil falar sobre o assunto pois é deveras pessoal e corro o risco de decepcionar pessoas com problemas sérios de saúde ou com distúrbios de imagem. Nunca tive um ganho de peso tão significativo e como todo evento novo em nossas vidas tenho apanhado para tratar a questão. Fico nesta corda bamba entre trabalhar a aceitação ou começar a tomar medidas para contornar essa situação e voltar (de forma saudável) ao meu peso de antes. Quando penso no que implica mandar fora 13 kg me dá desespero, porque para fazê-lo da melhor forma é preciso tempo E muita paciência. Com a cabeça pilhada do jeito que está – digamos que as coisas não melhoraram muito do ano passado pra cá – e no meio de uma pandemia, como poderia pensar em regime e em me exercitar? Tenho um companheiro que me apoia nas minhas escolhas e nunca ma encheu o saco com relação a corpo e/ou alimentação, mas que também tem sofrido os efeitos do confinamento, que cedo ou tarde acabam afetando todo mundo, então impor uma dieta nos deixaria ainda mais nervosos e esgotados mentalmente. Minha alternativa, por ora, é arriscar alguns exercícios em casa. Como o vizinho reclamou dos abalos sísmicos provocados pelos meus polichinelos (gostaria muito de estar exagerando), encontrei alternativas em treinos apartment friendly da MadFit. Estou sem objetivos no momento, não tomei decisões concretas, mas mexer o corpo ajuda a aliviar o stress e já me sinto menos cansada quando preciso subir as escadas de casa ou pegar a bicicleta para ir ao mercado. Já é alguma coisa.

Foi também na tentativa de me tranquilizar que me desesperei (!!!) mais uma vez quando voltei a pensar sobre minha transição de carreira. O peso do meu corpo causa desconforto, o das minhas escolhas o sobrecarrega e tenho cada vez mais dificuldades em caminhar equilibrando tanto peso. Depois de 7 anos trabalhando como assessora de imprensa (e fazendo uns freelas de redação) fiz um mestrado em produtos e serviços multimídia, trabalhei um ano inteiro como gerente de projeto digital e gostaria de continuar atuando na área. Mas entendo bem a demanda de experiência para o cargo e não tenho o suficiente. Perdi as estribeiras procurando vagas de assistente que não exigissem fluência em holandês, mas as buscas foram infrutíferas. Em diversas ocasiões me candidatei mesmo assim pois sou grande adepta do “não custa tentar”, mas depois de tomar tantos nãos na cara deixei a frustração falar mais alto e tenho sentido cada vez mais vontade de abrir mão e tentar outra coisa. Não houve uma única vez em que ultrapassei a etapa do envio de CV. Não é como se eu tivesse passado por diversas entrevistas sem sucesso – eu nem chego a ser entrevistada. Como manter o estímulo para continuar tentando quando todas as reações são negativas?

No meio da quarentena me vi obrigada a me revisitar e questionar minha trajetória profissional de forma mais rígida. Confesso, doeu. Tenho um currículo ótimo, sinto orgulho de tudo o que fiz até agora e sei que dei o melhor de mim. Só que perante tantos nãos me vi feito um bicho acanhado tremendo de medo. É como se piscasse e me esquecesse de todos bons feitos. As falhas pipocam e preciso fazer uma força monstruosa para dar voz com segurança às minhas qualidades. Por um momento cogitei perguntar qual é a minha maior qualidade aos amigos mais próximos, ou que me dissessem algo que fiz e que os marcou positivamente. Partindo do que os mais querido veem de bom em mim, montaria uma espécie mapa que me ajudaria a explorar cada uma dessas características para me encontrar nelas. Mas me pareceu o cúmulo da carência e no fim das contas é uma tarefa que não pode ser delegada. Depende de mim. Sendo assim, meu presente de aniversário (daqui duas semanas!) vai ser este mapeamento. Tomei nota de algumas pistas que encontrei no meio do caminho destes últimos dias. Vou fazer umas colagens, voltei ao meu bullet journal, e espero ter uma luz a partir de tudo isso para refazer um bom CV e uma boa carta de motivação. E não menos importante, encontrar vagas mais adequadas ao meu perfil. O plano de ser gerente de projeto digital vai ficar para mais tarde.

É difícil descrever o nível de exaustão psicológica em que me encontro e percorri um longo caminho até voltar para este espaço e conseguir escrever com leveza. Seguindo a ordem caótica do mundo, mesmo sem sair de casa muita coisa aconteceu. Os pontos altos do último dia foram Fetch the bolt cutters, a volta da newsletter (repaginada!) de uma amiga muito querida, Sherlock (ainda não havia dado uma chance à série), Rupaul’s Drag Race (cuidado com os spoilers, estamos assistindo as temporadas antigas) e Deerskin. Ainda estou com dificuldades para ver filmes em casa. Me perco com as minhas listas, com dicas de amigos e tentando organizar as atividades do dia para tirar um momento e me concentrar em um filme. Quem sabe uma hora vai?

Quero ver como as coisas vão evoluir agora que aceitei os sentimentos ruins. Deixar sair faz parte do processo de cura. Pode até ser que nasça algo destes tantos cafés que tenho compartilhado com meus demônios pessoais. Vez ou outra cogito produzir outros tipos de conteúdo aqui no blog, de repente falar sobre coisas legais que li e vi neste meio tempo. Por enquanto vou me contentar em chegar ao fim do dia com algum pingo de sanidade. Nos vemos em breve. 🙂

[o trecho que abre este texto é de Heavy Balloon, de Fiona Apple]

Corona diaries #7

Tenho sentido saudade de tocar as coisas. De chegar com a ponta dos dedos e moldá-los paulatinamente na forma do objeto, de senti-lo ganhando peso e se acomodando entre minhas mãos. De atribuir significado, definir, explorar essas formas, observar por inteiro e buscar eventuais defeitos, conferir o preço. Essas trivialidades de passeios descompromissados, o famigerado “vou entrar só para dar uma olhadinha” que nos faz descobrir e em alguns casos expandir a lista de desejos. De transitar de um canto a outro, sentar para tomar um café, observar os passantes e especular sobre a existência de um ou outro.

Esses tempos me deixaram nostálgica de mim. Me transportei umas tantas vezes até meu apartamento em São Paulo pelos últimos dias, caminhei pelas horas em que passava jogada no sofá com minha cachorra no colo e um livro em mãos. Pude tocar a preguiça de ter vida do lado de fora, o conforto dos feriados em que todo mundo viajava e não me via obrigada a sair do meu cantinho. Pensei no quanto gostava de poder ficar confinada por opção, no quanto isso transformava as ocasionais saídas em algo tão mágico e poderoso. Foi estranho e ao mesmo tempo gostoso me revisitar. Não senti necessidade de olhar as fotos ou reler o que escrevia nessa época, mas desde a semana passada fui invadida pelas lembranças dos meus sete anos na selva de pedra. Como um filme passando pela minha cabeça, fui surpreendida pela vivacidade dos fatos. Comecei a me lembrar das coisas como se tivessem acontecido na semana passada e me choquei com a riqueza dos detalhes. Tinha certeza que tudo havia me escapado e só me restavam retalhos de memória, mas não, tudo tá aqui, povoando meu cérebro em um ritmo frenético. Meu inconsciente quer me dizer algo? Não consigo captar nenhuma mensagem, e por vezes me parece apenas uma tentativa de atribuir valor ao passado enquanto documento histórico. Reforçar a importância deste período para meu amadurecimento pessoal. Para mostrar que essa história de auto-conhecimento começou mais cedo do que eu pensava, que no fundo todo o período sozinha ajudou a me afirmar, a entender quem eu era e para o que vinha me preparando. Como se essa invasão de memórias tentasse me dizer que tenho mais força e capacidade do que imagino para construir minha nova vida.

Me senti como se estivesse tocando a outra face dos objetos, que no caso são minhas memórias, tal qual nessas saídas despretensiosas, só que direto do conforto do meu lar, e fosse moldando cada uma em minhas mãos antes de colocá-las de volta na prateleira. Curioso ver o quanto esse processo me fez enxergar o ódio por outra perspectiva. Como se não passasse daquela poeirinha acumulada sobre os livros, que podemos tirar com facilidade só de passar um pano úmido. Fiz as pazes com a Lidyanne de sete anos de São Paulo, aprendi a respeitar seus medos e inseguranças e entendi melhor o valor dessa experiência. Deixei de lado o arrependimento e o “pesar” de minhas escolhas e senti uma felicidade imensa em poder, enfim, encerrar este capítulo da minha vida com respeito e muito amor. Muito do que sou hoje se deve a esta “mulher em formação” que chamou a capital paulista de lar entre 2010 e 2017. Ainda bem que segui sendo pura teimosia, que insisti no meu pedantismo (pois um ser humano é sim cheio de defeitos e isso não é um problema!) e em tudo que me encantava naquele período.

Agora é o momento de pegar essa experiência e trazê-la para ainda mais perto. Resignificar esse cuidado e carinho pela Lidyanne do passado e entregá-lo para a versão do presente. Fui engolida pela agonia de não estar produzindo nada nestes dias de confinamento, o que me tirou as horas de sono e me fez parar todas minhas atividades em andamento.

Essa sensação súbita de nostalgia boa, que não me causou nenhum desconforto, deve ser um sinal inconsciente de que preciso de um pouco desta visão também para o presente. Parar um pouco, desacelerar do bombardeio de notícias, respirar fundo e aprender a tirar algo da dor. Sem ceder ao desespero.

Corona diaries #6

Arte de Elena Garnu

Perdi as estribeiras. Há tempos não sentia tanto nervoso, tampouco a força e as proporções que o ódio podem tomar quando estamos à flor da pele. Como se já não fosse frustrante o suficiente acompanhar tudo relacionado ao Covid-19, caio em notícias sobre o dito presidente do meu país de origem e sou tomada por uma tristeza imensa. É impossível falar sobre pandemia sem falar sobre política. Se temos governadores é por um motivo: estando nós de acordo ou não (e no meu caso o santo não bate com o deste homem por motivos óbvios), eles são porta-vozes. São eles quem devem se posicionar para evitar uma piora no quadro atual. Nós, enquanto seres humanos, podemos tomar partido e fazer o que está ao nosso alcance. Pois penso muito no quanto minha bolha pode se colocar nesta posição privilegiada: além de sermos pessoas deveras questionadoras, temos acesso fácil à informação. E quem não tem TV nem internet em casa? Ou um acesso limitado a ambos? Parece surreal em pleno 2020, mas existe. Daí a importância da política para, na medida do possível, acalmar a população e discutir as decisões a serem tomadas em meio à crise.

Dói ver alguém tão despreparado e sem tato no poder. Ele termina por promover a desordem e disseminar ódio – como sempre fez, por sinal. Ele nunca mentiu e tampouco fingiu ser uma pessoa razoável. É triste ver quanta gente não enxerga tal fato e continua aplaudindo a loucura deste homem. Enfim. Não vou me prolongar porque este verme não merece protagonismo por aqui. Mergulhados no caos como estamos, é evidente que não precisamos nos afundar ainda mais na merda.

Sentir como meu psicológico reage ao confinamento me fez repensar muitas coisas, e uma delas foi o diário. Ele surgiu como forma de fazer passar o tempo. Embora o conteúdo não acrescente em nada, ele me faz pensar que estou produzindo algo embora passe o dia parada. Mas tenho medo de virar obrigação. Espaçar a atividade me parece uma boa opção, sobretudo quando vejo uma nova notícia e tenho mais certeza que os dias de confinamento devem se prolongar.

Inclusive parei. Escrevi o parágrafo anterior e fui fazer minha bateria de exercícios do dia no fim da tarde de ontem. Voltei agora, neste resto de quarta-fera. Continuo sendo zoada pela Holanda, com este tempo ridículo, ensolarado e de céu azul. Comecei um texto inspirado pelo novo curta de meu amigo, Caio Naressi, e acabei largando mão porque minha concentração foi embora. Pode ser que retome em algum momento. Minha participação no podcast Conversa de Adulto foi ao ar. Laurinha Lero liberou enfim um novo episódio de Respondendo em Voz Alta [onde ela define o presidente com esta bela frase: “A estupidez do cara é um recurso inesgotável, ele é o pré-sal da estupidez. Muito preciso, tá de parabéns]. Minha amiga falou muito sobre seus 8 kg perdidos em decorrência do término do namoro (sim, a mesma citada em outro diário). O “presidente” do Brasil conseguiu falar mais bosta que de costume (!). Fiz exercícios de holandês. Fiz comida para nós (!!), Nicolas também. Ligamos pra um amigo dele e dividimos um apéro digital. Desejei dar continuidade à minha ilusão de produtividade, mas faltou força de vontade e sobretudo inspiração. No meio da paranoia, dessa agonia de tentar fazer pelo menos cinco coisas e não conseguir avançar em nenhuma, releio este parágrafo e constato que bem, os últimos dois dias (e meio) foram bem movimentados.

E nem precisei sair de casa para a vida acontecer.

Em tempos de ser considerado heroi pelo ato de confinamento, por que raios a gente ainda bate a cabeça contra a parede por não dar conta de seguir adiante e riscar os itens da lista de afazeres que elaboramos nas primeiras horas de quarentena?

Corona diaries #5

Ilustração de Kati Kohl

[Você pode ler ao som de Où va le monde, de La Femme]

Você sabe o que é um Roepnaam? Quando cheguei na Holanda fui surpreendida por este campo em alguns formulários. Em tradução livre, é um “nome diário”. A língua holandesa não é das mais fáceis, os locais estão de acordo, e os nomes próprios não fogem desta curva. Muita gente foi batizada com nomes cristãos por essas bandas também. Em alguns casos, esses nomes não são tão fáceis de se pronunciar para quem não fala holandês. Quando uma criança nasce na Holanda, os pais escolhem o nome (na grande maioria dos casos são nomes compostos) e o tal do Roepnaam, pois bem, escolher um nome composto e um sobrenome é pouca coisa. É uma espécie de apelido no fim das contas, com a diferença de que ele vira quase o teu nome oficial porque as pessoas só te reconhecem por ele! Pareceu confuso? Pois bem, vai continuar sendo confuso como quase tudo na cultura local. Posso exemplificar com uma personagem bem conhecida e talvez dê para ter uma noção melhor: Anne Frank. Seu nome era Annelies Marie Frank. Anne não era nome ‘artístico’, mas seu Roepnaam, e todos eles constavam em sua certidão de nascimento.

Se um dia um conhecido holandês vier me relatar uma crise de identidade, terei o dobro de empatia. Coitadinho.

E já que estamos no tema Holanda, sinto que o Buienradar resolveu me pregar uma peça. O aplicativo em questão é um grande aliado da população holandesa, pois este belo radar meteorológico nos dá uma estimativa quase precisa das chuvas no país. Ele costuma ser bem eficaz e me ajudou muito a encontrar janelas sem chuva para fazer mercado ou sair para correr antes do Covid-19. Foi só falar de confinamento que ele deu para me dizer “Geen neerslag verwacht” (em livra tradução: nenhuma precipitação esperada) TO-DOS os dias. Muito sol e céu azul para nós. Porém basta abrir a porta do terraço um pouquinho para acalmar os ânimos: a ventania maluca deste país segue firme e forte e faz um frio de doer. Muitíssimo apropriado para ficarmos quietos de conchinha no sofá.

Nós somos, todavia, um casal muito culto – então vamos aproveitar que Nicolas não precisa trabalhar e passar a tarde lendo. Resolvi pegar um quadrinho para este domingo: S’enfuir – Récit d’un otage, de Guy Delisle. Eu AMO Delisle e recomendo todos os quadrinhos já publicados dele. Mas me faltava este, sua publicação mais recente. Ele conta a história de Christophe André, que foi sequestrado no Cáucaso durante uma missão para uma ONG em 1997. Ele relata sua experiência em cativeiro ao longo de 111 dias. Quer leitura mais adequada para um confinamento?

Mal sabia que ao começar seria acometida pelas ironias de meu intestino, que resolveu elevar o conceito de ficar em casa à máxima potência.

E já que apelei à escatologia (estaria eu deveras afetada pelas declarações do dito presidente do meu país de origem?), decidimos coroar o dia de hoje com Love is blind. A série coloca um pessoal para se conhecer “pelas paredes”, eles conversam e precisam se pedir em casamento sem nunca terem se visto. Um ponto excelente são as marcações: quando vi o “dia 1 do EXPERIMENTO” já estava com lágrimas nos olhos de tanto rir. É maravilhosamente horrível! Vi muitas pessoas recomendando antes do meu período offline do Twitter, alguns amigos indicaram, sabe-se lá como consegui desviar de tanto spoiler mesmo sendo tão previsível.

Mas é fato: conteúdos bobos como este são uma boa distração para quem sofre de ansiedade e não aguenta mais se sentir atingido com esse tanto de notícia ruim. É preciso uma dose de ignorância para não pirar em meio à tanta loucura.

Corona diaries #4

[Você pode ler ao som de wanderlust – Marika Hackman]

O dia amanheceu tão bonito. Com a primavera que se aproxima, o sol começa a despertar mais cedo. Nas minhas primeiras horas despertas de hoje ele chegou a arder os olhos, uma raridade nos Países Baixos. A santa ironia de não chover e termos um céu azul desses justo quando não podemos sair. Tomamos um café da manhã preguiçoso e decidimos fazer um rápido passeio de bicicleta para absorver um pouco do sol e respirar um pouco antes que anunciem um lockdown por aqui. Eu sei, não deveríamos… e eu não deveria ficar me justificando ou fazendo mea culpa, mas precisávamos de um respiro e de uma breve sensação de que tudo está sob controle. Sendo a sensação falsa ou não. Enganar-se com falsas esperanças ainda é uma alternativa, cada um faz o que está ao se alcance e por aí vai.

Somos dois, evitamos aglomerações, retornamos em tempo de preparar algo gostoso para o almoço. Nicolas fez um Poke. Às 16h tinha um encontro marcado com duas amigas no WhatsApp mais próximo. Participei do Podcast Conversa de Adulto, criado pela minha amiga Fernanda Lopes, junto com a Maíra. Nós três nos formamos em Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, em 2012, e seguimos rumos distintos em nossas carreiras. A origem do nome deste blog, por sinal, foi ideia da Fer. Ninguém quer sufocar ninguém com dicas-do-que-se-fazer-durante-a-quarentena, mas caso você queira uma dica de leitura, ela é co-autora de Lute como uma garota: 60 feministas que mudaram o mundo. Enquanto nossa colaboração não vai ao ar, você pode conferir os três primeiros episódios. Para podcasts chamamos de “episódio” também? Fica a questão. Foi uma delícia participar e aproveitar a ocasião para conversar com pessoas que possuem um cantinho reservado no meu coração e que não vejo há tanto tempo.

Em contrapartida à essa troca rica e animadora de experiências, tenho uma amiga francesa com sérias dificuldades para superar o término de seu namoro. Antes de conhecer meu companheiro, fui solteira por dez anos. Isso mesmo, você não leu errado: uma década aprendendo a conviver de forma harmoniosa com a minha própria companhia e sem grandes perspectivas de encontrar alguém para compartilhar minhas loucuras. Gosto de brincar que Nicolas foi meu presente por ter tirado o melhor que pude dessa experiência de tantos anos fazendo tudo sozinha. Tive meus encontrinhos e tentativas de me relacionar com outros caras no meio do caminho, levei tanto pé na bunda… cada término me deixou mais forte. Ser rejeitada não é fácil, a gente sofre mesmo. Porém tenho sérias dificuldades em aconselhar a amiga em questão pois do que acompanhei do relacionamento o cara nunca foi essa coca-cola toda. A moça escreveu uma carta de “despedida oficial” para o ex, e a resposta dele veio nesta linda tarde de sábado – e claro, não foi como ela esperava. Passamos uma hora ao telefone enquanto eu tentava consolá-la. Estou há quase dois meses tentando ajudar, embora tudo que eu diga pareça passar batido. Em certa medida acabo por exercitar um bocado de empatia: como não sofrer com o coração partido em tempos de confinamento, ainda mais quando você não tem um emprego ou um mestrado para ocupar sua cabeça? (Aceito sugestões)

Vi uma notícia sobre um grupo de elefantes que « invadiu » uma província e se empanturrou de milho e vinho (!). Estranhei, dada a descrição dos fatos, e fui atrás de mais informações. As fotos são de fato adoráveis, mas a verdade é que a quarentena alimentou o potencial criativo de muitas pessoas e temos aí grandes ficcionistas em ação.

Vamos fechar nosso sábado com uma versão em Anime de Altered Carbon que acabamos de encontrar na Netflix. Terminamos a segunda temporada há pouco tempo, que por sinal não é tão boa quanto a primeira, mas gosto bastante da série. Não é tão ruim assim ficar confinada quando consigo encontrar escapismos na ficção ❤

Corona diaries #3

[Para ler ao som de Burning, de Maggie Rogers]

Para uma pessoa muito sensitiva, é curioso não ter sido assombrada pelo Corona Vírus em sonhos. Quando estou paranoica com algo eles povoam meu inconsciente com muita facilidade enquanto durmo. Pois de ontem para hoje a angústia e as sensações ruins de uma ameaça invisível apareceram vagamente. Sonhei que perdia uma viagem num cruzeiro (????) porque me enrolava finalizando a mala. Tive tempo para arrumá-la no sonho, mas decidi fazê-lo em cima da hora e perdi várias coisas no meio da arrumação. Senti cada olhada no relógio e cada consulta ao Google Maps para checar a estimativa de tempo do percurso até o ponto de saída do cruzeiro como se estivesse de fato acontecendo. Meu inconsciente é maluco. Vamos ver como ele responde pelos próximos dias.

Me sinto um tanto incomodada com a obrigação de estar informada e ter que participar do movimento da vida mesmo confinada. É preciso ler as notícias e manter-se atualizado, entendo, mas precisa ser o tempo inteiro? É assim tão urgente perguntar às pessoas se elas estão à par do fato x ou y? Precisamos mesmo fazer olhar todos catálogos de cursos online gratuitos que nos são oferecidos no momento? Se a gente não dá conta de todas as séries dos serviços de streaming, imagine o tempo perdido a filtrar todas essas oportunidades. E será que a gente quer mesmo se sufocar de conteúdos diversos no momento que vivemos?

São muitas perguntas, tempo transbordando para buscar respostas, vontade de continuar quieta e tocar a vida como já vinha fazendo antes da pandemia. Com leves adaptações, claro, como se eu saísse até então. Começo a sentir saudades de ir ao cinema às 11 da manhã (estar desempregada tem seus deleites), de ir tomar um café na rua enquanto leio no meio da semana, de se permitir uma cerveja no pub com Nicolas depois da aula de holandês. Nada imprescindível, ainda posso ver filmes, fazer um lanchinho da tarde e dividir um drink com ele em casa, e isso me faz pensar no quão fácil é se fechar em casa quando você PODE fazê-lo e ainda pode assistir ao fim do mundo enchendo alguém de abraços e beijos. Vantagem que pode virar perigo à produtividade de quem trabalha, visto que um carinho inocente pode ser brecha para uma atividade sexual inusitada no meio do expediente.

Leio alguns textos e crio uma pasta com imagens que posso usar para ilustrar os diários enquanto meu companheiro cuida da janta. Não saímos de casa hoje, mas ele vai nos proporcionar uma rápida viagem – gastronômica – à região de Haute-Savoie, onde morávamos quando nos encontramos. Por sinal, temos aqui uma saída deliciosa para quem sente vontade de viajar no momento e não pode: que tal testar uma receita típica de outro país? Cozinhar é um ato de amor, seja para si mesmo ou para outras pessoas, e é preciso dedicar um momento ao preparo, o que faz passar o tempo e ocupar-se.

Ele preparou um Diot, uma salsicha típica de Haute-Savoie. Na receita dele, ela cozinha em um molho maravilhosa que leva manteiga e leite no preparo. Para acompanhar, ele fez um purê de batatas. Ficou delicioso, e é provável que o dia de hoje acabe tranquilo assim – com comida boa, um bom vinho, pois ninguém precisa acordar cedo amanhã, e a serenidade de quem está saudável e (por hora!) protegido.