Uma autoanálise de 2019

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Cape Cod Morning, 1950, de Edward Hopper

[Para ler ao som de Phoebe Bridgers – Smoke Signals]

As primeiras horas de 2019 foram de ressaca. Comi uma fatia de galette des rois com uma xícara transbordando de café, precisava de algo forte e gorduroso para equilibrar a quantidade de álcool que coloquei para dentro do corpo na noite anterior. Pensei que um banho poderia me ajudar a me recuperar, mas só piorou o enjôo. Estava numa cidade do interior da Lorraine, depois de uma boa festa de virada de ano, e precisava pegar meu trem de volta para casa porque trabalharia no dia 2 de janeiro. A gente começa o ano na labuta, afinal. No caminho até a estação pedi pro casal de amigos que havia me convidado à festa para fazer uma parada no McDonalds. Eu, que odeio McDo com todas as minhas forças, precisava também de algo MUITO ruim para recuperar um cadinho da energia que restava para seguir até o fim do dia e chegar na minha casa. Devo ter repetido “nunca mais eu bebo” pelo menos 300 vezes, mandado uns sei lá quantos tweets reclamando deste ato impensado, desejado vomitar em cada hora que passei acordada daquele dia. Excelente ponto de partida para um ano que abusou do seu potencial de insanidade e me pegou por uma das pernas e saiu me chacoalhando como se eu fosse um bonequinho de Lego.

Abri mão de pouco a pouco dos filtros por uma questão de sobrevivência. Para engatar a última etapa do mestrado precisei deixar um trabalho do qual gostava muito; ao mesmo tempo tinha todo o gosto do novo pela frente para aliviar as dores da despedida. Levei tempo a estabelecer laços e me habituar ao cotidiano em um projeto de cidade (brincadeira, Montbéliard. Guardo boas lembranças de ti), e quando peguei o jeito foi preciso juntar meus muitos trapinhos e ir embora. Janeiro se resumiu a colocar a vida em malas mais uma vez, me enfiar toda torta em um trem com o que deu pra levar de bagagem e desembarcar em uma cidade totalmente desconhecida.

Annecy me vendeu um cenário dos sonhos. Era surreal estar cercada de montanhas cobertas de neve, ver a composição com o lago me fez sonhar um punhado de vezes, pois na minha cabeça inocente parecia perfeito para viver experiências tão lindas quanto o ambiente. A realidade, todavia, fez questão de dizer que a beleza pode ser traiçoeira. Derrapei com tudo. Conviver com os savoyards era um martírio, tava pra nascer gente mais chata e difícil de lidar. Dada a missão de fazer um estágio em uma empresa baseada em Annecy, trabalhar naquele lugar foi tão traumático quanto aprender a lidar com essa gente. Ser expatriado é desafiador, de fato, mas quando se é inseguro o contexto piora de forma significativa.

Ao longo dos meses que passei na agência pensei muito sobre meu futuro profissional e procurei motivações para acreditar no meu potencial. Questionei minhas escolhas e o propósito delas. Me preparei para dois anos de estudo, sem nenhuma obrigação com trabalho; e no fim das contas se passei dois meses sem trabalhar foi muito. Meu corpo criou o terrível hábito de ter um emprego, sempre foi uma de minhas melhores desculpas para ocupar a cabeça e não ficar criando abobrinha em templo pleno.

Começar o estágio envolvia muita coisa, e talvez a parte mais dolorosa consistisse no fato de mudar de área. Se carregava comigo sete anos de experiência como Assessora de Imprensa, tinha um total de 0 experiências como Gerente de Projeto Digital. Me sentia vulnerável demais para dar opinião ou mesmo fazer uma pergunta que pudesse demonstrar minha falta de conhecimento, pois apesar de tudo era mestranda e havia estudado o assunto ao longo de um ano e meio. Mesmo tendo a postura de quem conhece o ambiente corporativo, tomei muitas rasteiras. O modo de pensar europeu difere muito do brasileiro e não, eles não descartam uma possibilidade sequer de mostrar sua inferioridade. O pensamento colonizador ainda tem a sua força.

A pior característica do mercado francês (talvez europeu) é a relevância dos atos negativos. Ninguém vai te parabenizar por um trabalho bem feito ou por uma ideia que gerou um bom retorno. Mas se você cometer um erro… será lembrado até o fim do seu contrato. Eles nunca vão te deixar perder o erro de memória. Mesmo depois de tantos anos trabalhando, foi o suficiente para colocar meu profissionalismo em questão. Saí acreditando que eu deveria ser muito ruim mesmo, dada a quantidade de falhas enaltecidas e os elogios inexistentes. No fundo sei que boa parte das pessoas não era lá muito profissional, mas esses acontecimentos acabam mexendo com a gente. E ferindo a minha autoestima que já não era das melhores.

Mesmo com tantos anos de terapia nas costas não soube construir uma barreira contra o jeito de agir do mercado local. A falta de humanidade e do mínimo de relacional que se espera entre funcionários me tirou do eixo e carrego comigo as consequências deste desequilíbrio.

Em 2019 encontrei amor e alento como nunca havia experimentado antes, quiçá um presente da vida para dosar todas as outras coisas que andavam se desalinhando. Foi bom ter esses respiros e encontrar conforto de quem não acompanhou as idas e vindas desses 28 anos de existência, foi essencial ter a visão de quem veio completamente de fora e sem o mesmo referencial cultural que o meu. Mas o peso foi tanto que todo esse amor não foi suficiente: ainda sucumbi nas minhas inseguranças e paranoias e nestes últimos dias de 2018 pretendo preparar o caminho para aprender mais uma vez a lidar com elas e não deixar que me consumam a energia.

No fim de 2018 escrevi um ‘texto-retrospectiva’ no Instagram onde dizia que o ano em questão havia me quebrado em muitos pedacinhos (e sim, isso aqui é uma autoanálise, então estou me quotando):

“I broke myself in so many pieces over the last year. I tore myself open, exposing everything. I’ve felt as if I was walking around naked, feeling weird but not afraid of all the people watching me. I started off 2018 with plenty of scars and trying to mend the pieces. One day I decided to repair everything with some gold powder. I end up this year looking imperfect, but yet so precious (and no, I had no time to take the classic photo with a glass of wine, it’s a shame, we’ll go for a lazy selfie taken before Christmas). I hope you all can feel like this in 2019. Happy new year ✨”

Pois 2019 conseguiu bloquear todo tipo de remendo e me quebrar ainda mais. Pisou sem dó nem piedade e cortou meu acesso ao pó de ouro. Pois temos aquela história de ressurgir feito fênix, e talvez este acabe sendo meu objetivo único para 2020. Mesmo que me custe tempo, que eu tenha força suficiente para fazer mais do que juntar meus cacos com pó de ouro. Urge, mais do que outrora, minha necessidade de ressurgir mais forte em meio a tanta desordem.

Será que volto?

Bateu saudade de mim. Desse compromisso descompromissado de vir aqui e escrever qualquer coisinha. De pensar em pautas, de compartilhar umas reflexões aleatórias vez ou outra. A internet nos engoliu de vez, as pessoas abandonaram os blogs aos poucos e viraram adeptas das newsletters (eu inclusa), depois acharam por bem viver de rede social e isso lhes basta. Ninguém conversa mais, a gente passa seis meses e enventualmente um ano sem trocar uma palavra com alguém. So it goes, como diria Kurt Vonnegut em seu Matadouro 5 (excelente livro inclusive). Longe de mim querer jogar a culpa em outrem, sinto que também sucumbi. Mesmo não me sentindo confortável, como se tivesse sido algo imposto. Bref. Senti falta. Pode ser que volte a escrever para além dos muros, redigir mais textos para ninguém ler. Quem sabe?

Minha experiência com o DIU Mirena

A Nicas é quase uma entidade/santa protetora deste blog, pois é citada em quase todos os posts. Obrigada por existir, Nicas. Visitem o blog dela pois: pessoa maravilhosa e posts incríveis.

Ela fez dois posts falando sobre o Mirena. Um sobre a decisão de colocar, outro sobre sua avaliação pós um ano com ele. Depois deste segundo texto senti vontade de contar a minha experiência pois foi catastrófica. E claro, mais do que sobre métodos contraceptivos, precisamos falar sobre a necessidade deles em nossas vidas. Não é algo exposto com tanta abertura assim, mas sabemos: a maioria quer evitar uma gravidez e só. USEM CAMISINHA, CARAI, mas se você é uma moça sem tretas menstruais, cheia de paranoias e quer uma opção a mais para evitar bebês no seu útero, o DIU de cobre resolve. Ele só inibe gravidez, você menstrua normal. Acontece que muita gente esquece das moças com ovários policísticos e com endometriose.

Caí mais ou menos na segunda categoria. Não tenho um diagnóstico, mas a médica disse que as chances de despontar uma endometriose neste belíssimo útero são altas. Conversamos muito e minha ginecologista de anos indicou parar com a pílula e colocar um DIU de hormônio (o Mirena). Pesquisei com calma para fazer tudo pelo meu convênio, que é de Campo Grande. Infelizmente não sei como funciona pelo SUS ou particular, mas a maioria das ginecologistas fazem a introdução na própria clínica. Em outros casos, só pode ser efetuado em hospitais.

Em tempos de demonizar a pílula sinto ainda mais vontade de escrever sobre o assunto. O objetivo aqui é contar minha experiência com o DIU, porém faço questão de dedicar algumas linhas em defesa da pílula. Gente, eu já tentei de tudo. Tudo mesmo. Remédios de farmácia, remédios naturais, chás, óleo de prímula. Algumas coisas ajudaram por um tempo, até meu corpo criar resistência e não ter mais efeito. Meu ciclo era porreta:

É CLICHÊ DEMAIS usar esse gif como referência, eu sei

Pois juro que era bem assim. Três dias sangrando horrores e me arrastando pelos cantos por motivos de cólicas intensas e muita dor no corpo. Sem contar o inchaço. Me sentia tal qual o boneco da Michelin. Não sou evoluída a ponto de curtir sentir dor e sangrar horrores. Com essa história de endometriose, então, não pensei duas vezes. Só comecei a tomar pílula em 2013, resisti ao longo de 12 anos de muito sofrimento com a menstruação. O fluxo sossegou, as cólicas também (sim, elas continuaram!! as cólicas me amam e são muito resistentes), e então veio aquele papo promissor de FIM das cólicas E do fluxo. Não resisti, precisava tentar.

Como é colocar um DIU?

É horrível. Não vou fazer cerimônia. Tenho tolerância super alta para dor (tatuei a costela, sabe) e pensei que fosse morrer. Pior cólica da minha vida, parecia um alien tentando rasgar as paredes do meu útero. Na hora de introduzi-lo você consegue sentir direitinho, é como se alguém te desse um soco forte no útero e continuasse empurrando. A tendência do teu corpo é tentar expulsá-lo em seguida, pois é um objeto estranho invadindo o espaço – ou seja, a cólica forte pode te incomodar ao longo de vários dias. Diminui, é claro. No dia que coloquei pensei que fosse morrer e cheguei a sentir ânsia de vômito. Nos outros dias incomodava, era chatão, mas nada comparado ao primeiro dia.

Fui 100% Carminha surtando na hora que a gineco enfiou esse negócio em mim

Ouvi dizer que a longo prazo você deixa de menstruar. É verdade?

Tenho amiga que parou mesmo, mas o meu corpo, diferente dos delas, é burro e adora menstruar. Completo um ano com o DIU no fim de março e até agora ‘menstruei’ todos os meses. Coloco entre aspas porque a menstruação tende a reduzir cada vez mais e o fluxo parece de fim de ciclo, aquela borrinha marrom. É normal ter escape no início, é o teu corpo reagindo ao “objeto não reconhecido” dentro de você. Por isso o Ultrassom transvaginal deve ser feito de seis em seis meses, pra checar se o DIU continua onde deveria estar. O deslocamento dele pode ser causar cólicas e sangramentos.

Como foi para você?

Dei muitas chances a ele, juro. Tudo começou com os escapes – foram praticamente três meses convivendo com aquilo que chamava de ‘fim de menstruação eterno’. Não dava para usar coletor, pois o fluxo era muito leve para isso; não dava pra ficar sem protetor de calcinha porque era sangue suficiente pra manchar; se colocava protetor eventualmente ficava assada e a dois passos de ter uma candidíase. Meu ciclo, que antes durava entre 5 e 6 dias, agora dura DEZ – isso depois de uns seis meses de escape infinito, claro. E bem, as cólicas… sempre tive probleminhas com isso, não faço ideia do que é uma vida sem sentir essas dores horríveis. Elas pioraram com o DIU. São mais fortes e duram mais tempo – ao menos em comparação com os tempos de pílula. A indicação visava me afastar de uma possível endometriose, reduzindo fluxo e cólicas. O fluxo melhorou, é verdade, mas o escape me incomoda muito e convenhamos – ninguém gosta de sentir dor.

Quando tenho essas cólicas porreta fico que neeem esse esqueleto

O veredicto

Cada organismo é um organismo, certo? O meu não se adaptou. Conheço outras pessoas que colocaram, amaram e não tiveram problemas. Foi até difícil pedir a opinião de outras moças porque todo mundo dizia “calma, o início é difícil mesmo”, mas os sintomas persistiram mesmo depois do primeiro semestre de adaptação. Então sim, meu plano é tirar. Vou fazer os exames de rotina assim que completar um ano de DIU e checar quais são os procedimentos para retirar.

E você? Já pensou em colocar um DIU? Tem vontade? Conte nos comentários! 😀

Andanças #2 – Intermediário

O último andanças tá quase aniversariando, veja bem. Como é ter disciplina com projetos pessoais (tipo um blog e uma newsletter, por exemplo)? Me contem nos comentários, tudo serve de inspiração nessa vida.  Desta vez só voltei com o blog depois de ter pelo menos 4 posts prontos e pauta para outros 10 (obrigada, Nicas!). Talvez não seja o caso de perder a esperança tão cedo. Vou me basear em janeiro e fevereiro para fazer esta edição 🙂

Tô assistindo: É muito ruim oscilar, não é mesmo? Fiquei no maior fogo no rabo no em janeiro, promissora no papinho de ir ao cinema pelo menos uma vez por semana. Voltei para o ciclo de cansaço pós-firma e aos fins de semana sinto vontade de mofar no sofá. Tão grande a preguiça que a pessoa nem se mobilizar a colocar uma série ou filme no pc, um pequeno detalhe. Comecei Please like me e até agora achei meio…ok. Bom, são poucos episódios por temporada, não custa nada insistir mais um pouco. Em janeiro dei sorte e assisti muita coisa boa: Elle, La la land, Manchester á beira mar e Eu, Daniel Blake. Em fevereiro vi A Chegada e A Criada. Os melhores: Daniel Blake e A Chegada. Daniel é daqueles filmes para te incitar a ficar revoltado com o sistema e refletir um pouco sobre como o governo trata o cidadão. A Chegada fala sobre a beleza e o poder da linguagem e da comunicação. Tudo tão delicado e forte. Me marcou muito.

A linguagem é uma pele, já diria Barthes <3

A linguagem é uma pele, já diria Barthes ❤

Tô lendo: Resolvi me jogar em tudo que é contemporâneo e feminino. Reli o maravilhoso Teaching my mother how to give birth, de Warsan Shire, salt., de Nayyirah Waheed, Comme une envie de voir la mer, de Anne Loyer, Confissões do Crematório, de Caitlin Doughty, A filha perdida, de Elena Ferrante e Sea Legs and Other Stories, de Candice J O’Reilly. Não se enganem pela quantidade – são livros de poucas páginas, naquele esquema de leitura rápida em contraste com a densidade do conteúdo. O da Anne Loyer peguei mais para dar uma refrescada na leitura em francês. Faz tempo que não leio no original e, antes de encarar um romance mais “sério”, peguei Comme une envie de voir la mer, que é literatura infantojuvenil. Levinho e meio bobinho, tem uma abordagem boa sobre adoção. Gosto de estabelecer uma conexão entre as poetas da lista. Sobre Warsan Shire recomendo a leitura desta matéria maravilhosa da Odhara. Ela ficou conhecida como “a poeta por trás do álbum Lemonade, de Beyoncé”, e mesmo amando essa parceria não dá para “resumir” a Warsan a isso.

Warsan Shire

Warsan Shire

Nayyirah Waheed

Nayyirah Waheed

A escrita dela me lembra demais a de Nayyirah. Ambas abordam temas pesados com leveza e falam muito sobre o feminino e pequenos sentimentos cotidianos. Acho que merecem um post à parte, vamos pensar. A Candice é mais suave, gosto de ficar relendo Sea Legs quando preciso de algo para me tranquilizar. Dói admitir que não morri de amores pelo livro da Ferrante. Amo a série Napolitana, a cada livro me envolvo mais com a ‘saga’ (vocês não sabem o quanto espero pelo quarto e último volume). Peguei A filha perdida na esperança de matar a saudade e não consegui me envolver com a história. É uma leitura rápida, bem escrita como de praxe, só não me cativou. Agora Confissões do crematório merece DEMAIS um post só para ele por diversos motivos. É um livro escrito por uma (isso mesmo, UMA) agente funerária (informação inútil: o termo em francês é croquemort, achei tão fofinho). Com este título. Quais as chances? Quem me conhece sabe, sou gótica suave e 0% entusiasta do tema morte. Depois de dez páginas estava fascinada pela indústria da morte (!!!) e, ao acabar o livro, passei pelo menos três horas assistindo vários vídeos do canal da Caitlin, Ask a Mortician. Digo mais: é um livro necessário, todos deveriam ler. Ele vai ter um texto bem especial só sobre ele, porém não posso deixar de indicar a crítica que a Anna Vitória (rainha) fez para o Valkírias.

Tô ouvindo: No outro andanças declarei meu amor pelo descobertas da semana do Spotify, e olha, nossa relação segue estável. Nas últimas semanas ele me presenteou com May this be love, de Jimi Hendrix (já ouviram? não consigo explicar bem o porquê, mas me dá uma paz!), com um cover muito gracinha de Zee Avi para First of the gang to die (a original é de Morrissey) e a exótica No ordinary man, de Salt Cathedral (também não encontrei o que me cativa TANTO neste clipe, mas já perdi a conta de quantas vezes assisti).

Tô visitando: Deveria sossegar minha bunda na cadeira e ficar em casa por motivos de dedicação a projetos pessoais e necessidade de economizar. Porém a vida, amores, ela vive nos enchendo de oportunidades para sabotar esses planos todos. Desde o início de 2017 conheci três lugares novos. O primeiro, a Taverna Medieval, já ganhou o coração dos nerds todos por motivos que o próprio nome do local explicam. Tem uma pegada bem Game of Thrones por lá, mas eles homenageiam o universo nerd como um todo. São bem cuidadosos com a questão da decoração do ambiente e da forma como as coisas são servidas. Uma das mesas, aliás, imita um barco viking. Os funcionários da casa usam roupas medievais e te abordam com “milady” e “milord”. Vale muito pela experiência e tudo que experimentei estava bom.

O copo pé medieval, mas a IPA era moderna e estava uma delícia (700ml de pura felicidade)

O copo pé medieval, mas a IPA era moderna e estava uma delícia (700ml de pura felicidade) [e sim, isso foi na Taverna Medieval)

Também fui conhecer o Red Bull Station. Fica colado na minha casa e por motivos obscuros só havia observado de longe. Descobri que além do espaço para exposições, o prédio possui um estúdio de gravação, um restaurante (chamado Cafeteria), e um terraço super gostoso. A Cafeteria tem menu executivo por R$39, compensa muito pelo valor. Aquele alô também aos amigos fotógrafos – para quem procura uma locação no centro, o Red Bull é uma boa pedida. A construção é bonita e possui vários espaços a serem explorados para um ensaio. Última descoberta – e digo isso rindo meio constrangida – foi o Mandíbula. Sempre perambulava pela Galeria Metrópole, moro ao lado, mas nunca tinha entrado no bar. Tem música, drinks, gente descolada, e na quarta rolou mais uma edição do Garotas no Poder (um grupo no facebook onde as meninas podem postar seus CVs ou oportunidades de trabalho só para gurias), com várias moças vendendo coisas legais para usar no carnaval. E fica coladinho na Taperá Taperá, uma livraria/biblioteca que também promove debates e exibe filmes de vez em quando. O legal da Galeria Metrópole é que, embora seja enorme, possui poucas lojas ativas. E essas poucas merecem demais sua atenção. Volto a falar sobre lá em outro post 🙂

Muito diva (risos) em uma das escadas externas do Red Bull Station

Muito diva (risos) em uma das escadas externas do Red Bull Station

Tô sentindo: Um combo DELÍCIA de angústia e ansiedade. Uma é complemento da outra, como a combinação de arroz com feijão. Não é o cenário ideal,  rola toda uma batalha diária para sobreviver no meio desse caos . Aos trancos e barrancos sempre, mas batalhando dentro das minhas possibilidades para não transformar tudo isso em um estado constante. Tudo é transitório, vai passar. Por hora sigo na investigação dessas dores, quero entender o que as desencadeia, por que ainda me incomodam tanto, etc. Não sucumbir é difícil? Sim. Pois tem sido curioso aprender a ter paciência para entender que não se deixar levar pela dor é possível. Vão por mim. 🙂

Desacelerar

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Entra ano, sai ano, e sigo no processo inconsciente de me pilhar cada vez mais. Aquela mania de arranjar mil compromissos, sentir culpa ao recusar convites, e terminar reclamando da falta de tempo. Muito bonito ser responsável pela própria desgraça, não é mesmo? Culpei São Paulo por muito tempo pois se enganar é outra arte que domino com muita habilidade. O nome disso é simples: vida adulta. Às vezes releio uns textos antigos do meu outro blog e penso naquela inocência de não ter noção do que me esperava no pós-20 anos. O mecanismo parecia tão simples em teoria: terminar a faculdade, arranjar um trabalho ou continuar onde já estava, sair vez outra e pagar as contas. Mais ou menos como comprar passagens aéreas sem pensar em hotel e no dinheiro a ser gasto no destino.

Desconstruí o mecanismo dentro das minhas possibilidades e descobri o quão difícil é parar e respirar quando nos jogamos no meio do furacão. É como se até nosso corpo relutasse em aceitar que por vezes é preciso desacelerar. Ele teima muito e quando aceita e entende o quão problemático pode ser para você, se manifesta. Assim nascem a gastrite, a enxaqueca, ou qualquer outro tipo de mal-estar físico. Teu corpo te força a dar um tempo. Comigo aconteceu na forma de um joelho com diagnóstico de condromalacia patelar, mas já perdi a conta de quantas vezes tive crises pesadas de gastrite e rinite ao ser confrontada por problemas cotidianos. Foi importante dedicar meu tempo ao autoconhecimento porque hoje consigo pegar muitos desses sintomas antes de se manifestarem.

Quando entramos na vida adulta, muita coisa foge do nosso controle. Uma recomendação que sempre faço às amigas à beira de um ataque de nervos como eu é tirar um tempo para refletir e, se possível, pegar um papel e anotar todas as coisas que estão te incomodando no momento. Analise uma a uma. Escrever ajuda a observar com mais clareza. Você vai notar que muita coisa da lista pode ser resolvida com medidas simples – e dá até pra montar um cronograma em cima disso, colocando os itens mais “resolvíveis” no topo e deixando coisas a longo prazo para o fim da lista. Às coisas mais impossíveis, cabe refletir sobre alternativas para lidar com cada uma.

E claro, essa é a parte do choque de realidade. Pensamos em alternativas e as mais viáveis nem sempre são as que gostaríamos. Parte do processo de autoconhecimento consiste, aliás, em entender quais são os seus limites e respeitá-los.

Eu, por exemplo, me encontrei na escrita. Nada elaborado e com o intuito de ser publicado. De costume pego a agenda e escrevo uma frase mesmo, simples, curta e direta. Colocar no papel é como transferir um sentimento do corpo para outra instância. Na minha cabeça isso traz um pouco de conforto ao momento, mesmo que seja uma coisa rápida. Tem gente que vai colorir, correr, pintar, desenhar. Comigo funciona escrevendo.

Este primeiro post de 2017 é um convite às velocidades reduzidas, ao “dar tempo ao tempo”, respeitar o nosso ritmo – que nunca vai se adequar ao considerado certo pelos outros. Permitir-se parar antes que o corpo resolva pedir bandeira branca.

Ser vista

Já fui como uma boneca para minha irmã. Quando era pequena, ela me montava. Arrumava cabelo, maquiava, e fazia ensaios completos. Lembro pouco da minha versão pequena, tão desinibida e espontânea nos registros. Houve algum impacto na transição infância – adolescência, pois peguei horror de câmeras. Talvez fosse o efeito dos hormônios, eu não tinha mais a graça de uma boneca, fiquei disforme, meus cabelos entraram em uma longa crise de identidade, calças não me serviam, até a fala virou fiapo. Era assustadora a possibilidade de ter registros físicos daquela fase. Me esquivei ao máximo, como toda adolescente habilidosa. Até arrisquei ficar atrás das câmeras por um tempo e encontrei na atividade muito amor. Me dediquei por um bom tempo e nem me dei conta do momento em que a abandonei.

Ser fotografada outra vez – ainda mais agora, adulta, não passou pela minha cabeça. Até conhecer o trabalho da Pryscilla. Ela é de Brasília, um ano mais nova que eu, e de um talento sem igual. Vi em seu olhar muita delicadeza para fotografar o feminino. Cada foto transparecia poesia e melancolia. De imediato me identifiquei com essas características e arrisquei mandar uma inbox manifestando interesse em fazer um ensaio.

Pensei em minhas vivências e em quanta coisa me machucou ao longo de 2016. Foi um ano pesado para todo mundo, claro, e em meio a tantas desgraças tive algumas lições de amor próprio. Dei abertura para trocas, ouvi muita gente, opinei, e aprendi a aceitar elogios. Foram anos brigando com o corpo, me sentindo feia e, se não bastasse, apareceram pessoas pelo caminho que faziam questão de se aproveitar disso para me diminuir ainda mais. Aqueles comentários inocentes que enaltecem o quão magra, bonita e desejada você é podem tocar em questões sensíveis para quem possui baixa autoestima, fica a dica. A sociedade como um todo é bem doente da cabeça também, com esse anseio maluco de esfregar padrões na nossa cara. Sabe, ninguém se ajuda, ninguém vai TE ajudar. Aprender a gostar da imagem refletida no espelho depende apenas de você.

Entendi, a muito custo, que não era gorda, nem feia e que oras, essa obsessão por padrões não precisa fazer parte da minha vida. Passei a reconstruir minha imagem – e para mim, a quem isso de fato importa. Não foi um advento milagroso e nem passei a me achar a pessoa mais linda do mundo, mas agora respeito minhas particularidades e estou na luta para visualizar meus defeitos com mais carinho, deixar de lado essa coisa de ser tão agressiva comigo mesma. Deu vontade de guardar uma lembrança desta aceitação. De um dos pontos mais significativos deste ano, por sinal. Depois de tanto tempo batendo boca com a minha imagem e autoestima, consegui até abrir mão do tal estigma do egoísmo.

Queria alguém capaz de colocar minha essência nas imagens – não só essa beleza em vias de descoberta, mas também minha sensibilidade e todas as outras questões psicológicas que seguem aqui dentro e, em certa medida, despontam no meu corpo. A Pryscilla parecia a pessoa ideal para isso, e naquela época não conseguia mensurar o acerto da minha decisão.

Depois de acompanhar tanta gente descrente das perspectivas profissionais (me incluo neste time), ver alguém tão apaixonada pelo que faz foi algo bem próximo à experiência de entrar no mar pra renovar as energias. A Pry é dedicada a ponto de “investigar” o fotografado antes mesmo de agendar a data do ensaio. Trocamos muitos áudios no whatsapp. Nunca fui fotografada e desconhecia essa troca prévia, não tenho ideia de como funciona normalmente, mas não imaginava que ela pediria mais do que fotos de referência. De repente me deparei com uma pessoa preocupada de verdade em colocar nos retratos muito mais do que minha imagem. No dia do ensaio não foi diferente – conversamos muito antes de dar início à sessão. Ela foi cuidadosa o tempo inteiro, a ponto de conseguir me tranquilizar com essa ideia – até então muito maluca para mim – de ser fotografada.

Estar em evidência foi diferente e inesperado – no fim das contas gostei da experiência. Não senti vontade de olhar as fotos no visor ao longo da sessão, queria me deixar surpreender. E olha, o visor apresenta uma versão compacta, não dá para mensurar. Fiquei em choque quando recebi o arquivo com o ensaio completo. No primeiro momento não me reconheci. Era difícil acreditar que poderia transmitir tanta força no olhar e me achar bonita de verdade. Reconheci em cada retrato o melhor de mim. Foi como visualizar a Lidyanne de agora dando uma surra na Lidyanne que entrou na primeira sessão de análise repetindo a frase “eu sou muito fraca”.

Por isso digo: nunca subestime o poder positivo da imagem. Use a seu favor. Se você precisa de um empurrão para dar início a essa saga em busca de amor próprio, faça um ensaio – vale demais o investimento. E se for para fotografar com a Pryscilla, incentivo ainda mais a ideia.

Ela me enviou as fotos em um momento fundamental. Ao observá-las me senti segura para tomar algumas decisões, consegui acreditar na minha força e no meu potencial. Iniciei um trabalho diário para encontrar cada característica positiva vista nos retratos. Entrei em contato com a minha reflexão pós-meia maratona. Em todo o percurso, em especial após os 16k, comecei a proferir mensagens motivacionais capazes de ofuscar a dor nos pés. Foi uma sequência de “você não tem dimensão da sua capacidade”, “é mais forte que imagina”, “vai, você é valente e já aguentou tanta coisa, o que é uma corrida de 21k?”, e variações de tudo isso. Precisei daquilo para dar conta dos mini-saltos da corrida ao longo de duas horas e vinte minutos. Se eu conseguia acreditar nas minhas palavras para me levar ao pórtico no fim do percurso, por que era tão difícil me aceitar e dizer palavras positivas para mim no dia a dia?

As fotos deram corpo a essas frases. Agora basta me sentir para baixo para abrir essas fotos, olhar uma a uma, e não me deixar levar por pensamentos pesados e negativos. Amor próprio é construção, e para se colocar no mundo essa edificação precisa se sustentar. Ter essa segurança te ajuda a encarar o mundo com mais leveza, a se sentir mais humana perto de outras pessoas e aliviar a carga das cobranças sociais.

love is flying, sown, floating

o coração é também uma cicatriz.
grande, em carne viva, de pulsações meio  violentas.
parece uma criança levada em seu descontrole.
não dá para segurar com as mãos,
às vezes nem com a alma.
tirei dele as ataduras, uma a uma.
“take off your band-aids ‘cause i don’t believe in touchdowns”
tô deixando tomar um ar.